Pesquisa busca analisar utopias no pensamento do escritor Roland Barthes

Pesquisa busca analisar utopias no pensamento do escritor Roland Barthes

Projeto foi um dos recém-contemplados na última chamada de Bolsa Produtividade do CNPq

A professora Laura Taddei Brandini tem em sua trajetória anos de pesquisa sobre o escritor francês Roland Barthes. Em seu Doutorado, a docente vinculada ao Departamento de Letras Estrangeiras Modernas do Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH) defendeu uma tese que tratou da recepção à obra do autor no Brasil.

É neste contexto que o projeto da pesquisadora da UEL foi contemplado na Chamada nº 23/2025 Bolsa Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na modalidade Bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ – C). O fomento busca valorizar docentes que possuam produção científica, tecnológica e de inovação de destaque nacional e internacional. Essa é a segunda vez que a professora Laura é contemplada, tendo sido a primeira vez em pesquisa realizada de 2023 a 2026. O projeto atual ainda em fase de desenvolvimento e com previsão de término para 2029, pretende investigar as utopias literárias do escritor francês, focando no conceito de escritura. Intitulada “Utopias de Roland Barthes”, a pesquisa analisa como Barthes enxerga a escrita como um objeto de desejo e explora o paradoxo de escrever sobre a própria impossibilidade de escrever.

O objetivo, segundo a docente, “é examinar o conceito de utopia na obra de Barthes para, então, analisar duas utopias barthesianas associadas à escrita literária”. Para o autor, utopia não é a projeção de uma sociedade ou futuro idealizado. Mas sim, uma prática de resistência e de liberdade no uso da linguagem. Barthes enxergava a linguagem como algo classificatório. O pensamento utópico barthesiano visa levar à reflexão sobre as possibilidades e tentativas de burlar as amarras estruturais e impositivas das tradições literárias. Ou seja, no campo da escrita de um texto, as utopias para o escritor francês representam um lugar de liberdade, cuja possibilidade proporciona uma insubmissão ao poder ou as hierarquias.

Ao conceituar o significado do que é a representação do pensamento utópico na obra barthesiana, o projeto trilha um rumo em duas direções específicas que envolvem a pesquisa em si. Pretende debruçar sobre duas utopias do escritor Roland Barthes relacionadas ao uso literário da linguagem a partir da noção por ele concebida como escritura, a escrita do escritor, a escrita intransitiva, espaço em que a linguagem se manifesta em sua materialidade e liberdade. Para dar corpo à pesquisa, a professora explica que foram escolhidas duas utopias barthesianas relacionadas à escritura ou à impossibilidade da escritura: (I) Escrever sobre nada e não escrever; (II) Não escrever sobre o que se ama.

Laura Taddei Brandini (Foto: Arquivo COM/UEL).

Respectivamente, o primeiro diz respeito a “Escrever sobre nada e não escrever”, tem como tração a noção de incidente e as reflexões sobre a escritura e as dificuldades e/ou impossibilidades de escrever. A noção de incidente na obra do autor se refere a acontecimentos desprovidos de uma grande narrativa explicativa e tem como ponto de partida a leitura do romance Aziyadé do autor francês Pierre Loti. Brandini diz que esse conceito é configurado como central na obra barthesiana. “Segundo o próprio autor, a ausência de incidente impossibilita a escrita literária”. Exemplo disso, há na obra Incidentes, publicada postumamente em 1987, uma coletânea com textos e anotações (criados durante suas viagens ao Marrocos) na qual o autor captou cenas banais, olhares e gestos de transeuntes na rua como puras presenças.

A segunda situação é sobre: “(Não) Escrever sobre o que se ama”. Para a docente, “na escrita de Barthes, somente a prática da escritura é capaz de concretizar a escrita do que se ama, conclusão à qual ele chega a partir da leitura das obras do escritor francês Stendhal sobre a Itália”. Ela explica que serão utilizadas para essa análise as obras do escritor francês Stendhal para compreensão de Barthes sobre a escritura do afeto no texto literário. Em síntese, escrever pelo que se ama é possível por meio da prática e que muitas vezes vem de se escrever primeiramente sobre o que não se “ama”. No entanto, é justamente por meio dessa técnica que a prática tende a se aperfeiçoar. É através dela que a escrita vai sendo aprimorada e com isso, o escritor pode depois, escrever sobre algo que goste.

Literatura Comparada

O estudo comparado atua como uma das bases metodológicas da pesquisa. A abordagem diz respeito à comparação entre textos de outros escritores e diferentes gêneros, como os supracitados. Isso inclui comparar as leituras que Barthes fez de romances de Pierre Loti e de Stendhal, relacioná-las aos seus próprios relatos e reflexões de viagem.

Para fundamentar essa análise, a pesquisadora pretende utilizar manuscritos originais barthesianos preservados na Biblioteca Nacional da França (BnF), e unir a Crítica Genética ao estudo comparado. Segundo Laura Brandini, o procedimento para acesso exige o cumprimento cuidadoso de algumas etapas que visam à preservação dos documentos. “Não se pode fotografar os manuscritos de Barthes, nem os reproduzir, então toda a pesquisa se dá in loco, quando fazemos a leitura dos manuscritos e anotações a lápis dos trechos de interesse”, explica.

Resultados

A pesquisa tem um roteiro de trabalho programado para 36 meses. Ao final, espera-se que seja possível disponibilizar ao público brasileiro, sob a forma de um livro, uma coletânea de textos de autores nacionais e estrangeiros, sobre o tema da utopia em Barthes, aponta a professora. Com isso, espera-se também que o estudo possa guiar a formação de novos leitores da obra de Barthes, bem como, orientar trabalhos em níveis de Iniciação Científica (IC), Mestrado e Doutorado.

*Estagiário de jornalismo da Coordenadoria de Comunicação Social.

Foto: Ulf Andersen/Divulgação.

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