Projeto estuda a cadeia produtiva do biometano, o “pré-sal caipira”

Projeto estuda a cadeia produtiva do biometano, o “pré-sal caipira”

Paraná tem tudo para ser um grande produtor da fonte de energia limpa e renovável.

Em meio à crise dos combustíveis deflagrada pela guerra no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã, reacende o debate sobre a dependência da economia mundial em relação a combustíveis fósseis. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), um projeto pretende avaliar a cadeia produtiva de uma alternativa energética que tem tudo para crescer exponencialmente, especialmente no Paraná, e que no futuro poderá ajudar a equalizar de modo mais favorável em termos econômicos e ambientais a balança da matriz energética: o biometano.

Com a publicação da “Lei do Combustível do Futuro” em 2024, o mercado dos biocombustíveis se agitou. A nova regra trouxe obrigações, benefícios e incentivos que estimulam os investimentos em vários setores relacionados a combustíveis sustentáveis e a tecnologias de baixa emissão de carbono. Este vilão do meio ambiente é o maior alvo da lei, que tem como meta a descarbonização da matriz energética brasileira. Com as mudanças legais, estima-se que os investimentos serão de 260 bilhões de reais na cadeia dos biocombustíveis e no agronegócio.

Particularmente para o biometano – que vem sendo chamado de “pré-sal caipira” –, a lei traz um impulso para investimentos, já que, dentre outras medidas, a norma estabelece, por exemplo, que produtores de gás natural (combustível fóssil) precisam adquirir biometano para atender metas de redução de emissões de efeito estufa, além de incluir uma porcentagem de biometano na produção do gás.

Quando se trata de biocombustível, o Paraná é referência no Brasil. Além de possuir programas de incentivo, regulamentações favoráveis e políticas públicas voltadas a fontes renováveis de energia, o estado possui um ativo de dar inveja: é um dos maiores produtores agropecuários do país. Isso faz todo o sentido em se tratando de biometano, porque este é produzido a partir de dejetos de animais extraídos, por exemplo, da suinocultura e avicultura, dois setores em que o Paraná é grande produtor. Portanto, matéria-prima para a produção dessa fonte de energia não falta.

No âmbito do incentivo, o Governo do Estado vem fazendo a sua parte. O Programa Renova Paraná subsidia o financiamento de sistemas de geração de energia renovável com descontos em taxas de juros que podem até chegar a zero no caso da agricultura familiar. As operações são feitas através do Banco do Agricultor Paranaense (BAP) com recursos do Fundo de Desenvolvimento Econômico (FDE). Essas circunstâncias se traduzem em excelentes números na produção do biogás no estado. O Paraná detém cerca de 67% das plantas de produção de biogás do Brasil e há uma perspectiva de que o biogás possa suprir até 38% da demanda energética do estado em 2050.

Central de Bioenergia de Toledo, uma das várias plantas de produção de biogás instaladas no Paraná (Foto: CIBiogás)
Contribuição da UEL

É esse cenário promissor que o projeto “Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação para o Desenvolvimento da Cadeia de Biogás no Estado do Paraná (Napi Biogás): Análise Geoeconômica da Cadeia Produtiva de Biometano no Paraná” – coordenado pelo professor do Departamento de Economia, Angelo Rondina Neto – quer esmiuçar, detalhando mecanismos econômicos envolvidos na produção do biometano no estado.

Vinculado ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Biogás, o estudo pretende mapear a cadeia de agentes relacionados ao biometano, desde a produção até o consumo, avaliando o potencial energético, a viabilidade regulatória e as políticas públicas para promover a transição energética no estado. “Queremos investigar os diferentes atores que fazem parte dessa rede, como a universidade, o setor público, além de produtores. Faremos um mapeamento e análise geográfica de onde estão posicionados os produtores da matéria-prima, os dejetos dos animais”, afirma o professor.

Vantagens do biometano

Apesar de o projeto e o NAPI em que se insere conterem a palavra “biogás” nos títulos, cabe uma diferenciação. O biometano, foco do projeto, é o resultado da purificação do biogás, que também é uma fonte de energia limpa, porém, menos limpa do que a do biometano. Isso porque o que transforma o biogás em biometano é a retirada de quase todo o carbono que o biogás tem. Nomenclaturas à parte, o fato é que o biometano contém muitas vantagens, e talvez a maior delas é que ele é uma fonte de energia renovável. Ou seja, dificilmente vai faltar um dia, ao contrário dos combustíveis fósseis que têm data para extinção.

De fato, enquanto houver matéria orgânica (restos de comida, lixo sanitário, resíduos agrícolas ou fezes de animais) e bactérias anaeróbicas para decompô-la, haverá o potencial para a exploração do biometano. Essa fonte de matéria-prima farta e ininterrupta no Brasil agrada a investidores, já que, em tese, estariam livres de dependências externas, como variação do dólar ou efeitos restringentes derivados de crises bélicas.

O biometano é uma das fontes de energia mais limpas que existem. Segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia (MME), que mostrou os valores de intensidade de carbono das principais fontes energéticas usadas no setor de transporte rodoviário. O estudo constatou que o biometano emite menos gramas de dióxido de carbono equivalente por megajoule (gCO₂eq/MJ) do que veículos movidos a diesel, a gás natural veicular, a gasolina, a biodiesel, a etanol e até a eletricidade.

Professor Angelo Rondina Neto: “Queremos investigar os diferentes atores que fazem parte dessa rede, como a universidade, o setor público, além de produtores”. (Foto: Agência UEL)

Outra vantagem do biometano na cadeia produtiva está na distribuição. Ao contrário do petróleo, por exemplo, cuja produção normalmente situa-se longe dos locais de consumo, o biometano pode ser consumido no mesmo local em que é produzido, como em propriedades do setor sucroalcooleiro, cujos resíduos podem servir como matéria-prima para gás. Em aterros sanitários também se pode produzir biometano, e estes podem existir em qualquer município do país, o que reduz a problemática da distribuição dependente de centros distantes.

Estima-se que hoje no Brasil há cerca de três mil lixões a céu aberto, oportunidade, portanto, para a construção de novos aterros. Além disso, a rede de distribuição de gás natural existente em muitas cidades pode ser aproveitada para o transporte do biometano. Segundo Rondina, um dos objetivos do projeto é justamente analisar essa rede de distribuição de gasodutos no Paraná como meio de dar vazão ao biometano, investigando a construção de novas redes com a finalidade de ligar os polos de produção e os centros de demanda.

Vocação energética

Para o professor Rondina, a importância do projeto vai além da parte acadêmica. “Nós estamos criando uma nova tecnologia que pode contribuir muito para a produção de novas formas de interagir no mundo, principalmente a geração de energia. O Brasil tem essa vocação. Nós temos potenciais que ainda não são explorados, que podem dar ao país um destaque internacional, seja com geração de energia limpa, ou como forma de fazer energia mais barata, local, sem sofrer grandes pressões internacionais”, defende.

O Napi Biogás, no qual o projeto está inserido, é uma iniciativa coordenada pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), uma Instituição de Ciência e Tecnologia com Inovação (ICT+i) instalada no Parque Tecnológico Itaipu (PTI-BR) e que visa fortalecer a cadeia produtiva do biogás no Paraná.

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