Pesquisadores desenvolvem protótipos antivirais sustentáveis para aplicação em Saúde Única

Pesquisadores desenvolvem protótipos antivirais sustentáveis para aplicação em Saúde Única

Projetos já renderam patentes e envolvem instituições brasileiras e estrangeiras, além de agências de fomento e incentivo à pesquisa e à inovação

A professora Lígia Carla Faccin Galhardi (Departamento de Microbiologia), coordena o Laboratório de Virologia Básica e Aplicada da UEL (LAVIR), no qual lidera uma série de pesquisas, várias em parcerias com outras instituições, inclusive do exterior. São pesquisas que avançam o conhecimento, produzem Ciência e resultam em produtos aplicáveis no controle das infecções virais, e melhor ainda: sustentáveis. A Saúde Única (One Health) é uma das abordagens priorizadas no projeto na interface entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental.

São por razões como esta que a professora foi uma das pesquisadoras contempladas com Bolsa Produtividade pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). intitulado “Desenvolvimento tecnológico de protótipos antivirais sustentáveis baseados em biotecnologia e nanotecnologia para aplicações em Saúde Única”.

Ela explica que existem duas formas de controle dos vírus: prevenção (vacina) e uso de antivirais. Estes podem ser qualquer produto que inativam os vírus, e podem existir na forma de saneantes (como desinfetantes), tópicos (cremes, géis e pomadas) ou fármacos orais e injetáveis. Os protótipos são desenvolvidos justamente mediante as possibilidades para aplicação em cada vírus.

Vários vírus são estudados no LAVIR, como os herpesvírus humanos e um Coronavírus de murino (MHV-3). Este é bastante utilizado como um modelo seguro e alternativo ao SARS-CoV-2, que exige maior grau de biossegurança. Também há pesquisas com vírus respiratórios, como os que provocam gripe e a bronquiolite infantil.

Biotecnologia

Uma das estratégias das pesquisas é biotecnológica, ou seja, a utilização de organismos vivos para prospectar antivirais. O projeto contemplado abrange uma tese de Doutorado em andamento associando um cultivo fúngico com óleo residual de cozinha. “Uma das propostas desse projeto é a produção biotecnológica de bioativos produzidos a partir do cultivo do fungo Trichoderma harzianum usando óleo residual de cozinha, como uma das fontes principais de nutrição para o fungo, para que este produza de forma otimizada bioativos com atividade antiviral. É um projeto com processo biotecnológico porque o produto origina-se de um fungo, e é sustentável porque estimula a economia circular, fornecendo uma nova aplicabilidade a um produto que seria descartável e poderia até contaminar o meio ambiente”, relata a professora.

Laboratórios parceiros, como de Bioquímica e biotecnologia da UEL, colabora realizando o processo biotecnológico que fornecerá o constituinte principal na produção do protótipo “Temos resultados promissores do efeito antiviral desses bioprodutos tanto para vírus humano, como para vírus de planta e já estamos em fase de solicitação de patentes para proteção intelectual”, conta Ligia.

Uma das grandes vantagens de materiais como estes, biotecnológicos, é que eles são sustentáveis, podem ser reciclados e não agridem o meio ambiente.

Muitas ações fazem parte do processo de pesquisa. Uma delas é a avaliação da toxicidade das substâncias nas células (citotoxicidade), a efetividade da inativação dos vírus nestas mesmas células e em que concentração o futuro protótipo será manipulado. A avaliação é feita diretamente na infecção viral, analisando diferentes fases, como o vírus sozinho, sem célula, quando invade a célula, e quando já está instalado e causando infecção (ação terapêutica). As pesquisas apresentam maturidade tecnológica intermediária à avançada, na medida em que desenvolve protótipos inéditos.

O projeto contempla outras pesquisas com parceiros nacionais e internacionais.

“Outra pesquisa biotecnológica é a avaliação antiviral de bioativos produzidos com resíduos amazônicos, em colaboração com a universidade sul e sudeste do para (Unifesspa), e financiado pela iniciativa Amazônia +10 (CONFAP). Os bioativos advêm de um cultivo de uma espécie de bactéria, isolada de solo de uma antiga área de mineração do Pará, ou seja, que requer condições de crescimento diferenciado, usando resíduos de frutos da Amazônia como a casca da andiroba. como fonte de nutriente para produção de bioativos”, informa a professora. O LAVIR recebe esses bioativos e os avalia. Uma espuma de barbear e uma loção pós-barba já foram patenteados. Nesta parte cosmética, o projeto conta com a colaboração de parceiros no curso de Farmácia da UEL.

Da mesma forma, uma colaboração com a Universidade Federal do Ceará (UFC) também enviou bioativos à base das cascas da manga e maracujá. A professora Ligia conta que as avaliações mostraram uma excelente atividade antiviral, incluindo contra o vírus da COVID.

Do outro lado do mundo, da Universidade de Burdwan (Índia),  polissacarídeos derivados de algas marinhas também demontraram forte poder antiviral.

Nanotecnologia

As pesquisas em nanotecnologia atuam em nível atômico e molecular (nano = bilionésima parte) e, na UEL, também buscam o desenvolvimento de tecnologia verde, ou seja, com produtos naturais. Por exemplo, estudos com nanomateriais que agem como agentes redutores de metais – melhor para o meio ambiente e os organismos vivos, pior para os vírus, pois a nanotecnologia pode potencializar os efeitos desejados.

A professora Ligia observa que as pesquisas em nanotecnologia integram uma rede de programas nacionais, como o INCT (Programa Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação) Nanodefender.

Do extrato de catuaba (famosa planta medicinal brasileira), os pesquisadores já obtiveram creme e gel genital antiherpético. Contra a bronquilite, o extrato também já se mostrou viável, reduzindo significativamente a infecção viral e com clara vantagem sobre o efeito de produtos sintéticos.

O projeto ainda  contempla bioativos previstos no edital Pró-Amazônia (MCTI/CNPq), para pesquisas com arboviroses (dengue, zika, chikungunya e oropouche) e prospecção de bioinseticidas, com parceiros colombianos e argentinos. “Esta colaboração prevê apoio à formação e mobilidade de pesquisadores e esse ano eu receberei na UEL dois pesquisadores virologistas, especialistas em arboviroses para troca de experiências e práticas”, acrescenta.

LAVIR

O Laboratório de Virologia Básica e Aplicada da UEL (LAVIR), do Departamento de Microbiologia e ligado ao Programa de Pós-graduação em Microbiologia, tem ganhado destaque pela sua produção científica em suas cinco linhas de pesquisa, que incluem avaliação in vitro de produtos naturais e sintéticos; isolamento e caracterização viral; biologia molecular viral; interação de vírus e hospedeiros; e desenvolvimento de antivirais e inovação em formulações. Os projetos já renderam 17 patentes, das quais 2 já concedidas.

O Laboratório estabeleceu parcerias com instituições brasileiras e estrangeiras, como a USP, UFC, Fundação Osvaldo Cruz, Unesp, UTFPR, Universidade do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), Universidade de Buenos Aires, Universidade de Saint Andrews (Escócia), Universidade de Burdwan (Índia), além de agências como CAPES, CNPq, Fundação Araucária e FINEP.

Atualmente, o laboratório conta com a participação de 1 pós-doutorando (Amazônia +10), dois doutorandos, cinco mestres (três em andamento), três graduandos de Iniciação Científica (IC) e mais dois de Iniciação Tecnológica (IT) e um IC Júnior (Ensino Médio). Todos bolsistas, CAPES, CNPq, FINEP ou Fundação Araucária.

“Temos resultados promissores do efeito antiviral de bioprodutos tanto para vírus humano, como para vírus de planta e já estamos em fase de solicitação de patentes para proteção intelectual”, conta Ligia Galhardi. (Foto: André Ridão/COM)

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