Professora da UEL organiza livro sobre contracultura brasileira

Professora da UEL organiza livro sobre contracultura brasileira

Obra traz entrevistas e depoimentos, além de pesquisadores de diferentes locais, que relatam experiências de pontos variados do país.

Reinaldo C. Zanardi

Agência UEL


“A contracultura brasileira teve um caráter artístico que propôs também um novo entendimento sobre a questão identitária nacional”. A explicação é da professora Patrícia Marcondes de Barros, do Departamento de História, do Centro de Letras e Ciências Humanas (CCH), da UEL. Juntamente com a pesquisadora Isis Rost, a professora da UEL assina a organização do livro “Transas da contracultura brasileira”, lançado recentemente pela editora maranhense Passagens.

A professora explica que a obra reúne vasto material, com entrevistas e depoimentos de personagens que viveram as experiências dos anos 1960 a 1980. “Tempos de explosão criativa, transformações comportamentais profundas”, afirma. “O livro transita por espaços variados do Rio de Janeiro, às manifestações e ecos em terras fora do eixo principal, como São Paulo, São Luís, Teresina e Londrina”. O professor Frederico Fernandes, do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas, também do CCH, assina o artigo “Poesia in Concert na Cena Cultural Londrinense”.

Na primeira parte do livro, há entrevistas e depoimentos de Luiz Carlos Maciel, Ricardo Chacal, Jards Macalé, Helena Ignez , ao lado dos maranhenses Cesar Teixeira e Murilo Santos, integrantes da primeira turma do Laborarte, e de Edmar Oliveira , participante da cena que se desenvolvia em Teresina. Há, também, uma entrevista realizada por Joca Reiners Terron com Régis Bonvicino sobre Walter Franco. Na segunda parte, pesquisadores de diferentes locais relatam experiências de pontos variados do país. A professora Patrícia Marcondes de Barros deu a seguinte entrevista à Agência UEL, por e-mail:

Professor Frederico Fernandes, do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas, também assina o artigo Poesia in Concert na Cena Cultural Londrinense (Imagem: Divulgação)

Pode-se datar um período sobre a contracultura brasileira e qual o impacto para esse período?
A travessia das ideias contraculturais norte-americanas e europeias foram sentidas no Brasil, em fins da década de 1960, através das artes e da imprensa alternativa. Com a Coluna Underground (1969-1971) criada por Luiz Carlos Maciel no semanário carioca Pasquim, divulgou-se ao público leigo brasileiro, assuntos relacionados ao movimento juvenil, de caráter internacionalista, denominado pela imprensa norte-americana como contracultura. Os temas tratados nos impressos alternativos comumente abordavam sexualidade, drogas, música (rock), filosofias orientalistas, psicanálise, entre outros assuntos não discutidos pelos meios oficiais. O mote do movimento foi a liberdade no sentido “sartreano”, a que gera a autonomia e a responsabilidade na condução da própria vida e também à “grande recusa” “marcusiana” contra a ideia de homem unidimensional modulado pelo capitalismo e tecnocracia. A contracultura brasileira teve um caráter artístico que propôs também um novo entendimento sobre a questão identitária nacional, a política e, consequentemente, as formas de se fazer oposição à ditadura. Ganhou expressão com o Movimento Tropicalista durante um curto tempo e durante toda a década de 1970, com experienciações nas artes (denominadas como independentes, marginais), tomadas como formas de resistência e reexistência em um período de cerceamento da liberdade.

Como você define esse movimento (contracultura) e quais elementos culturais estão envolvidos nesse processo?
Gosto muito da ideia de Timothy Leary sobre a dinâmica do movimento, ele diz na obra “Contracultura através dos tempos”, que a contracultura: “[…] floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade escolham estilos de vida, expressões artísticas e formas de pensamento e comportamento que sinceramente incorporam o antigo axioma segundo o qual a única verdadeira constante é a própria mudança. A marca da contracultura não é uma forma ou estrutura em particular, mas a fluidez de formas e estruturas, a perturbadora velocidade e flexibilidade com que surge, sofre mutação, se transforma em outra e desaparece”. Existiram então diversas formas contraculturais. A da década de 1960, buscou uma resposta crítica frente à gama de condicionamentos que levou o ser humano àquilo que o existencialismo sartreano denunciou como “existência inautêntica”, gerada pelas ilusões do capitalismo. Através do descondicionamento do indivíduo frente ao mundo rápido, moderno e incompreensível, se chegaria à existência autêntica, embasada na formação de uma “nova consciência” e caracterizada pelo ideário do movimento hippie, de novas formas educacionais (surgem os programas das antiuniversidades na Europa e das Universidades Livres nos Estados Unidos), da antipsiquiatria, da Revolução Sexual e, também, por uma simpatia a manifestações anteriores aos anos 1960, como o Surrealismo, o Romantismo Sturm und Drung (“Tempestade e Ímpeto”), a Geração Beat, entre outras posturas e pensamentos que encontraram eco nesta geração.

Professora Patrícia Marcondes de Barros, do Departamento de História, assina a obra juntamente com a pesquisadora Isis Rost,(Imagem: Divulgação)

Você é da área de História. Qual a importância da contracultura para entender momentos históricos do país?
Apesar de muitos trabalhos realizados sobre a contracultura no âmbito acadêmico, assinalando sua importância na área de História, geralmente o tema é minorizado, talvez pelos aspectos lúdicos, imaginativos e criativos que evocam em profissionais mais formatados ao pensamento tradicional. Contudo, além da “imaginação no poder” e da proposta de renovação cultural, evidenciou-se também o caráter político da contracultura que ganhou visibilidade através da luta integrada pelos direitos civis dos negros, dos homossexuais, das mulheres, da inserção do jovem enquanto importante ator social, da consciência ambiental, do pacifismo, entre outras novas proposições que não eram contempladas na chamada política tradicional. Outro ponto crucial para o entendimento da política na contracultura é que não se tratava de uma luta para substituição da sociedade capitalista pela socialista, ambas tecnocráticas e industriais, mas de questionar os pressupostos de uma civilização industrial que colocava como paradigma central a racionalidade científica. A ideia era descentralizar tal paradigma, se abrindo a outras possibilidades e assumir uma nova prática existencial, sem as amarras e a rigidez da sociedade dos “especialistas”. A contracultura foi tida por muitos, como o último sopro do movimento romântico no século XX, uma utopia que foi vivenciada e difundida por minorias e que atingiu a Europa e América Latina de forma específica.

Pode-se afirmar que há (e quais seriam) os espaços de contracultura hoje?
A contracultura foi uma resposta crítica e criativa de pequena parcela juvenil classe média ao mundo da “Bomba H”, do autoritarismo, do capitalismo e da tecnocracia. Com seu aspecto mutante passa a ser assimilada pelo mainstream deixando de ser contracultura, ou seja, “virou” disco, alimentando a indústria fonográfica da época, moda, entre outros negócios do mundo capitalista que emergiam no mundo pós-guerra, formando uma cultura juvenil, consumidora em potencial. Mas ainda assim, seu veio inicial romântico transformou, ampliou e descentralizou a cultura oficial, se abrindo para horizontes de novas possibilidades de ser, sentir e pensar. Atualmente, não usamos o termo contracultura, mas subculturas que não têm mais o papel de ir contra a cultura instituída de forma ampla, mas sim, o de criar modos e estilos relacionados às atitudes de cada grupo que negociam de certa forma com o sistema. Com a vida em rede, tem-se um sistema autofágico que absorve as posturas dissidentes e as integram à dinâmica vigente rapidamente.

*O livro citado pela professora é “Contracultura Através dos Tempos: do Mito de Prometeu à Cultura Digital”, de GOFFMAN, Ken; JOY, Dan. Rio de Janeiro, 2007, editora Ediouro.

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