Autores menos conhecidos do Modernismo são foco de projeto
Autores menos conhecidos do Modernismo são foco de projeto
Escritores que passaram os últimos 100 anos na obscuridade são trazidos ao holofote pelo projeto “Releituras do Modernismo” da UELO movimento modernista foi um dos mais importantes movimentos culturais do Brasil, rompendo com as tradições artísticas clássicas do país, inspirando-se nas vanguardas europeias. Mesmo com a Semana de Arte Moderna de 22, seu principal evento, ocorrendo há mais de 100 anos, e o manifesto antropofágico há 98 anos, ainda possuem influência sobre a cultura brasileira.
O projeto “Releituras do Modernismo”, que iniciou em 2024 e tem previsão de conclusão em 2027, busca explorar as contribuições de alguns dos autores deixados de lado por outras pesquisas do movimento, como Geraldo Ferraz, Patrícia Galvão, Rosário Fusco, António de Alcântara Machado e Oswaldo Costa.

Segundo Cláudia Camardella Rio Doce, Doutora em Teoria da Literatura e Docente de Literatura Brasileira e Teoria Literária na UEL, a ideia do projeto foi inspirada no interesse renovado pelo movimento com o seu centenário, que levou à publicação de materiais inéditos. “O objetivo inicial do projeto era ter uma compreensão mais abrangente do que foi o modernismo, fazer uma espécie de releitura, a partir desses materiais“, relata.
Processo de Estudo
As discussões sobre os autores são realizadas durante reuniões com os alunos participantes de graduação e pós-graduação, nas quais são lidos tanto os textos literários, como também textos críticos e teóricos. Entretanto, o projeto não se limita a apenas a leitura e análise dos textos, mas também incentiva a produção acadêmica individual de seus membros sobre eles.
Atualmente, estão em desenvolvimento uma tese de doutorado, uma dissertação de mestrado e duas pesquisas de iniciação científica com ligação direta ao projeto, assim como a produção da própria professora Camardella sobre o tema, e outras duas iniciações científicas já concluídas em 2025, divulgadas em eventos científicos e publicações.
A pesquisadora afirma que a produção de conhecimento é um fator constante do processo, explicando que “conforme as pesquisas avancem ou sejam finalizadas, novas produções aparecem. E sempre há a possibilidade de que novas pesquisas surjam a partir das leituras e discussões promovidas no âmbito do projeto”.
O lado inexplorado do Modernismo
Para a professora, ao explorar a produção de autores menos conhecidos, busca-se trazer ao foco obras que passaram o último século na obscuridade, assim chegando a novos caminhos para interpretar essa etapa da história brasileira. “Quando lemos essas obras, acabamos redimensionando o que foi o modernismo, e percebendo que conhecemos apenas uma fração do movimento”, afirma.
Segundo Camardella, o século que passou tratou os autores do movimento de forma diferente, relatando que tiveram aqueles que caíram no esquecimento quase
completamente, os que foram reconhecidos mais recentemente, tendo sua obra
republicada, e os que sempre foram reconhecidos e estudados.
Mas a professora também chama a atenção para aqueles que, apesar de não serem tão conhecidos pelas suas produções literárias, são lembrados por contribuições em outras áreas. “É o caso, por exemplo, de Patrícia Galvão, a Pagu. Muito mais celebrada como ícone feminista e por sua atuação política do que por seus escritos”, exemplifica.
Modernismo e Atualidade
Mesmo a cultura atual do Brasil ainda tem muitos traços do Modernismo, representando um ponto de ruptura com a dominação colonial do país e o seu modo “engessado” de agir. “O modernismo implementou uma forma de escrever muito mais simples e direta, e mais próxima da forma como falamos, o uso de gírias, as frases curtas e diretas e a mistura de gêneros foram todas conquistas consolidadas no modernismo”, argumenta a professora.
A visão da identidade nacional além da alta cultura também tem parte de sua origem com o movimento. Camardella afirma que “o modernismo, em sua busca pela brasilidade, valorizou aspectos diversos da cultura popular e das contribuições dos diferentes povos que nos formaram. Seja no vocabulário, na dança, na música, na gastronomia e outros aspectos”.
Camardella também argumenta que existem lições importantes a serem aprendidas com o Modernismo e com a visão decolonial que ele passa do que realmente é o Brasil e o brasileiro. “Aprendemos que toda arte é política, que tem ideologia. Que é espaço de liberdade, não deve ficar presa a regras e valores impostos. Também aprendemos a tirar a arte do pedestal, a valorizar as diferenças, a cultura popular, as múltiplas contribuições. Aprendemos a lutarmos pelo que acreditamos, que é possível mudar o mundo quando associamos discurso e prática”, reflete.
Antropofagia
A ideia da Antropofagia –inspirada nos rituais dos indígenas Tupinambás– foi um dos movimentos de maior influência do modernismo brasileiro, pregando a construção de uma nova identidade nacional brasileira com inspirações emprestadas das melhores partes da produção mundial, misturadas a um novo olhar crítico sobre às origens do país.
Segundo a professora, a ideia de que “não devemos copiar o estrangeiro e nem recusá-lo inteiramente, mas transformá-lo em algo novo e nosso”, ainda está presente em muito da produção cultural brasileira. “Na música com a fusão de ritmos da bossa nova, do manguebeat ou do tecnobrega; Na literatura contemporânea de Daniel Massa, de Micheliny Verunschk ou de Jefferson Tenório, até na arquitetura e urbanismo modernos”, exemplifica.
Para fazer parte
Para aqueles que estiverem interessados em participar do projeto, é preciso entrar diretamente em contato com a professora Cláudia Camardella Rio Doce, através do e-mail claudiariodoce@uel.br.
Mas para quem se interessou apenas pelo lado menos conhecido da literatura modernista, e não tanto pela produção acadêmica, a professora também tem sua recomendação: “Eu sugiro, para os interessados, que leiam os contos de Aníbal Machado, de Antônio de Alcântara Machado (Brás, Bexiga e Barra Funda), ‘Parque Industrial’, de Patrícia Galvão ou mesmo as obras menos lidas em sala de aula, como ‘Cobra Norato’, de Raul Bopp ou ‘O turista Aprendiz’, de Mário de Andrade.”
*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.




