Visões teóricas, visões de mundo
Visões teóricas, visões de mundo
Pesquisador foca especialmente na visão científica, mas sem ser cientificista, ou seja, sem ter uma visão excludente de que só a Ciência é capaz de explicar o mundoO filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) afirmou que os seres humanos nunca percebem a realidade de forma neutra ou pura, mas sempre através de “lentes” subjetivas, a partir de suas experiências pessoais. Mais tarde, a antropóloga norte-americana Ruth Benedict (1887-1948) disse que “a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo”.
O professor Gelson Liston (Departamento de Filosofia) tem desenvolvido reflexões semelhantes há muito tempo, focado na Filosofia da Ciência. Ele coordena um projeto de pesquisa intitulado “Indecidibilidade do debate metafísico em Filosofia da Ciência e racionalidade do relativismo epistemológico”. São vários conceitos nem sempre compreensíveis num primeiro momento, o que é natural, considerando que, como filósofo, ele indaga a própria realidade. Aliás, o que é realidade?
Defini-la é motivo de um interminável debate filosófico, mas por isso mesmo é tranquilo afirmar que ela é complexa. Como tal, é alvo de múltiplas e distintas visões de mundo. O que o pesquisador chama à atenção é que os filtros de observação de cada indivíduo não são apenas teóricos, mas também culturais. Assim, a história pessoal de cada um traz todo um arcabouço de referências que constroem uma específica visão de mundo. E, a partir dela, cada um toma suas decisões. Isso vale para a escolha da futura profissão, dos sabores a serem degustados, da literatura a ser lida, dos amigos com quem vai se relacionar, e todos os outros atos da vida.
Não é o caso de hierarquizar as tantas visões de mundo ou estabelecer quais estão corretas e quais são equivocadas. Trata-se de saber conscientemente qual o lugar ou papel de cada uma, e que atributos pertencem ou não a determinada visão. O professor Gelson, por exemplo, foca especialmente na visão científica, mas sem ser cientificista, ou seja, sem ter uma visão excludente de que só a Ciência é capaz de explicar o mundo.
Na UEL desde 2002, o pesquisador tem em seu currículo estudos da Filosofia da Ciência desde o Mestrado e Doutorado, defendidos na Universidade Federal de Santa Catarina, e o pós-doutorado na Inglaterra. Em sua trajetória de pesquisa, encontrou-se, por exemplo, com o historiador e filósofo da Ciência norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), em sua obra clássica – A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), que defendeu que o cientista nunca é um observador totalmente neutro, pois enxerga e investiga a realidade através das lentes do modelo conceitual dominante em sua época.
Também destaca o filósofo da Ciência austríaco Paul Feyerabend (1924-1994), que afirmou que não existe uma regra metodológica universal ou fixa que guie permanentemente o progresso da Ciência Ele questionou ainda a superioridade dogmática dada à ciência moderna em relação a outros saberes.

Fatores não epistêmicos
Ou seja, fatores não epistêmicos – alheios à Ciência, como valores morais, econômicos ou políticos – incidem sobre as visões de mundo, ainda que amparadas em orientações filosóficas. Neste caso, explica o professor Gelson, é preciso seguir o argumento de outros filósofos, que defenderam tirar a Metafísica desta equação, a fim de preservar a visão científica como tal. Claro que o próprio entendimento do que seja a Metafísica e mesmo Ciência ainda são objeto de debates. Para o professor Gelson, porém, existem algumas condições que permitem afirmar que um conjunto de conhecimentos represente uma Ciência. Deve haver, por exemplo, consistência lógica e conteúdo empírico, o que leva a uma estabilidade e à objetividade. Isso pode ser encontrado em algumas das chamadas Ciências Naturais.
Aí estão, portanto, alguns dos principais aspectos envolvidos no debate filosófico em
torno da Filosofia da Ciência, e que podem influenciar na decidibilidade, isto é, na
possibilidade de atribuir valor verdade a uma proposição por meio de regras formais. Um problema é indecidível se esta resposta não for possível nestas condições. Seria então uma indecidibilidade filosófica, a aparente impossibilidade de decidir racionalmente tendo como referência sistemas filosóficos que conduzem à perplexidade.
Participam do projeto estudantes de Iniciação Científica (graduação), mestrandos, doutorandos, e um pós-doutorando. A pesquisa já foi apresentada em eventos científicos e publicada.





