50 anos dedicados à Ciência: Grupo de Física Nuclear e professor Carlos Appoloni celebram pioneirismo e trajetória

50 anos dedicados à Ciência: Grupo de Física Nuclear e professor Carlos Appoloni celebram pioneirismo e trajetória

Fundado em 1977, o Grupo figura entre os mais antigos do gênero no país. Já o professor acumula a orientação de 197 trabalhos acadêmicos

Foram abertas no último dia 19, quarta-feira, as comemorações dos 50 anos do Grupo de Física Nuclear Aplicada da UEL (GFNA), que completará o cinquentenário em julho do ano que vem. Na cerimônia, também se renderam homenagens ao professor Carlos Roberto Appoloni, um dos fundadores do GFNA e que completou 50 anos de docência na Universidade no último dia 18. As trajetórias do Grupo e do professor Appoloni se confundem, imbricam-se, tornando seus legados exemplos de pioneirismo e referências para a comunidade científica.

Mais antigo grupo de pesquisa em atividade na UEL, o Grupo de Física Nuclear Aplicada foi fundado em 1977, então único do gênero no Paraná. A fundação do GFNA ocorreu em meio ao processo de consolidação da própria Universidade – criada em 1970 e reconhecida pelo Ministério da Educação em 1971 – e de interiorização da pesquisa científica no estado. O Grupo surgiu também no período de expansão da Física Nuclear no Brasil, impulsionado pelo interesse nacional à época de ampliação do uso da radiação para fins pacíficos, como utilização na agricultura, indústria e saúde, e também pela necessidade de formar mão de obra qualificada fora dos grandes centros de pesquisa do país.

Grupo surgiu em 1977, época em que o interesse pela física nuclear era crescente (Foto: André Ridão/COM)

O GFNA atua simultaneamente como grupo de pesquisa cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e também como unidade de laboratórios integrados ao Departamento de Física. “Nos últimos 50 anos, o grande marco do laboratório foi a inovação. Podemos dizer que foi a transição da Física Nuclear de bancada estacionária para a Física de campo, nacionalizando e adaptando sistemas de medição portátil para aplicação direta no setor produtivo, como o agronegócio e a preservação histórica”, comenta o chefe do Departamento de Física, professor Marcello Ferreira da Costa.

Ainda segundo o professor, o laboratório formou nesses 50 anos centenas de pesquisadores, mestres, doutores, além de ter abrigado docentes e pós-doutorandos que hoje atuam em universidades do Brasil e do exterior. Entre 2015 e 2025, o GFNA produziu 171 artigos científicos, sendo 69% deles com nota A no Qualis, sistema da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que mede a qualidade da produção dos programas de pós-graduação.

O GFNA é reconhecido como um dos principais laboratórios de Física Aplicada do Paraná e do país, já que muitas vezes é chamado a colaborar com instituições nacionais, além de realizar parcerias internacionais. Ao longo desses 50 anos, o GFNA se consolidou como referência nacional em técnicas analíticas não destrutivas, além de ter desenvolvido instrumentação nuclear portátil.

Um serviço prestado pelo GFNA é a arqueometria, que consiste em um conjunto de métodos e técnicas para analisar materiais visando identificar características físicas e químicas que podem até, após uma análise contextual, indicar sua idade e autenticidade. A técnica empregada nessa análise é a fluorescência de raios X. Além de analisar fósseis e vestígios históricos, a técnica é muito empregada para identificar pigmentos em obras de arte e associá-los a sua data de origem. Essa técnica é um dos métodos não destrutivos de análise, que permitem analisar a composição e a integridade de materiais sem danificá-los.

Reconhecido nacionalmente, em 50 anos o Grupo de Física Aplicada acumula a produção de centenas de de artigos científicos e foi responsável pela formação de pesquisadores (mestres e doutores)
(Foto: André Ridão/COM)

Com esses métodos e técnicas, o GFNA já analisou várias obras de arte, inclusive de artistas famosos, como Victor Meirelles e Candido Portinari. “O Grupo faz uma análise dos pigmentos e materiais que auxilia peritos e historiadores a determinar a época da obra e identificar possíveis falsificações ou restaurações posteriores, fornecendo subsídios científicos para os atestados”, explica o chefe do Departamento de Física.

Ainda segundo Marcello Ferreira, o GFNA já analisou acervos de relevância nacional, como o do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), o do Museu Paranaense (Mupa), além de bens do patrimônio sacro do Paraná. Para isso, o GFNA conta com sistemas portáteis que formam uma unidade móvel capaz de se deslocar a museus, galerias, sítios arquelógicos, o que permite análises de acervos que não podem ser transportados. O GFNA foi um dos laboratórios pioneiros do país a adotar a arqueometria, na década de 90.

Criador e criatura

É impossível falar do Grupo de Física Nuclear Aplicada sem falar da trajetória do professor Carlos Roberto Appoloni, 74 anos, que começou em 1976 como docente da UEL. No ano seguinte, ajudou a criar o GFNA, juntamente com outros dois docentes, Roberto Vicençoto Ribas e Antônio Tannous. Ao longo dos anos, Appoloni teve papel importante na consolidação do Departamento de Física. “O professor foi fundamental pra transformar o Departamento em um centro focado prioritariamente no ensino de graduação e um polo gerador de pesquisa de ponta”, diz Marcello Ferreira.

Das cinco décadas atuando na UEL, em quatro o professor Appoloni foi coordenador do GFNA, até se aposentar em 2019. “Foi um trabalho permanente de montagem de infraestrutura, de captação de recursos através de projetos de várias agências de fomento e formação de recursos humanos”, comenta o pesquisador, salientando que antigamente era muito mais difícil produzir pesquisa, pois os procedimentos formais ainda não estavam muito assimilados na Universidade. “Hoje, o ambiente para pesquisa é bastante mais palatável do que naquela época, porque todos os componentes das antigas faculdades não tinham nenhuma tradição de pesquisa, praticamente. E a administração que se consolidou no início não conhecia os trâmites, os mecanismos. O dia a dia dos administradores da época era de professores ‘auleiros’, e não de professores pesquisadores”, conta.

Aos 74 anos, Carlos Roberto Appoloni chega aos 50 anos de docência na UEL (Foto: André Ridão/COM)

O professor menciona um fato histórico e inusitado ocorrido no GFNA na década de 80. Tempos após o desastre de Chernobyl (um reator nuclear na Ucrânia explodiu, espalhando radiação, tornando-se o maior acidente nuclear da História), o governo brasileiro havia comprado grandes quantidades de leite em pó e queijo de países do Leste Europeu. Por conta do acidente nuclear, todos esses alimentos tiveram que passar por inspeção para verificar se continham ou não altos níveis de radioatividade. Mas como o volume de produtos a ser analisado era muito grande e o material perecível, o órgão nacional responsável por essa verificação não conseguia dar conta de fazê-lo a tempo.

Foi então que o GFNA foi chamado para a ajudar e ficou responsável por fazer essa verificação no âmbito do Paraná. “Analisamos várias amostras e fizemos espectrometria de raios gama para medir césio-137. Algumas amostras tinham nível de radioatividade baixo, mas várias estavam bastante acima, uma em especial, uma marca de leite em pó tinha um nível de radioatividade absurdo, muito alto, tanto que até hoje essa amostra está guardada num dos nossos cofres de material radioativo”, relata.

Liderança à frente da academia

O maior reconhecimento da carreira de um profissional vem dos seus pares, e os do professor Appoloni não cansam de enaltecê-la. Para Marcello Ferreira, o professor foi a principal liderança do GFNA, dedicando décadas da sua carreira ao ensino, pesquisa e extensão promovendo a expansão da Física. “O professor Appoloni é reconhecido por sua dedicação rigorosa à Ciência, postura ética e visão pioneira. Conseguia conectar Física Nuclear com Arte, Arqueologia, além de ter um perfil acolhedor com os estudantes”, descreve.

Para Eduardo Inocente Jussiani, membro do GFNA, se as qualidades do pesquisador Appoloni são únicas, as de docente não deixam a desejar. Segundo ele, o professor Appoloni tratava um orientando de Iniciação Científica com a mesma disponibilidade com que tratava um de pós-doutorado. Eduardo Jussiani relembra uma passagem de quando ele próprio foi aluno do professor: “Um dia perguntamos a ele por que preparava as aulas se a disciplina era a mesma todos os anos. E ele disse ‘sim, a disciplina é a mesma, mas os alunos não, porque cada ano é uma turma nova, então tenho que fazer as adaptações para que eles consigam acompanhar.’ Essa frase me marcou profundamente, porque mostra o espírito de professor, que é algo raro hoje em dia”, afirma.

Ao longo dos últimos 50 anos, muita coisa mudou na Física e nas maneiras de fazer Ciência. Mas, segundo o professor Appoloni, tem coisa que não pode mudar. “Nós temos uma sociedade tecnológica, temos em mãos equipamentos extremamente sofisticados que decorrem de todo esse desenvolvimento científico e tecnológico, mas o que não mudou é o método científico. É ele que permite que tudo avance, e é através dele que se fez, faz e se fará Ciência. Isso é muito importante, para não misturarmos alhos com bugalhos, como acontece nas discussões sobre os novos fundamentalismos”, defende.

Questionado se os 50 anos de docência na UEL deixaram saldo positivo, o professor não teve dúvida: “Valeu a pena, sem sombra de dúvida. E o que mais valeu a pena, além do meu crescimento pessoal e da contribuição que pude dar, foram os mais importantes tijolinhos que ajudei a construir, as pessoas que eu formei. Isso é o maior prazer que um professor pode ter, formar um estudante e vê-lo crescer e fazer mais e melhor”, afirma.

Professor emérito da UEL (a mais alta honraria concedida pela instituição a um docente), Carlos Appoloni orientou 197 trabalhos acadêmicos na UEL, divididos entre Iniciação Científica, Mestrados, Doutorados e Pós-doutorados. Foi chefe do Departamento de Física, diretor do Centro de Ciências Exatas (1980 a 1982) e Vice-Reitor da UEL (1986 a 1990). Foi membro do Comitê de Assessoramento de Engenharia e Ciências Nucleares do CNPq (2010 a 2013) e membro do Comitê Gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia: Física Nuclear e Aplicações (INCT-FNA) entre 2015 e 2025. Atualmente é docente sênior do Programa de Pós-Graduação em Física e bolsista de produtividade CNPq nível B.

(FOTOS: André Ridão)

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