Cinco mulheres foram assassinadas por dia em 2025, anuncia Relatório de Feminicídios do LESFEM
Cinco mulheres foram assassinadas por dia em 2025, anuncia Relatório de Feminicídios do LESFEM
Levantamento mostra perfil de boa parte das vítimas, mortas ou sobreviventes aos ataques: mães, jovens, parceiras atuais ou antigas dos agressores, atacadas em suas próprias casas no fim de semana com arma branca.O feminicídio é o desfecho fatal da violência de gênero contra a mulher. O Brasil registrou 6.904 casos consumados e tentados em 2025, representando um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, que somou 5.150 ocorrências. Foram 4.755 tentativas e 2.151 assassinatos efetivos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia país adentro. Os dados, compilados pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM/UEL), representam um recorde nacional, com o maior número de registros desde o início do trabalho do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), em 2023.
O Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 revela o perfil das vítimas e dos agressores. Entre os quase 7 mil casos, predomina o feminicídio íntimo (75%), que se refere aos casos de violências contra mulheres cometidas por um ou mais agressores que fazem ou fizeram parte de seu círculo de intimidade. Como exemplos, estão o marido, ex-marido, companheiro (a), namorado (a), ex-namorado (a), amante ou uma pessoa com quem a vítima tem filhos (as).
A tipologia decorre da negativa da mulher em ter relação íntima com o agressor, que, por sua vez, “expressa atitudes de extrema violência de gênero, que são consequências da sociedade e cultura brasileira, caracterizada pelo machismo, racismo e sexismo”, lê o documento.
Milhares de vidas afetadas
A maior parte das vítimas (30%) se enquadra ou enquadrava na faixa etária dos 25 a 34 anos, com uma mediana de 33 anos. Ao menos 22% das mulheres, no total, realizaram denúncias contra os agressores anteriormente ao feminicídio, e 69% – com dados conhecidos – tinham filhos ou dependentes. O levantamento aponta que 101 vítimas estavam grávidas no momento da violência, e que 1.653 crianças foram deixadas órfãs pela ação dos criminosos.
Ainda, a maioria das mulheres foi morta ou agredida em sua própria casa (38%) ou na residência do casal (21%), reforçando a hegemonia dos feminicídios íntimos.
Perfil do agressor
A idade média dos agressores é de 36 anos. A grande maioria agiu individualmente no ano passado, com 94% dos feminicídios cometidos por uma única pessoa, ante 5% praticados por múltiplas. Sobre o meio utilizado, boa parte (48%) dos crimes foi cometida com arma branca, como faca, foice ou canivete.
Foi registrada a morte do suspeito após o feminicídio em 7,91% dos casos com dados conhecidos. O óbito decorreu de suicídio na maioria, sendo 7,76%. A prisão do suspeito foi confirmada em ao menos 67% das ocorrências com informações conhecidas.

Mais casos mês a mês
Também a nível nacional em 2025, os meses com maior quantidade de registros de feminicídios consumados e tentados foram dezembro (650), agosto (633) e outubro (606). Comparando com o ano anterior, cada mês expressou aumento no número de casos.
Os estados com mais registros são: São Paulo (1.143), Minas Gerais (487) e Bahia (462), que lideram em números absolutos. Somente três estados apresentaram diminuição no número de ocorrências, sendo o Paraná (de 424 a 357), Rio de Janeiro (de 250 a 200) e Piauí (de 163 a 154). Nos últimos dois anos, Rondônia permaneceu com 127 ocorrências. Confira os dados completos das Unidades da Federação:

Dias de descanso aumentam o risco
O relatório traz a distribuição de feminicídios por dias da semana, demonstrando que as datas de descanso, nas quais aumenta o convívio familiar, representam maior exposição ao risco para as mulheres. Domingo é o dia com a maior incidência (20%), seguido do sábado (18%). O mesmo ocorre nos meses comumente permeados por férias escolares, período em que as vítimas tendem a se afastar do trabalho.
Silvana Mariano, coordenadora do LESFEM e professora do Departamento de Ciências Sociais da UEL, considerou que são necessárias “mudanças profundas nesses padrões de relacionamentos, além de mais investimentos em ampliação das redes de proteção, porque não é admissível que períodos de descanso representem risco de morte para as mulheres”.

‘Não é briga de casal, é tentativa de assassinato’
Mariano disse ainda que a tendência para 2026 é que os casos sigam aumentando, visto que a sociedade escancara a misoginia e a normalidade de expressar ódio às mulheres. “Menosprezo, preconceito, discriminação, a desqualificação da mulher é algo banalizado hoje. Assim, decorre a disposição de um homem de agredir uma mulher e até matar”, completou.
Porém, o número maior de ocorrências também se dá pelo fato dos registros serem progressivamente mais fiéis, com a imprensa noticiando casos definidos corretamente como feminicídios cada vez mais. “O feminicídio tentado, historicamente, tem uma subnotificação muito maior do que o feminicídio consumado, mas isso tem melhorado. As autoridades estão reconhecendo mais, a imprensa tem identificado melhor, nós estamos compreendendo melhor esse tipo de risco de morte como sociedade, que não é briga de casal, é tentativa de assassinato”.
Metodologia aplicada
O levantamento do LESFEM é baseado em casos com indícios de feminicídio noticiados diariamente pela imprensa não estatal, conforme tipologias e definições das Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres (feminicídios) e do Mapa Latino-americano de Feminicídios (MundoSur, 2025).
A metodologia compreende uma perspectiva de gênero e um leque amplo, com o banco de dados do MFB confrontado com os registros do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP). Quando são identificados casos presentes no Sistema, mas ausentes no levantamento inicial do MFB, eles são incorporados à base.
Memorial para vítimas paranaenses
O LESFEM também divulgou a edição 2025 do Memorial de Vítimas de Feminicídio no Paraná, que registrou 122 casos consumados. São listados os nomes, vínculos e parte da história destas mulheres, que tiveram a vida interrompida pela violência de gênero. A publicação integra o MFB e reafirma a memória como dimensão do enfrentamento institucional ao feminicídio.
Desde janeiro deste ano, o Brasil conta com o Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, a ser honrada pela primeira vez no dia 17 de outubro.
*Bolsista na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
