Pesquisa estuda doutrinas teológicas a partir do texto bíblico
Pesquisa estuda doutrinas teológicas a partir do texto bíblico
Projeto realiza uma análise de exegese, num trabalho exegético que transita entre Teologia, Linguística, História e Filosofia.O professor Luiz Carlos Migliozzi Ferreira de Mello (Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas) tem uma longa trajetória de estudos da Semiótica, a Ciência que analisa os processos de significação. Ele, que já passou pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPGEL), atualmente está com um projeto de pesquisa ligado tanto à graduação em Letras quanto ao Programa de Pós-Graduação em Letras/Estudos Literários (PPGL).
O projeto “Doutrinas teológicas em uma perspectiva semiótica” reúne estudantes de graduação e pós-graduação e realiza uma análise do texto bíblico, num trabalho exegético que transita entre Teologia, Linguística, História e Filosofia. O necessário para esta tarefa, de acordo com o professor, é lançar um “olhar semiótico” sobre o texto. Mais que dominar complexos conceitos da referida Ciência.
A própria gênese do projeto parece ir na direção. Migliozzi conta que tudo começou quando se deparou, involuntariamente, com um vídeo no You Tube, que nem era sobre Teologia Bíblica, mas o apresentador citou um versículo do Livro de Zacarias (12,10) que deixou o professor cismado. Na Bíblia Almeida Corrigida Fiel (ACF), uma das mais tradicionais e lidas no Brasil, o trecho diz: “e olharão para mim, a quem traspassaram; e prantearão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele”.
O nó está justamente nos pronomes destacados. “olharão para mim” e “prantearão sobre ele”? Mas não se refere à mesma pessoa? E para complicar: outras traduções trazem “olharão para ele”. O professor pesquisou em suas várias Bíblias, notou as diferenças e tomou o percurso lógico: buscar o texto original, em hebraico, conhecido como massorético, a versão padrão do Antigo Testamento. Lá, está escrito “olharão para mim”.
O que parece um erro linguístico de coesão é na verdade, e semioticamente falando, uma importante afirmação teológica, pois o trecho preconiza e fundamenta a descrição da dupla natureza de Cristo (homem e Deus), já que as palavras no Livro de Zacarias foram ditas pelo próprio Deus. É Ele que se diz pessoalmente traspassado, mas ao mesmo tempo afirma que chorarão por um terceiro – “ele” – mas que é Ele mesmo. Migliozzi observa que o texto serviu de lastro para o Concílio de Calcedônia, em 451, estabelecer a chamada “união hipostática de Cristo”, ou seja, natureza humana e divina juntas.

Cultura grega
Cabe lembrar que o Livro de Zacarias não foi escrito todo de uma vez, e o capítulo 12 é da fase tardia, redigida no século IV antes de Cristo, quando já havia acontecido o contato da cultura hebraica com a grega. Esta observação é importante na medida em que existe também a Septuaginta, uma versão veterotestamentária produzida para a comunidade judaica que morava fora de Israel e usava a língua grega, assim como foi adotada pelos primeiros cristãos.
O nome vem da tradição, que diz que foram reunidos 72 sábios (6 de cada tribo) para redigi-la. A Septuaginta traz “olharão para ele”. Para o pesquisador, há algumas hipóteses sobre esta diferença. Uma delas está assentada na própria cultura helênica, para a qual não seria possível que Deus fosse traspassado, ou seja, sofresse de males humanos. Isto teria levado a um estranhamento linguístico e assim se optou pelo ”ele” para fazer mais sentido. Outras versões ainda da Antiguidade, como a siríaca (dialeto aramaico e usada em igrejas orientais), trouxeram o “ele”. Porém, Migliozzi entende que já houve ali influência grega.
Adiante, no final do século IV, o Papa Dâmaso encomendou a São Jerônimo uma tradução da Bíblia para o latim. Seu trabalho, a Vulgata, foi a base para Igreja Católica a partir de então. Lá, o padroeiro dos tradutores optou pelos dois pronomes: eu/ele. Atualmente, as muitas traduções bíblicas no Brasil, como a Pastoral, Peregrino, Jerusalém, Interlinear, Ave Maria, Ecumênica (TEB), Nova Versão Internacional, entre tantas outras, apresentam as duas versões. O mesmo acontece em outras línguas, esclarece o professor Migliozzi.
Da perspectiva linguística, o pesquisador destaca que a linguagem sempre foi e é uma estratégia de manipulação de ideias, consciente ou não. O papel do pesquisador é empregar uma visão científica sobre um texto que, segundo o professor, tem uma grande riqueza literária, independente da crença de cada um. Assim, para o professor, cabe-lhe um papel de interlocutor com os interessados em pesquisar ou apenas saber mais.
Já do ponto de vista científico, a pesquisa gera frutos. O referido trecho de Zacarias se
transformou em um artigo publicado. E logo deve ser finalizado outro, sobre o terceiro capítulo do Livro de Gênesis, que narra a Queda do Homem, do momento em que a serpente oferece o fruto até a expulsão do Éden. Para Migliozzi, esta passagem explica muito da condição do homem no mundo – sofrimento, morte, etc.
Um dos objetivos do professor é expandir os estudos e atrair interessados de outras áreas e instituições. Aos poucos parece estar acontecendo. Ele conta que já foi procurado por um estudante da PUC/Londrina e até por um da UEL da área de Química.





