Projeto desmistifica Ciências da Natureza para estudantes do Ensino Médio
Projeto desmistifica Ciências da Natureza para estudantes do Ensino Médio
Experimentos práticos realizados nas escolas e na Universidade estimulam a curiosidade das criançasDurante o Ensino Médio, período de preparação para a aguardada temporada dos vestibulares, disciplinas de Ciências Naturais, como a Química, costumam gerar resistência de parte dos alunos. Assim sendo cálculos, fórmulas e fenômenos acabam se tornando fontes de dor de cabeça nos estudos para as provas. Na direção contrária a essa realidade, o projeto de extensão “Introdução de Conceitos das Ciências Naturais na Educação Infantil de Escolas Paranaenses por Meio da Experimentação” promete combater o temor construído sobre a área pela raiz.
Coordenado pela professora Maria Luiza Zeraik, com apoio das docentes Roberta Antigo Medeiros, Carla Cristina Perez e Fabiele Cristiane Dias Broietti, todas do Departamento de Química da UEL, a iniciativa é movida pela missão de despertar o interesse de crianças pelas ciências da natureza e aproximá-las de conhecimentos da área via experimentos práticos.
Contando com graduandos e pós-graduandos de Química e Farmácia no planejamento e execução das atividades, o projeto, pretende desenvolve o espírito investigativo e a habilidade de resolução de problemas desde os primeiros anos do ensino, ressaltando a importância dos questionamentos na formação escolar. Na marca de dois anos de existência formal, as atividades realizadas no período abordaram temas presentes no dia-a-dia infantil e, divididas em duas fases, atenderam alunos de três a 10 anos de instituições públicas e privadas de ensino em Londrina.
“Muita gente ainda enxerga a Química, a Física e a Matemática como áreas difíceis, e isso gera uma resistência que passa dos alunos para os professores. Nossa proposta é transformar essa percepção, mostrando que a ciência está presente nas pequenas coisas do cotidiano. Queremos que as crianças cresçam percebendo que aprender pode ser prazeroso, que a Química não é um desafio impossível, ela pode ser fascinante quando descoberta com curiosidade e experimentação”, explica Zeraik.
Processo
Durante a etapa inicial, desenvolvida em 2024 e focada em faixa etária dos três aos seis anos, a equipe extensionista organizou três encontros no Centro de Educação Infantil (CEI), vinculado à UEL, e no Colégio Navegantes, da rede privada. No primeiro, com uma folha em mãos, as crianças foram convidadas a expressar em desenhos o que a ciência representa em suas vidas, parte de oportunidade para o exercício da criatividade e imaginação. “Elas desenharam coisas variadas e foi bem legal. Uns desenharam natureza, outros já desenharam cientistas, representaram explosões. Eles desenhavam e depois a gente discutia com eles o que era ciência”, comenta a coordenadora.
Os encontros seguintes trabalharam com experimentos envolvendo indicadores ácido-base naturais, grupo de substâncias fracas das mesmas duas classes que mudam de coloração conforme o índice do potencial hidrogeniônico (pH) do meio em que são inseridas. O pH é medido em escala que vai do um ao 13 e tem relação com a quantidade de íons positivos de hidrogênio (H+) em uma solução, maior nas ácidas (pH 1 a 6), menor nas básicas ou alcalinas (pH de 8 a 13) e neutro, por exemplo, na água pura (pH 7).
Em um deles, as crianças participaram da extração, a partir de folhas do repolho roxo, da antocianina, pigmento da classe dos flavonoides que dá as cores vermelha, roxa e azul a frutas, flores e vegetais. Auxiliadas pelos organizadores, também fizeram a pipetagem, ou seja, medição de diferentes volumes e transferência para outros recipientes, da substância em produtos do cotidiano, como vinagre, detergente e sabão em pó. Em contato com a água, o pigmento mantém a coloração roxa, mas, em soluções ácidas, ganha tons vermelhos e, em meios alcalinos, assume a cor verde, podendo se tornar amarelo caso a solução seja fortemente básica.
A “revelação da mensagem secreta”, experiência também trabalhada na extensão, envolve fenômeno similar. Como parte da atividade, desenhos “invisíveis” são feitos com tinta produzida pela mistura entre bicarbonato de sódio e água em papel branco. Após a secagem da folha, o “revelador” entra em ação: a pasta formada por pó amarelado extraído da cúrcuma (açafrão-da-terra), álcool em gel e água é passada por cima dos rabiscos, evidenciando-os em tons avermelhados.

Presente no pó retirado da planta, este utilizado como tempero e também comercializado em cápsulas ou cremes pela sua ação antioxidante e anti-inflamatória, o pigmento curcumina, responsável pela cor do composto, se torna vermelho na reação com substâncias básicas, como o bicarbonato, e permanece o mesmo no contato com meios ácidos e neutros. “Quando começamos a apresentar conceitos de Química às crianças, percebemos o quanto isso despertava curiosidade nelas. O momento em que o indicador mudava de cor virava festa e qualquer transformação química era motivo de encanto. Elas vibravam diante dessas mudanças, e ver o brilho nos olhos e a empolgação em cada experimento foi algo muito gratificante”, relata.
Iniciada neste ano, a segunda etapa trouxe novas configurações ao público-alvo e à proposta, contemplando o Ensino Fundamental I, de crianças entre 9 e 10 anos de idade, convocadas agora a comparecer ao campus da UEL. Com transporte oferecido pela Universidade, mais de 100 alunos da Escola Municipal Maestro Roberto Pereira Panico, divididos em quatro turmas, foram recepcionados para programação interativa no Laboratório de Ensino e Pesquisa em Educação Química (LEPEQ). “Muitos deles nunca tinham entrado em um laboratório, é um mundo totalmente novo. Além de saírem da escola e conhecerem outro ambiente, têm contato com a universidade, com os laboratórios, com as vidrarias e equipamentos. Essa experiência amplia horizontes, agrega mais do que se estivéssemos apenas na escola aplicando as atividades”, argumenta Zeraik.
A atividade realizada no local debateu a solubilidade das substâncias, tomando balas como objetos de estudo. Ao presentear as crianças na chegada com balas de coco, professores e extensionistas as convidaram a pensar nas variáveis por trás do processo em questão. Tendo estudado as propriedades da matéria em sua grade curricular, os alunos foram segmentados em bancadas com seis integrantes (três duplas), encarregadas de submeter os doces – solutos, no vocabulário químico – a diferentes cenários de dissolução, ou seja, de dispersão em uma outra substância, o solvente, para formação de uma solução.

Como pequenos cientistas à frente de seus béqueres, avaliaram o comportamento dos solutos sob temperaturas diferentes, a resposta dos mesmos à presença ou ausência de agitação e atrito com pistilo e o papel de tipos distintos de solvente e da variedade na composição das balas, analisando a influência desses fatores no processo de solubilidade. Em seguida, os estudantes responderam a um questionário com questões relacionadas aos experimentos para avaliar o nível de compreensão alcançado. “No final, cada grupo de estudantes vinha apresentar para as outras crianças o que tinha feito de experimentos. Eles apresentavam e discutiam com a turma. Além de eles fazerem o experimento, ainda tinham essa habilidade desenvolvida de apresentação, interpretação, de falar e explicar para o outro tudo que tinham feito”, relembra a professora.
Resultados
O projeto está em fase de compilação dos resultados catalogados para divulgação do material. No momento, dois artigos com observações dos encontros realizados na primeira fase estão na etapa final de produção, tendo em vista a publicação em revista científica da área de Ensino de Química. Entre os dados reunidos, figuram a recepção das crianças às atividades e percepções dos graduandos envolvidos sobre a importância da extensão em sua formação acadêmica e no desenvolvimento de práticas de ensino, cruciais aos interessados na docência.
Sob supervisão das docentes, os 15 estudantes de Química e Farmácia matriculados se responsabilizaram pela busca dos experimentos na literatura e pela redação e aplicação das práticas perante as escolas, seguidas de explicações sobre os casos apresentados. Segundo a coordenadora, em relação ao ano anterior, o progresso dos inscritos na desenvoltura das apresentações foi visível e representa um passo significativo na procura por uma linguagem que torne a ciência acessível a todos os públicos, desafio comum a aprendizes e mestres. “Como você explica para uma criança de 10 anos o conceito de pH ou algo sobre solubilidade e soluções? É preciso adaptar a linguagem, mudar a forma de falar. Tudo isso é aprendizado. Divulgar ciência exige diálogo e acessibilidade, ela precisa chegar a todos”, complementa.
A meta do empreendimento é ampliar o leque de instituições de ensino contempladas e de experiências trabalhadas nas unidades, realizando práticas já vigentes e incluindo outras previstas no esboço do programa, que se ocupam de fenômenos relacionados a ondas e cromatografia. Mais do que isso, a equipe de pesquisadores segue movida pela missão de continuar encantando as crianças com as Ciências Naturais, cativando as novas gerações para a construção de vínculos fortes com o conhecimento e fazendo com que mais jovens e crianças digam, com orgulho e brilho nos olhos: “Quero ser cientista”.
*Estagiário da Coordenadoria de Comunicação Social
