O Silêncio que Fala: Pesquisa explora a natureza e a Filosofia do Cinema por Stanley Cavell
O Silêncio que Fala: Pesquisa explora a natureza e a Filosofia do Cinema por Stanley Cavell
Proposta procura analisar em que medida o cinema pode ser considerado uma arte modernista, além de explorar suas fases de transiçãoProjeto coordenado pela professora do Departamento de Filosofia – CLCH, Andrea Cachel, investiga a transição entre o cinema clássico e moderno sob a ótica do filósofo norte-americano Stanley Cavell, destacando a potência da imagem para expressar o “indizível”. O estudo se debruça sobre a obra do filósofo e autor considerado fundamental para entender a linguagem cinematográfica e sua evolução.
A docente detalha o processo de produção da pesquisa no campo da Filosofia do Cinema e diz que a pesquisa, além de investigar a transição entre o cinema clássico e moderno, também explora como a linguagem cinematográfica mantém sua natureza essencial. Um dos pilares dessa investigação está justamente na definição e distinção dessa fase de transição que marcou a arte, virada histórica que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial. Conforme a professora, Stanley Cavell foi um defensor das características do cinema clássico e questionava se a fase moderna consegue manter a “natureza” original da sétima arte.

Para explorar essa transição, o trabalho utiliza o conceito de automatismo e dialoga com grandes teóricos da Arte, como Clement Greenberg e Michael Fried. “A pesquisa pensa esse cinema modernista como uma segunda fase e busca entender o que é emprestado das tendências da arte moderna e o que é preservado da linguagem original do cinema”, explica a pesquisadora.
A metodologia utilizada envolve o estudo rigoroso de textos e a análise de filmes, estendendo-se também a obras contemporâneas. Além da fundamentação teórica, o projeto não se limita à teoria pura. A pesquisa analisa obras que vão desde os clássicos indicados por Cavell em seu livro ‘The World Viewed’, como filmes de Frank Capra, Billy Wilder, Alfred Hitchcock, Marcel Carné, Jean Renoir e Jean-Luc Godard, até produções contemporâneas como o filme “Retrato de Uma Jovem em Chamas” (2019), da diretora Céline Sciamma, ‘Limbo’ (2021), produzido em Hong Kong, e o premiado ‘Drive My Car’ (2021), do cineasta Ryusuke Hamaguchi.
Tal debate tem originado artigos, em parceria especialmente com os pesquisadores Pedro Monte Kling, professor colaborador do curso de Cinema, na Universidade Estadual do Paraná – Unespar, e doutorando em Filosofia na Universidade Federal do Paraná – UFPR, e Igor Costa do Nascimento, doutorando em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Potência do Silêncio
O diferencial deste projeto é o foco no tema do silêncio dentro do cinema sonoro. Andrea Cachel investiga como a imagem cinematográfica possui uma inteligibilidade própria, capaz de constituir sentido de forma independente da narrativa clássica. A capacidade da imagem de expressar o que é incomunicável pela palavra.
O objetivo é ressaltar o poder das imagens de apresentar aquilo que não pode ser dito. “O silêncio, no sentido do incomunicável e daquilo que faz parte da vida humana, é o que Stanley Cavell define como a natureza do cinema”, afirma a professora.
Desde 2024, a Filosofia do Cinema tem sido o foco central do projeto coordenado pela professora Andrea, com conclusão prevista para 2027. A pesquisa atual é o fechamento de uma sequência analítica que já explorou temas como o automatismo e a produção de sentido nas telas.
O que é a Filosofia do Cinema?
A professora esclarece que a Filosofia do Cinema se insere na área da Estética, campo vasto que nasceu no século XVIII, centrado na figura do sujeito, formas da percepção e, nas palavras dela, “trata de como a mente se relaciona com a sensibilidade. A Filosofia do Cinema não foca apenas na recepção do espectador, mas em uma ontologia do cinema (o que define essa linguagem), além de em seus impactos na sociedade, na política e na ética”, argumenta Cachel.
Ela cita que, historicamente, as primeiras abordagens do cinema foram colocadas de forma mais crítica por pensadores como Walter Benjamin, Max Horkheimer e Theodor Adorno, que o viam sob a ótica da Reprodutibilidade Técnica e da Indústria Cultural. No entanto, autores como Gilles Deleuze e o próprio Stanley Cavell permitiram que a Filosofia passasse a ver o cinema como uma forma de pensamento e como uma expressão da nossa subjetividade.
Colaborações e integração acadêmica
A pesquisa é caracterizada por uma rede de colaboração e integração entre estudantes de graduação e pós-graduação do curso de Filosofia, além de congregar à participação de pesquisadores de Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Juiz de Fora e Londrina.
Com a recente entrada da professora nos programas de Mestrado em Filosofia e Comunicação Social, a expectativa é de que os novos projetos promovam uma fusão entre essas áreas e ampliem o debate sobre a produção de sentido nas mídias e na arte cinematográfica.
Ainda segundo a professora, a disseminação científica dos resultados da pesquisa tem ocorrido por meio da produção de artigos científicos, minicursos, debates e por meio da participação em eventos que conectam a filosofia tradicional aos desafios do cinema atual.
Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social*
Foto: The Point Magazine*




