Projeto analisa qualidade da água para consumo e a de resíduos industriais

Projeto analisa qualidade da água para consumo e a de resíduos industriais

Entre outros parâmetros de qualidade, são analisados o pH, a presença de agrotóxicos e a condutividade elétrica


Contaminantes emergentes, microplásticos, insuficiência de saneamento básico, escassez hídrica, são alguns dos problemas que incitam os debates relacionados à água no planeta, o que traz uma dimensão de alerta sobre o manejo e o futuro desse elemento vital. Um projeto de extensão que faz análises da qualidade da água que seres humanos e animais consomem e do tratamento adequado das águas residuárias industriais é, portanto, relevante. Na Universidade Estadual de Londrina, pesquisadores desenvolvem o projeto “Determinação da Qualidade da Água para Consumo Humano e Animal e Análise Físico-Química de Águas Residuárias Industriais da Região Metropolitana de Londrina – Fase III”, coordenado pela professora do Departamento de Química, Diana Nara Ribeiro de Sousa.

Um dos objetivos do projeto é fazer a análise de águas para o atendimento à população e a empresas e instituições da Região Metropolitana de Londrina, através de análises físico-químicas de águas para consumo humano ou animal e das águas residuárias industriais. Estas são efluentes resultantes de processos nos quais se faz uso da água para a produção, sem que ela fique incorporada ao produto, como no processo de lavagem ou resfriamento e são caracterizadas por conterem poluentes, como produtos químicos, metais pesados e matéria orgânica.

Como projeto de extensão, as atividades atendem a demandas da sociedade e os tipos de análises da água variam. Por exemplo, para verificar o pH (potencial hidrogeniônico) de um rio, a análise precisa ser feita in loco, pois deve ser rápida e exige apenas de 20 a 30 ml para fazer verificação, ao contrário da análise da presença de agrotóxicos, que exige de 100 a 500 ml e equipamentos sofisticados, como o cromatógrafo e, às vezes, técnicas laboratoriais de ajuste na concentração dos poluentes para que eles sejam corretamente avaliados. “Normalmente, os agrotóxicos têm concentrações muito baixas. Se injetarmos a água com agrotóxico direto no cromatógrafo sem um preparo antes, o equipamento não vai ‘enxergar’, porque a concentração normalmente é muito baixa e ele tem um limite de funcionamento para cada substância. Então, a gente faz uma etapa de pré-concentração antes da avaliação”, explica a coordenadora do projeto.

Professora Diana Nara Ribeiro de Sousa: “É um projeto de cunho ambiental também, porque se conseguimos encontrar ali no local determinadas contaminações muito acima dos limites, tais resultados podem subsidiar no entendimento das causas da contaminação”. (Foto: Agência UEL)

O pH e a concentração de agrotóxico são apenas dois dos parâmetros de qualidade da água estipulados pela Portaria nº 888/2021 do Ministério da Saúde, que lista também, entre outros, a turbidez, a cor verdadeira e o fósforo total. Um outro parâmetro estabelecido pela portaria é a condutividade elétrica, que mede a capacidade da água de conduzir corrente, o que revela a presença de íons que podem ser de elementos metálicos prejudiciais à saúde. “Basicamente, nos últimos anos, o que a gente tem mais feito em termos de demanda são os parâmetros da portaria que estabelece critérios da qualidade água, por exemplo, poços artesianos, demandas de pequenos agricultores, que às vezes têm algum problema e querem atestar a qualidade da água e condomínios residenciais abastecidos com poços ou cisternas”, diz Diana Ribeiro.

Outro objetivo do projeto poderá aumentar a quantidade de análises feitas pelo Laboratório de Análise Físico-Química da Água (LAFQ) da UEL, já que se pretende qualificar o laboratório como unidade especializada em controle da qualidade de água. Para isso, é necessário obter uma certificação junto aos órgãos governamentais de controle de qualidade, como as vigilâncias sanitárias das Secretarias de Saúde dos municípios e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO). Para alcançar a certificação, é exigido que o laboratório tenha certos requisitos para determinados tipos de análises, como calibragens específicas de equipamentos e uso de materiais de padrões singulares, além de um corpo técnico permanente, capacitado e treinado. Atualmente, o LAFQ tem apenas um técnico que faz as análises juntamente com docentes e alunos do curso de Química.

“A certificação envolve toda uma cadeia estrutural. Porque, como somos um laboratório de pesquisa e de extensão, basicamente as pessoas fixas aqui somos só nós, os docentes. Os alunos são rotativos. Então, nós treinamos eles, mas eles ficam aqui dois, três ou quatro anos, e vão embora. A certificação exige que tenha o pessoal técnico no laboratório permanentemente habilitado e treinado”, explica a professora. Além disso, segundo Ribeiro, para se conseguir a certificação, é necessário que os procedimentos e metodologias utilizados nas análises sejam validados por relatórios e testes estatísticos confiáveis. A certificação do LAFQ é importante, já que em Londrina não existe nenhum laboratório com certos tipos de credenciamento, como o auferido pela norma ABNT NBR ISO/IEC 17025, que trata dos requisitos gerais para competência de laboratórios de ensaios e calibração.

Outra vertente do projeto é oferecer treinamentos para instituições e empresas sobre como fazer o controle da água presente em seus processos de trabalho ou produção. Na mesma linha de orientação, também são oferecidas consultorias a empresas que precisam de uma análise mais personalizada sobre seus processos de gestão da água.

Segundo a professora Diana Ribeiro, o projeto – que conta com um bolsista de iniciação extensionista – tem relevância em várias frentes. “Lida com saúde pública, tanto em relação à água que consumimos diretamente, como a que usamos nos afazeres diários ou as dos processos industriais. É um projeto de cunho ambiental também, porque se conseguimos encontrar ali no local determinadas contaminações muito acima dos limites, tais resultados podem subsidiar no entendimento das causas da contaminação”, explica a professora, que ainda ressalta outra dimensão da importância do projeto, a educacional: “Eu diria que nesse projeto já passaram por este laboratório cerca de 30 a 40 alunos de graduação e de pós-graduação, que são treinados aqui e aprendem a usar os equipamentos e as técnicas. Vários deles estão hoje em empresas como a Sandoz, a Adama e a Sanepar”, comenta Diana Ribeiro.

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