Projeto leva exercícios físicos a pacientes de hospitais psiquiátricos

Projeto leva exercícios físicos a pacientes de hospitais psiquiátricos

A iniciativa do curso de Educação Física utiliza exercícios multimodais como estratégia complementar ao tratamento tradicional de pacientes hospitalizados por transtornos mentais

Segundo dados do Ministério da Saúde, os transtornos mentais representam um importante problema de Saúde Pública. Entre as condições mais prevalentes estão a depressão e a ansiedade. Embora o tratamento com remédios e psicoterapêutico seja fundamental, nem todos os pacientes apresentam resposta satisfatória apenas com essas abordagens, além da possibilidade de efeitos colaterais em longo prazo.

O projeto “Integração de um programa de exercício físico multimodal como tratamento complementar em pacientes hospitalizados por transtornos mentais”, desenvolvido em parceria com o Hospital Vida, promove sessões supervisionadas de atividade junto aos internados.

Embora os primeiros estudos tenham sido desenvolvidos em indivíduos com depressão grave, atualmente as pesquisas também envolvem pacientes em tratamento para esquizofrenia e outros transtornos mentais e comportamentais. O objetivo não é substituir os medicamentos, mas utilizar os exercícios como uma estratégia complementar ao cuidado multiprofissional.

O professor Dr. Helio Serassuelo Junior (direita) e o doutorando do PPGEF Gustavo Baroni Araújo (Esquerda). Foto: André Ridão/Agência UEL

O Professor Helio Serassuelo Junior, do Departamento de Ciências do Esporte e coordenador do projeto, relata que apenas metade dos pacientes responde de forma adequada ao cuidado com somente remédios, e desses, um terço apresentam uma melhora significativa. “A ideia não é questionar o tratamento tradicional, porque ele é sim necessário, mas dar a oportunidade da pessoa com depressão se sentir melhor, tanto dentro daquele grupo, como com o próprio corpo, mostrando que ele é capaz de fazer aqueles exercícios”, explica.

Segundo o docente, a melhora dos participantes não foi observada apenas pelos professores e alunos envolvidos, mas também pela equipe multiprofissional do hospital, incluindo psiquiatras, psicólogos e demais profissionais que acompanham os pacientes diariamente. Além da redução de sintomas psiquiátricos observada em alguns estudos, foram relatadas melhorias em aspectos como socialização, higiene pessoal, disposição para as atividades diárias, agitação, qualidade do sono e maior participação dos internados na rotina terapêutica. 

Além dos benefícios aos pacientes, a própria instituição de saúde também pode se beneficiar da implementação do modelo. Mesmo com seus efeitos positivos, o programa apresenta baixo custo, utilizando materiais simples, como colchonetes, halteres e o próprio peso corporal dos participantes.

Serassuelo argumenta que o diferencial da iniciativa foi acompanhar os pacientes enquanto estavam em internação no hospital, ao invés de somente passar os exercícios para serem feitos de forma independente, sem a supervisão do profissional da Educação Física. “A atuação dentro do hospital tem pouquíssimas referências não somente no Brasil, mas no mundo. Nos últimos 10 anos, segundo levantamento bibliográfico da também doutoranda e participante do projeto, a médica psiquiatra Carolina Alves de Moraes Nicolau, foram encontrados somente 12 trabalhos parecidos: um em todo o país, alguns poucos na Europa, e outros na China”, explicou.

Corpo saudável, mente saudável

Gustavo Baroni Araújo, participante do projeto e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Física, acompanhou de perto as intervenções realizadas junto às pessoas internadas do Hospital Vida. Sua pesquisa resultou na publicação de artigos científicos em periódicos internacionais e, atualmente, seus estudos investigam os efeitos do exercício físico sobre aspectos psicocomportamentais, sintomas e indicadores de saúde em pacientes hospitalizados com esquizofrenia, ampliando a linha de investigação do grupo para além da depressão.

Panfleto distribuído no Hospital Vida para informar os pacientes sobre o projeto. Fonte: Divulgação.

O doutorando relata que a atuação da iniciativa foi baseada em três pilares: o biológico, relacionado às adaptações neurofisiológicas promovidas pela atividade física; o psicológico, pela melhora do humor, autoestima e percepção de competência; e o social, pelo incentivo à convivência, ao pertencimento e à formação de vínculos entre os participantes.

Os exercícios multimodais foram escolhidos porque, diferentemente dos treinamentos voltados para o desempenho esportivo, têm como objetivo principal o desenvolvimento e a manutenção de capacidades importantes para a saúde, como força muscular, resistência cardiorrespiratória, flexibilidade, equilíbrio e coordenação motora. O programa de atividade física foi desenvolvido e aplicado pelo também professor do Departamento, Bruno Marson Malagodi. 

Baroni explica que além de auxiliar os pacientes enquanto estão internados, sua esperança é de que o projeto faça com que seja construído um hábito de exercitar-se na vida diária. “Muitas vezes a atividade física é vista como obrigação, por ordens médicas, porque a pessoa está com dores no corpo ou precisa emagrecer, mas a ideia é de que com esses encontros, ele entenda que o exercício pode ser uma coisa prazerosa”, afirma.

Socialização

O isolamento e a dificuldade de socialização são alguns dos sintomas mais comuns da depressão, criando um ciclo que leva o indivíduo a se distanciar de suas conexões. O professor Helio Serassuelo Junior adiciona que “os pacientes são pessoas que, muitas vezes, apresentam dificuldades para criar vínculos ou se sentem mais retraídas. Assim, fomos construindo as atividades de uma forma que elas passaram a se envolver nas dinâmicas e a participar”. Com o auxílio de música, algumas vezes escolhidas pelos próprios participantes, criou-se um ambiente de descontração e união.

De acordo com Serassuelo, os vínculos dos pacientes pelos organizadores da iniciativa – aguardados com animação nos dias dos encontros – também ocorriam no caminho oposto, com a alegria dos integrantes em poder ajudar.  “A gente se sente realizado. Você percebe que está fazendo algo importante para pessoas que estão em um momento de grande vulnerabilidade e que precisam de cuidado, acolhimento e oportunidades”, relembra.

Atualmente, os estudos do grupo vêm sendo ampliados para investigar os efeitos dos exercícios sobre aspectos psicocomportamentais, sintomas e indicadores de saúde em pacientes hospitalizados com esquizofrenia, uma população ainda pouco estudada na literatura científica internacional.

Continuidade e impacto social 

Em razão dos resultados positivos observados e da relevância do tema para a saúde pública, o projeto terá continuidade no próximo semestre. A equipe pretende ampliar as intervenções e avançar nas pesquisas envolvendo as pessoas internadas com transtornos mentais em contextos de internação psiquiátrica. 

Para os pesquisadores, iniciativas como essa tornam-se cada vez mais necessárias diante do crescimento dos problemas relacionados à saúde mental em todo o mundo, reforçando a importância de estratégias complementares que promovam não apenas a redução dos sintomas, mas também a qualidade de vida, a autonomia e a reinserção social dos pacientes.

*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.

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