Estudo investiga relação entre agrotóxico e infertilidade

Estudo investiga relação entre agrotóxico e infertilidade

Foco do projeto de pesquisa é verificar os efeitos da exposição de inseticida na fase da puberdade.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo e uma em cada seis pessoas no planeta sofre de infertilidade. Um estudo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) pretende investigar a ligação entre essa disfunção e a exposição a um tipo específico de agrotóxico, o inseticida clorpirifós. Trata-se do projeto “Toxicologia Reprodutiva Masculina e Feminina do Inseticida Clorpirifós: Modelos In Vitro e In Vivo na Fase Peripuberal”, coordenado pela professora do Departamento de Biologia Geral, Glaura Scantamburlo Alves Fernandes.

O foco do projeto de pesquisa se dá em um período crítico do desenvolvimento reprodutivo dos mamíferos: a puberdade, também conhecida como o período de adolescência em humanos. É nesse período que acontecem grandes mudanças físicas, hormonais e comportamentais fundamentais para a vida reprodutiva. Alterações ocorridas durante esse período crucial para o desenvolvimento reprodutivo podem resultar em infertilidade na fase adulta. No Brasil, os custos do Sistema Único de Saúde (SUS) com tratamentos de infertilidade (como inseminação artificial ou fertilização in vitro) são altos. Além disso, a infertilidade relacionada à contaminação ambiental também atinge animais em seu ambiente natural, como macacos e onças, o que leva à redução do número de filhotes.

Danos ao sistema reprodutivo

O projeto sustenta a hipótese de que há uma relação entre a exposição ao inseticida clorpirifós e danos ao sistema reprodutivo. No Brasil, esse agrotóxico é usado na agricultura em dezenas de culturas, como soja, tomate, feijão, algodão, banana, batata, café, milho, entre outras. Países da União Europeia, Estados Unidos e Canadá baniram o clorpirifós devido às incertezas sobre sua real toxicidade. Entre os vários males que esse veneno pode causar à saúde, destacam-se alterações metabólicas, estresse oxidativo e até tipos de câncer. As formas de contato com o veneno são: contaminação dos trabalhadores que manuseiam tais compostos; pela via ambiental, com a dispersão dessa substância em lagos, atmosfera e solo; e pela via alimentar, com a ingestão de alimentos contaminados, sendo esta a principal via de contaminação, tanto na população humana quanto na de animais selvagens.

Um dos diferenciais do projeto é que normalmente os estudos sobre os efeitos do clorpirifós, assim como de outros contaminantes ambientais nos sistemas reprodutores masculino e feminino, são realizados em animais já na idade adulta e com doses elevadas, o que acaba não refletindo a dosagem usual a que os humanos e demais mamíferos ficam expostos. Por isso, utilizar dosagens menores, mais semelhantes à realidade de exposição e na fase da puberdade, pode resultar em avaliações mais precisas sobre os efeitos do pesticida no desenvolvimento reprodutivo. “O objetivo é estudar o efeito desse inseticida em baixíssimas doses para podermos mimetizar o ambiente, ou seja, tornar o experimento parecido com a exposição usual”, comenta Glaura Scantamburlo.

Professora Glaura Scantamburlo: “A importância do projeto é investigar essa fase de desenvolvimento que é a puberdade, frente à exposição a agrotóxicos”. (Foto: Agência UEL)

Nos experimentos, serão utilizados ratos Wistar, machos e fêmeas, com idades entre 21 e 22 dias. Nos machos, ao final dos experimentos, os epidídimos (dutos que as células espermáticas atravessam no processo de maturação) serão destinados a análises de perfil oxidativo, morfométricas e histopatológicas, além da determinação do número de espermátides maduras. A avaliação de toxicidade in vitro será realizada utilizando linhagens celulares de próstata e as produtoras de testosterona.

Em ratas, serão avaliados parâmetros reprodutivos incluindo a avaliação de fertilidade, como exemplifica Glaura Scantamburlo: “Vamos ver se o ovário e o útero estão preparados para gerar descendentes, fazer a avaliação dos fetos, quantos nasceram vivos, número de abortos, além de avaliar parâmetros placentários. Também, serão utilizados ovários bovinos para avaliação de toxicidade in vitro”.

Efeitos na puberdade

Os resíduos de agrotóxicos presentes em alimentos consumidos podem ser causa de problemas endócrinos, uma vez que muitos deles possuem atividade hormonal, por isso estudos sobre o clorpirifós são importantes, até porque nem todas as repercussões causadas pela exposição a agrotóxicos causam danos sintomáticos no organismo, o que torna seu efeito lesivo e imperceptível sem chances de tratamento precoce. “A importância do projeto é investigar essa fase de desenvolvimento que é a puberdade, frente à exposição a agrotóxicos. O que os nossos adolescentes estão colhendo dessa exposição? Eles colherão na vida adulta, um organismo saudável ou não? Então a proposta é também auxiliar na legislação sobre o assunto, para que tenhamos uma agricultura mais sustentável”, complementa a professora.

O presente estudo tem relevância social, ambiental e econômica. A professora Glaura obteve a recondução da sua bolsa de produtividade em pesquisa pelo Programa Bolsas de Produtividade em Pesquisa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na área de Toxicologia e o projeto contará com a participação de bolsistas de Iniciação Científica e de Doutorado para a realização das etapas experimentais.

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