Ouvidoria da UEL reflete sobre os desafios da sociedade moderna

Ouvidoria da UEL reflete sobre os desafios da sociedade moderna

Em ensaio para a Revista da Ouvidoria do TJPR, a professora analisa como o canal de escuta da Universidade reflete as tensões sociais contemporâneas

A Ouvidoria Pública vai além do registro administrativo de reclamações, sugestões ou denúncias. O órgão atua como um termômetro da vida em comunidade, capturando conflitos e transformações sociais. A tese é defendida por Mirelle Neme Buzalaf, Ouvidora Geral da Universidade Estadual de Londrina (UEL), doutora em Filosofia Política e professora do Departamento de Direito Público (CESA), em artigo publicado na quinta edição da Revista da Ouvidoria do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR).

Com fundamentação em pensadores como Hannah Arendt, Chantal Mouffe e Byung-Chul Han, o estudo analisa como a participação cidadã direta pode fortalecer a democracia e proteger os direitos humanos em um cenário marcado por hiperconectividade, algoritmos e polarização.

Microcosmo político

Para analisar a dimensão prática da Ouvidoria, a autora toma a própria UEL como campo de observação. A Instituição reúne cerca de 24 mil pessoas entre estudantes, docentes e agentes universitários, uma população superior à de 314 dos 399 municípios paranaenses. Pela diversidade de perfis, a Universidade funciona como uma pequena comunidade política.

Essa relevância se traduz na presença da Ouvidoria nas reuniões semanais da gestão da UEL, ao lado de frentes como a dos Direitos Humanos, Transparência e Corregedoria. Nesses encontros, o órgão apresenta dados das demandas recebidas e dá voz aos cidadãos que buscam participar da gestão pública.

Ao analisar o papel do canal, Neme destaca sua natureza ambivalente. Segundo a autora, “a Ouvidoria encanta e desencanta. Encanta pela possibilidade de dar voz e lugar ao cidadão comum. Desencanta por escancarar, muitas vezes, as mazelas da sociedade contemporânea: discriminação, assédio, intolerância, corrupção”. Ao acolher essas manifestações e transformar queixas individuais em pautas coletivas, o órgão dá visibilidade a demandas antes isoladas e estimula melhorias na administração.

Ouvidora da UEL Mirelle Neme Buzalaf

Pontes em tempos de bolhas e redes

O artigo também aponta obstáculos ao diálogo público. Em um país onde mais de 90% da população acima de 10 anos acessa a internet, algoritmos e redes sociais tendem a isolar indivíduos em “bolhas”. Esse represamento virtual acirra posicionamentos e transforma debates políticos em confrontos morais.

Somados ao imediatismo e à carga afetiva das redes, esses fatores alimentam a desinformação e tornam a mediação institucional um desafio diário. Nesse contexto, a professora define a Ouvidoria como uma “ponte no abismo, quase intransponível, que separa o que é falado ou escrito, daquilo que é ouvido ou lido”.

O ensaio conclui que a democracia exige construção contínua a partir do convívio entre perspectivas diferentes. Para a advogada, a Ouvidoria da UEL se consolida como um espaço indispensável para valorizar a palavra, exercitar a cidadania sem intermediários e defender os direitos humanos no âmbito institucional, deixando de ser apenas um canal para resolução de pendências administrativas.

O artigo na íntegra pode ser lido AQUI.

*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação/UEL

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