Pesquisa busca novos caminhos para tratamento da leishmaniose

Pesquisa busca novos caminhos para tratamento da leishmaniose

Professor contemplado com Bolsa de Produtividade do CNPq coordenará pesquisa que busca novas alternativas para o tratamento da leishmaniose

A leishmaniose é um importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo, presente em quase 70% dos municípios do estado, e afetando principalmente as populações mais vulneráveis e com menos acesso ao sistema de saúde. Embora existam tratamentos disponíveis, eles ainda apresentam limitações, como efeitos colaterais, toxicidade, dificuldade de administração, tempo prolongado de tratamento e diferenças na resposta dos pacientes. Por isso, a busca por terapias mais seguras, eficazes e acessíveis continua sendo necessária.

É nesse contexto que pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolvem uma linha de pesquisa voltada à identificação de novas substâncias que possam contribuir para o tratamento da doença. O projeto é coordenado pelo professor e pesquisador Wander Pavanelli, do Departamento de Imunologia, Parasitologia e Patologia Geral (IPPG), do Centro de Ciências Biológicas (CCB), recentemente contemplado com a Bolsa Produtividade CNPq na área de Imunologia.

A iniciativa é resultado de uma trajetória de aproximadamente 16 anos. Inicialmente, a linha de investigação foi desenvolvida pela Professora Ivete Conchon Costa, na área de Parasitologia. Com o avanço dos estudos, a participação da Imunologia se tornou fundamental para compreender melhor a relação entre o parasita e o organismo e buscar novas estratégias de tratamento.

O docente relata que, ao longo desse período, o grupo estudou diferentes substâncias naturais e sintéticas, e utilizou esse conhecimento na identificação de moléculas com potencial para combater a Leishmania e, ao mesmo tempo, compreender melhor os mecanismos envolvidos na infecção e na resposta imunológica. “As limitações dos tratamentos atuais reforçam a necessidade de investir na busca e no desenvolvimento de alternativas terapêuticas que sejam mais eficazes, seguras e acessíveis”, destaca.

Uma nova possibilidade

Atualmente, uma das principais frentes de investigação do grupo envolve os peptídeos, pequenas moléculas formadas por aminoácidos e encontradas naturalmente em diferentes organismos. Algumas dessas moléculas fazem parte dos mecanismos de defesa contra microrganismos, no caso da leishmaniose, os peptídeos podem apresentar uma característica especialmente interessante: alguns conseguem agir diretamente sobre o parasita e também podem modificar a resposta do sistema imunológico.

Pavanelli explica que essa combinação é importante porque o controle da doença não depende apenas da eliminação da Leishmania. É necessário também que o organismo consiga desenvolver uma resposta imunológica adequada, capaz de combater o parasita sem provocar uma inflamação excessiva.

Assim, a pesquisa busca identificar moléculas que possam atuar tanto diretamente contra o parasita quanto, ao mesmo tempo, ajudando o sistema imunológico a responder de forma mais eficiente e equilibrada.

Os peptídeos também podem ser modificados para melhorar características como atividade, estabilidade, seletividade e segurança. Entretanto, é importante destacar que eles ainda estão em fase de investigação e não representam, neste momento, um novo medicamento. Antes de uma possível aplicação clínica, são necessários estudos para avaliar segurança, eficácia e mecanismos de ação.

“As limitações dos tratamentos atuais reforçam a necessidade de investir na busca e no desenvolvimento de alternativas terapêuticas que sejam mais eficazes, seguras e acessíveis”, destaca o professor Wander, coordenador do projeto (Foto: André Ridão/COM)

Rede de pesquisa ultrapassa fronteiras

Um dos pontos fortes do projeto é a colaboração entre diferentes instituições. Além da UEL, participam da pesquisa a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Fiocruz/Instituto Carlos Chagas (ICC), em Curitiba, a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a Universidade de Viena, na Áustria. 

A Universidade de Viena contribui especialmente com a síntese e disponibilização dos peptídeos selecionados para os estudos. As instituições brasileiras realizam diferentes etapas da investigação, incluindo a avaliação da atividade dessas moléculas contra a Leishmania e o estudo de seus possíveis efeitos sobre o sistema imunológico.

O pesquisador ressalta que a parceria reúne conhecimentos e estruturas complementares em diversas áreas do conhecimento, como Imunologia, Parasitologia, biologia celular e molecular, bioinformática e desenvolvimento de peptídeos. “O grande diferencial dessa colaboração é justamente a complementaridade. Reunimos diferentes competências para acompanhar uma molécula desde sua seleção e síntese até a avaliação de sua atividade contra o parasita e a compreensão dos seus mecanismos de ação”, afirma.

Ele argumenta que além de fortalecer a pesquisa, essa rede contribui para a formação de estudantes e jovens pesquisadores e amplia a capacidade das instituições de desenvolver soluções para problemas de saúde que ainda afetam principalmente populações mais vulneráveis.

Prevenção e diagnóstico

Enquanto novas formas de tratamento são investigadas, a prevenção e o diagnóstico precoce continuam sendo essenciais. A principal forma de prevenção é reduzir o contato com o mosquito-palha, responsável pela transmissão do parasita. Em áreas de transmissão, o uso de repelentes, roupas que protejam braços e pernas e outras medidas recomendadas pelos serviços de saúde podem ajudar a diminuir o risco de infecção.

Também é importante conhecer os sinais da doença. Na leishmaniose tegumentar, um dos principais sinais é o aparecimento de uma ferida na pele que não cicatriza. Pessoas que apresentam uma lesão persistente, especialmente após permanecerem em áreas onde existe transmissão da doença, devem procurar um serviço de saúde.

Informação, prevenção e diagnóstico precoce são fundamentais para reduzir o impacto da leishmaniose. Da mesma forma, o investimento contínuo em ciência é indispensável para que novas alternativas possam ser desenvolvidas.

Fonte: Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)
Fonte: Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)

Do laboratório para possíveis aplicações

A trajetória do grupo mostra que o desenvolvimento de novas terapias exige tempo, continuidade e investimento. Novos tratamentos não surgem de uma única descoberta, mas de anos de estudos, testes, formação de pesquisadores e colaboração entre diferentes instituições.

Além dos estudos com peptídeos, o grupo também participa de uma iniciativa que investiga uma pomada à base de óleo essencial de orégano, atualmente em estudo clínico de fase I. Essa experiência mostra como uma linha de pesquisa pode avançar gradualmente, partindo de estudos laboratoriais até chegar a etapas mais próximas de uma possível aplicação em pacientes.

Mais do que estudar novas moléculas, a iniciativa reforça a importância de investir continuamente em ciência, formar novos pesquisadores e fortalecer parcerias entre universidades e instituições de pesquisa. É por meio dessa união que descobertas realizadas nos laboratórios podem, no futuro, transformar-se em possibilidades de prevenção inéditas, diagnóstico e tratamento para a leishmaniose.

Segundo o Professor Wander Pavanelli, essa trajetória demonstra o papel da universidade na busca por soluções para problemas reais da sociedade. Ele explica que “a pesquisa representa a capacidade de transformar conhecimento científico em uma perspectiva concreta de inovação em saúde. A UEL não apenas produz conhecimento sobre a leishmaniose, mas participa ativamente da busca por possíveis soluções para um problema que ainda afeta populações vulneráveis”.

*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.

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