Projeto recupera prática de leitura coletiva

Projeto recupera prática de leitura coletiva

A ideia é não apenas ler, mas comentar, debater, trocar ideias, provocar

O professor Claudio Luiz Garcia (Departamento de Arte Visual) trabalha muito com imagens, uma vez que ministra a disciplina prática de Gravura. Nos tempos de pandemia, fez isso até remotamente. Mas não abre mão do hábito de ler, e ler livros físicos, impressos. De fato, ele compara as telas dos celulares e dos computadores aos antigos vitrais medievais, que fascinavam, distraíam as pessoas e as deixavam imóveis, com olhar fixo no que viam.

Livro em papel, a esta altura? Sim, o projeto de extensão “No sem expectativa para os cem acontecimentos” propõe justamente ser uma ação contra o uso “deseducado” dessas mídias eletrônicas, capazes de causar, muitas vezes, ansiedade e desassossego. E, ao contrário, reduzem o nível de leitura dos estudantes e consequentemente seu acervo de referências culturais.

Assim, todas as sextas-feiras, o professor se reúne com um grupo de alunos, em média 15, de Arte Visual, Design Gráfico, Design de Moda, simplesmente para ler um livro. Recentemente, o professor levou ao projeto a obra “A queda do céu”, do antropólogo francês Bruce Albert, que descobriu a cultura ianomâmi e publicou em coautoria com a xamã Davi Kopenawa, em 2010. É um livro de mais de 750 páginas que faz um mergulho profundo na cultura da etnia indígena, a partir do relato do xamã. Infelizmente, a proposta não agradou muito aos alunos, que acabaram manifestando mais interesse em outra obra proposta, “Não vão nos matar agora”, de Jota Mombaça. Trata-se de uma escritora e artista visual de 35 anos, potiguar, que trabalha os temas de racismo, violência, política, entre outros.

É nesta dinâmica de propor leituras e às vezes perceber que elas agradam mais ou menos que o professor desenvolve seu projeto há pouco mais de um ano, com mais dois pela frente. As leituras são feitas na Sala de Gravura e mais dois professores participam do projeto. A ideia é não apenas ler, mas comentar, debater, trocar ideias, provocar. Claudio já tentou vários gêneros e autores. Machado de Assis (1839-1908), por exemplo, não agradou. Já a contemporânea de Machado, Julia Valentina da Silveira Lopes de Almeida (1862-1934) teve mais aceitação. Ela foi escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira, além de uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras.

O que o coordenador do projeto diz é que deseja incentivar uma leitura com maior cuidado, paciência e concentração. Ao mesmo tempo, combater leituras mais rasas, e cópias de qualidade inferior. E aqui ele não se refere apenas à literatura, mas também à gravura. Ele quer excluir da equação, por exemplo, Romero Brito. E lembra que Arte é técnica, possui elementos próprios, não é apenas um produto da subjetividade, da vaidade e do ego, que apenas tem a aparência de genialidade, mas é apenas o que ele chama de “clichê”. Para isso, ele defende ir à realidade, e não ter como referência principal a Internet.

O professor Claudio Garcia deseja incentivar uma leitura com maior cuidado, paciência e concentração. Ao mesmo tempo, combater leituras mais rasas, e cópias de qualidade inferior (Foto: Mirian Cruz)

Happenings

Os “acontecimentos” do título do projeto se referem aos happenings produzidos pelo projeto. O objetivo é realmente realizar 100 até o encerramento do projeto. O happening é uma forma de expressão visual e cênica que mistura teatro, dança, música, poesia e artes visuais sem um roteiro ou trama tradicional. O público é convidado a participar e interagir direta e livremente. O termo foi cunhado pelo artista Allan Kaprow em 1959 com a obra ’18 Happenings in 6 Parts’.

O primeiro foi no semestre passado, no Parque Arthur Thomas. O evento é aberto, a participação livre, e mais de 30 pessoas estiveram lá, em oficinas de desenho, performances e trabalho com tintas naturais. Quem participou gostou e pediu uma segunda edição, lá mesmo. Mas o próximo, ainda este ano, está programado para o Jardim Botânico, e o professor Claudio promete boas surpresas, explorando o cenário.

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