Projeto de pesquisa desenvolve máscara contra fumaça cirúrgica

Projeto de pesquisa desenvolve máscara contra fumaça cirúrgica

Resultado de mais de uma década de pesquisa pelo grupo GeeST, item de segurança deve estar disponível para uso geral em 2027.

O eletrocautério é uma ferramenta capaz de cortar e coagular os vasos sanguíneos do paciente, diminuindo o sangramento e o tempo dos procedimentos. Contudo, a inalação da fumaça cirúrgica gerada, carregada de compostos químicos, podem causar desde náusea, vômito e tontura, até câncer de laringe, traqueia, ou pulmão em seus casos mais graves.

 O Grupo de Estudos em Gestão do Cuidado, Editoração Científica e Saúde do Trabalhador (GeeST) busca analisar e entender os riscos ocupacionais e desenvolver estratégias de enfrentamento que protejam os profissionais de riscos, como aquele que é apresentado pela fumaça cirúrgica. A máscara HeLP  – desenvolvida e patenteada por uma doutoranda – e o filtro SOS foram criados para este objetivo.

Renata Perfeito Ribeiro, coordenadora do projeto, e pesquisadora da área da Saúde do Trabalhador. Foto: Murilo Carvalho

Segundo a professora Renata Perfeito Ribeiro, docente do Programa de Pós-Graduação de Enfermagem e coordenadora do projeto, o problema de máscaras com modelos comuns, como a N95 – que se popularizou durante a pandemia – é o fato de que sua proteção está limitada a vírus e bactérias, com menor efetividade contra compostos químicos. “A N95 realmente faz o que se propõe a fazer: proteger você de compostos biológicos. Ela vai proteger, mas não de tudo que realmente precisaria, então nós desenvolvemos a máscara HeLP para proteção química”, explica.

Sendo um protótipo em desenvolvimento, a HeLP não está disponível para o público. Ainda este ano, serão iniciados os testes com trabalhadores de enfermagem, voluntários de diferentes hospitais de Londrina e também em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com uma previsão de que sua produção para uso geral comece em 2027.

Duas máscaras HeLP, ao lado de um filtro SOS. Foto: Murilo Carvalho

A HeLP foi nomeada a partir da combinação do nome e sobrenome da professora Helenize Leachi, que desenvolveu a máscara inicialmente durante seu doutorado, com o sobrenome de sua orientadora, Renata Perfeito.

Uma das principais preocupações da professora foi de que a máscara fosse segura mas ao mesmo tempo ergonômica. Por se tratar de um Equipamento de Proteção Individual (EPI), deverá ser utilizado por profissionais da saúde por longos períodos de tempo sem machucar e também sem perder seu fator de proteção após poucos usos.

Ribeiro argumenta que a sustentabilidade deve ser um dos pilares fundamentais para essa nova invenção, investindo na sua durabilidade e em formas de diminuir a produção de lixo. “Não podemos desenvolver tecnologias que também criem mais problemas. Não faria sentido mais uma tecnologia que faz uma coisa boa, mas também faz uma coisa ruim, aumentando o lixo produzido, contra os preceitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas”, relata.

Diferente das máscaras comuns feitas com fibras sintéticas, que acabam indo para o lixo com pouco tempo de utilização, a HeLP é pensada para acompanhar o  profissional. Ela é feita de resina ou silicone, que pode ser lavada com água e sabão e guardada após cada uso, exigindo apenas da troca do filtro quando saturado.

As integrantes do projeto, da esquerda para a direita: doutoranda Francieli Faustino, doutoranda Kawanna Vidotti Amaral, doutoranda Ana Paula da Silva, mestranda Letícia da Silva Consoline, aluna de Iniciação Científica Giovanna Rafaela Silva, e a coordenadora Renata Perfeito Ribeiro Foto: Murilo Carvalho/Agência UEL

O Filtro SOStentável

Além da máscara, o filtro SOS também foi projetado se forma sustentável, reutilizando material hospitalar limpo que seria descartado após um único uso. O tecido SMS, é utilizado na embalagem de caixas cirúrgicas para mantê-las esterilizadas e, mesmo quando não há contaminação, não pode ser utilizada novamente.

Videoscopia Eletrônica do Filtro SOS, aumentado em 10 mil vezes. As fibras maiores ao fundo são o tecido SMS, enquanto os fios menores são a eletrofiação. Fonte: Ana Paula Silva/Divulgação

Ana Paula da Silva, doutoranda integrante do projeto e responsável pelo desenvolvimento do filtro SOS, explica que o tecido passa por um processo de fiação com nanopartículas, que torna os poros na máscara menores do que as partículas tóxicas, assim filtrando-as e neutralizando os compostos químicos. O processo de eletrofiação no filtro aplica acetato de celulose sobre o tecido, um polímero biodegradável, e após avaliação por Microscopia  Eletrônica de Varredura (MEV), realizada com o apoio da UTFPR, é seguro para este fim.

Giovanna Rafaela Silva, estudante de Iniciação Científica, também participa do desenvolvimento do filtro, pesquisando uma forma de adicionar um indicador para deixar visível ao profissional da saúde quando o filtro está saturado, ou seja, quando ele deixou de ser efetivo e precisa ser substituído.

Do ponto de vista econômico, a utilização do SMS também tem seus benefícios. Por ser considerado lixo hospitalar, seu descarte acarreta em altos custos para os hospitais, assim beneficiando tanto eles quanto o projeto ao dar um novo uso para esse material, também tornando a produção mais barata.

O Futuro do GeeST

A coordenadora Renata Perfeito Ribeiro, que já está a mais de 15 anos participando de pesquisas na área, afirma que o projeto atua em outras frentes além da produção das máscaras e dos filtros, como a editoração de uma revista científica do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF), da qual ela é editora científica.

O BurnLife – desenvolvido por meio de uma pesquisa de doutorado – é outra dessas iniciativas, aplicando a teoria do Burnout não somente ao cansaço gerado pelo trabalho, mas também ao cotidiano de vida pessoal dos trabalhadores de enfermagem, como atividades exaustivas e suas relações com a família, parceiro e filhos.

Ribeiro afirma que o próximo passo será o desenvolvimento do Hospital Amigo do Trabalhador, uma iniciativa para criar propostas de modificação para NR 32 – a Norma Regulamentadora que estabelece as normas que todos os profissionais da saúde devem seguir. O objetivo será criar um sistema similar ao selo de Hospital Amigo da Criança, onde serão oferecidas vantagens às instituições de saúde que seguirem regras de exames, cuidados, uso de EPI e preenchimento da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), enfim, cuidados específicos destinados aos trabalhadores da saúde.

Mais informações sobre o GeeST e seus projetos estão disponíveis na página do Instagram.

*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.

Publicado em

É autorizada a livre circulação dos conteúdos desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte.