Projeto minimiza barreiras de estudantes com dificuldades de aprendizagem em sala de aula
Projeto minimiza barreiras de estudantes com dificuldades de aprendizagem em sala de aula
Universidade tem hoje 284 estudantes com deficiência. Novas leis de acesso ao ensino mostram tendência de aumento desse contingenteCada vez mais o debate sobre inclusão se faz necessário e presente, entretanto, a problemática sobre como proceder para que iniciativas inclusivas tenham êxito em minimizar barreiras de aprendizagem talvez seja mais premente. Lidar com essa questão e, principalmente, promover estudos que resultem em ações para fazer da inclusão algo real, e não apenas uma promessa, é o pressuposto do projeto de pesquisa em ensino “Estudos para Educação Especial no Ensino Superior: Apoios para Estudantes com Deficiência, Altas Habilidades/Superdotação e Transtornos Funcionais Específicos”, coordenado pela Pró-reitora de Graduação, Ana Márcia Fernandes Tucci de Carvalho, docente do Departamento de Matemática, e realizado em parceria com o Núcleo de Acessibilidade da UEL (NAC), vinculado à Prograd.
Como projeto de ensino, o grupo trabalha com a discussão dos temas que envolvem a educação especial no ensino superior, em reuniões dinâmicas, interativas, que valorizam a troca de experiências e a participação de todos integrantes. Para isso, são realizados encontros mensais com professores, estudantes, tanto da graduação, como da pós-graduação. Seja com uma lista de temas previamente definida ou com temáticas trazidas pelos professores que lidam com estudantes com deficiência e/ou com dificuldades de aprendizagem, as reuniões problematizam as questões, com o objetivo de aventar soluções práticas para as barreiras que interditam o aprendizado.
O projeto incentiva estudantes e docentes a analisarem aspectos que a educação especial traz para a vivência da sala de aula. “Às vezes um professor nos questiona como lidar com um estudante cego, e orientamos sobre toda a prática, refletindo sobre possíveis adaptações da prova que será aplicada, a necessidade de entender quais adaptações, conforme o grau de deficiência (se a cegueira é total ou parcial), várias situações em que o professor tem que entender para adaptar procedimentos relativos à disciplina dele”, comenta Ingrid Caroline de Oliveira Ausec, coordenadora do NAC.
Existem diferenças entre o Ensino Superior e a Educação Básica, quando o assunto é educação especial. “No ensino superior, precisamos ter um profissional de apoio especializado que atenda às necessidades do estudante, mas sempre que este profissional estiver lidando com um adulto, que está em plena formação profissional, não deve haver diferença na qualidade da formação que oferecemos”, lembra a professora Ana Márcia.
Segundo a professora, a questão da orientação ao profissional de apoio para o atendimento especializado é fundamental: “Não basta colocar um intérprete de Libras na sala de aula para um estudante surdo. O intérprete precisa interagir com o docente da disciplina e juntos compreenderem como o conteúdo poderá ser traduzido e repassado ao estudante. Fazer o estudante compreender, mediar o aprendizado como um todo, pensar em termos técnicos que não existem na Libras. Então é um trabalho complexo para o qual o professor não tem formação, ou seja, o docente da disciplina trabalha junto com o profissional de apoio”.
Essa interação com os docentes é muito importante quando se fala em educação especial no ensino superior, porque se trata de mais uma peculiaridade que diferencia o ensino superior do ensino básico, já que, no ensino básico, o conteúdo programático não tem muitas variações. Já no ensino superior, a variedade do conteúdo é um fator complicador, como explica Ingrid: “Na universidade, pode ter um estudante cego no Direito, na Física, na Química, na Matemática, e para cada curso nem sempre a adaptação vai ser a mesma. Aí juntamos nossos conhecimentos de adaptação com as informações que os professores nos trazem sobre o estudante, e chegamos numa solução. Porque eu não sei adaptar um sistema de engenharia elétrica, entende? Então o professor vem com as ideias dele e a gente passa as nossas para somarmos os esforços”, ilustra.
Todo esse trabalho é importante, pois capacita não apenas o corpo docente da UEL, mas contribui para a formação dos estudantes que também podem vir a ser docentes, como é o caso dos estudantes dos cursos de licenciatura.
Barreiras atitudinais
Além das barreiras físicas e pedagógicas que os estudantes da educação especial enfrentam, o projeto também se debruça sobre uma outra – a barreira atitudinal, ou seja, tudo o que envolve a ação das pessoas sem deficiência em relação aos estudantes com deficiência. Nesse sentido, insere-se a questão do capacitismo, que, segundo Ingrid Ausec, no contexto da educação, é uma forma de preconceito que se apresenta quando se dificulta o acesso e quando se romantiza demais a situação, desaguando na piedade exagerada.
“As pessoas dizem ‘ah, como ele é guerreiro, vamos deixar ele fazer o que quiser, porque ele não vai trabalhar com isso mesmo’”, exemplifica a coordenadora do NAC. No mesmo sentido, a coordenadora do projeto, Ana Márcia, salienta que a ideia não é “facilitar” para o estudante com deficiência, mas sim adaptar, favorecendo o processo formativo.
“Nossa função enquanto instituição é possibilitar que esse estudante realize o curso de formação como qualquer outro, nas mesmas condições, sem facilitar nem dificultar. Se ele tem dificuldades para a realização da prova, precisamos que lhe seja facultado mais tempo, mas a prova é a mesma no sentido de o conteúdo a ser avaliado”, afirma.
Segundo Ingrid Ausec, o grande mérito do projeto é justamente tentar orientar para a mudança dessa percepção da comunidade em relação a como trabalhar com as pessoas com deficiência, a romper as barreiras atitudinais. Sem esse esclarecimento, essa compreensão das pessoas que estão ao redor, como colegas e professores, a tendência é que a trajetória do estudante com deficiência na universidade seja muito mais sofrida, provocando até a desistência da vida acadêmica.
No último censo realizado pelo NAC referente ao ano letivo de 2024, havia na UEL 284 estudantes com deficiência. Por conta das novas leis de acesso ao ensino superior, como a reserva de vagas para ingresso na universidade, a tendência é esse número subir, daí a importância do projeto em buscar a conscientização do professor para se capacitar para lidar com esse público, conforme defende a professora Ana Márcia: “Que teremos cada vez mais estudantes com deficiência na universidade não há dúvida, é um fato. Eu não vejo outro caminho para enfrentar essa questão que não seja por meio da própria formação do docente e de nossos estudantes. O ideal seria que todos os docentes da instituição tivessem uma formação mínima nessa área”, salienta.

Os encontros promovidos mensalmente pelo projeto são abertos a docentes e estudantes de qualquer área, inclusive da comunidade externa. Interessados em participar podem entrar em contato pelo e-mail nac@uel.br. A próxima reunião está prevista para o dia 25 de abril e o tema será “Aspectos psicológicos e socioemocionais no autismo em jovens e adultos: relação professor-estudantes e estratégias de apoio psicopedagógico”.