Projeto estuda terapias alternativas para perda do olfato
Projeto estuda terapias alternativas para perda do olfato
Impossibilidade de sentir cheiros pode trazer incômodos e afetar qualidade de vidaO que seria de nós se não tivéssemos o olfato para nos alertar de perigos, como ingestão de alimentos estragados ou um vazamento de gás na cozinha? Certamente, a vida também ficaria mais chata e pobre, sem a possibilidade de apreciar perfumes ou cheiros de uma refeição deliciosa, ou até mesmo relembrar momentos importantes vividos, já que o olfato tem estreita relação com as memórias mais íntimas. Muitas pessoas padecem dessa carência olfativa, seja por conta de infecções virais, uma lesão no cérebro, o que lhes tira o que mais se busca hoje: qualidade de vida. Um projeto da Universidade Estadual de Londrina (UEL) pretende dar soluções para a questão apontando novos tratamentos, além de analisar malefícios que os tratamentos tradicionais possuem.
O nome da vilã a ser combatida é anosmia persistente, que ficou mais conhecida na pandemia da Covid-19, porque a ausência de olfato era indicativo de que a pessoa estava infectada com o coronavírus. Há outras razões para a perda olfativa, como sinusites alérgicas e bacterianas, ou até mesmo a perda resultante de um trauma na cabeça com rompimento de nervos. Na maioria dos casos, a perda é temporária, mas em alguns ela persiste, como no da Covid-19, em que 5% dos infectados com a doença continuam sem o olfato mesmo após a cura da infecção.
Coordenado pelo professor do Departamento de Clínica Cirúrgica do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Marco Aurélio Fornazieri, o projeto “Terapias Inovadoras para Recuperação da Função Olfativa e Investigação dos Efeitos de Medicamentos Tópicos Nasais no Epitélio Olfativo” abordará a questão em duas frentes, a primeira consistindo na validação de três novas terapias para a recuperação da função olfativa em pacientes com anosmia persistente: a fotobiomodulação (TFBM), a insulina intranasal e o plasma rico em plaquetas (PRP).
A fotobiomodulação é uma laserterapia de baixa potência, cuja radiação em contato com epitélio olfatório ativa funções celulares. Para explicar o funcionamento da técnica, o professor Marco Fornazieri faz uma analogia com a fotossíntese e as plantas: “Quando a luz bate na folha, estimula a clorofila para gerar todo aquele ciclo de produção de oxigênio. Na laserterapia, a luz estimula uma enzima dentro da mitocôndria da célula, o que aumenta o metabolismo celular, produzindo a regeneração das células olfatórias”, explica.
Outra técnica a ser analisada, a insulina intranasal, tem a mesma função da fotobiomodulação. Segundo o coordenador do projeto, é a mesma utilizada em pacientes com diabetes e será inserida em pequenas esponjas que serão aplicadas diretamente no epitélio olfativo, já que as células desse tecido possuem muitos receptores de insulina.
Segundo Marco Fornazieri, a terapia baseada no plasma rico em plaquetas consiste em retirar uma parte do sangue, o plasma, que contém as plaquetas, e aplicá-lo no tecido olfativo através de infiltração. As plaquetas são neurotróficas, ou seja, alimentam neurônios, e como as células do epitélio olfatório são nervosas (possuem uma ligação direta com o cérebro), elas se beneficiariam aumentando seu tamanho e, por consequência, contribuindo para a otimização da regeneração provocada com o auxílio das outras duas técnicas.
Conforme Marco Fornazieri, as três técnicas não são desconhecidas, pois já são utilizadas para outros procedimentos médicos, mas o uso da PRP para o sistema olfativo é novo. Ao contrário da fotobiomodulação, que utilizará ratos, os testes com a insulina intranasal e a PRP serão feitos em humanos.
A outra vertente do projeto analisará os efeitos do uso crônico de descongestionantes nasais. Esses medicamentos, amplamente usados para alívio de sintomas gripais, estão associados a danos ao epitélio olfativo quando usados de forma prolongada. “Inicialmente, quando você usa o remédio, as narinas se abrem muito, como se ‘abrisse uma avenida no nariz’, aumentando a respiração. Mas depois de uma semana, quando passa o efeito, o nariz entope novamente e de forma mais intensa. E aí a pessoa usa mais e mais”, explica o pesquisador.

Qualidade de vida
As pessoas podem viver sem olfato mas, sem ele, a qualidade de vida piora. Segundo Marco Fornazieri, o olfato é responsável por cerca de 90% do sabor dos alimentos, portanto sua ausência retira da pessoa os prazeres gastronômicos. Essa perda pode até afetar a saúde indiretamente, já que a falta de olfato pode causar hábitos alimentares prejudiciais, como comer mais sal ou açúcar para tentar compensar a diminuição do sabor dos alimentos. A ausência do sentido traria restrições até do ponto de vista afetivo, como no caso de uma mãe que não consegue sentir o cheiro do seu bebê.
Para além de prazeres e emoções, o olfato tem primordialmente a função de defesa, de avisar do perigo. Ele evita que consumamos alimentos estragados e nos avisa do risco de incêndio ao sentirmos o cheiro de algo queimado, por exemplo. Ainda há os transtornos higiênicos, pois não saber os cheiros que o próprio corpo exala pode causar incômodos. “A pessoa fica insegura em relação à própria higiene, se está com mau cheiro ou não. E é comum pacientes meus chegarem no consultório com muito perfume, porque não conseguem calibrar o quanto usar”, exemplifica o professor.
Como resultados, o projeto visa a criação de protocolos clínicos para a aplicação de terapias regenerativas e uma base científica sólida para práticas mais seguras com medicamentos nasais. Além disso, a validação das terapias pode trazer impactos nos custos do SUS, já que evitariam tratamentos longos, que podem durar anos.
Sobre a importância do projeto, o professor aponta um motivo, de cunho acadêmico: “O foco é formar, incentivar alunos que tenham a mesma vocação de querer evoluir no tratamento das doenças. Eu estimulo os alunos, para que, como médicos, eles tenham essa visão, de se preocuparem com o que podem fazer em termos de tratamento novo para melhorar a vida das pessoas”, comenta.
O projeto terá a parceria da Universidade de São Paulo (USP), que oferecerá suporte remoto com recursos humanos, além de consultoria técnica para o planejamento dos experimentos e para a avaliação de metodologias. Contará também com o apoio da Universidade da Pensilvânia (EUA), que contribuirá para a análise e validação dos resultados.




