Romance lançado por doutorando aborda bastidores pouco convencionais do mundo das startups

Romance lançado por doutorando aborda bastidores pouco convencionais do mundo das startups

Obra critica falácia de que para se alcançar o sucesso é preciso ter apenas uma ideia inovadora, além do discurso da meritocracia.

Vitor Struck

Agência UEL


Quando os planos de quatro amigos empreendedores de ficarem milionários com o eventual sucesso de sua startup acabam frustrados, o mundo do crime organizado entra na rota do grupo como solução para a falta de investimentos, mas não sem trazer consigo um contexto de violência que não perdoa criminosos e muito menos inocentes. No romance “Milicia.com: o crime organizado na era das startups” (Editora Viseu, 242 p.), o doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOC) da UEL João Fernando de Lima Parra faz uma crítica à falácia de que para se alcançar o sucesso e a riqueza​ com uma startup é necessário ter apenas uma ideia inovadora. Com longa experiência no mundo corporativo, também dispara contra o que considera um grande engodo na era dos negócios digitais: o falso discurso ideológico da meritocracia.

“Milícia.com” é a primeira publicação do londrinense de 36 anos. O livro chegou de forma digital nas livrarias em maio, tendo como cenário uma São Paulo dos dias de hoje também povoada por um desejo desenfreado de quatro empreendedores – e de seus concorrentes – de atingirem o sucesso a qualquer custo. “A principal mensagem contida no livro é essa crítica à ideia de que basta o empreendedor ter uma ideia genial para ficar milionário. Há uma crítica à ideia do dinheiro fácil associado às startups, quando é necessário muito planejamento, dedicação e um pouco de sorte. No caso deles, o grande erro foi o excesso de confiança, o que também pode ser prejudicial aos empreendedores”, avalia o autor.

“Durante algumas entrevistas que eu fazia para a tese, surgiu a ideia de escrever o livro. Foi como uma forma de descansar, um momento de relaxamento”, conta Parra (Foto: Heitor Batista de Britto)

Obra

A narrativa tem início quando quatro amigos decidem lançar uma ferramenta capaz de monitorar o comportamento dos consumidores visando aperfeiçoar estratégias de vendas. Bem recebida pelo mercado e pela mídia, a ideia faz com que os amigos se tornem conhecidos e sejam assediados por investidores. “Porém, um dos sócios, o Antônio, decide não buscar investimentos com receio de ter que abrir mão de parte substancial da empresa neste primeiro momento. Quando você tem um produto pronto, você coloca para rodar o MVP (sigla em inglês para Produto Mínimo Viável). É o momento de testar o seu produto ou negócio, começar pequeno e aperfeiçoar. Mas o Antônio já teve vontade de fechar um contrato milionário. Foi acometido pela soberba”, explica Parra. 

Enquanto aguardava um aporte financeiro de um grande investidor, o grupo vê a população mundial ser acometida pelo Sars-Cov-2. Ao passo em que a pandemia da Covid-19 provoca uma grave crise econômica e outras intercorrências de ordem pessoal alteram o estado das coisas, Julio, o mais confiante do grupo, decide atender ao chamado de um famoso miliciano que buscava inovar a sua carteira de negócios. Conhecido como Sr. Thomas, o miliciano acreditava ocupar o papel de um CEO (sigla para Chief Executive Officer, ou Diretor Executivo, em inglês), ou mesmo de um prefeito com poderes supraconstitucionais, tendo em suas mãos o controle dos negócios ilegais realizados na Cidade Tiradentes, bairro da periferia da São Paulo. Entretanto, associar-se aos métodos nada convencionais do Sr. Thomas representa, também, correr riscos nunca antes calculados por Júlio e seus familiares.

Inspiração 

João Fernando Lima Parra conta que buscou inspiração para escrever “Milícia.com” no período em que viveu em São Paulo e trabalhou intensamente no mundo corporativo. Graduado em Marketing e Ciências Sociais e mestre em Ciências Sociais pela UEL, atuou em agências de publicidade e propaganda, institutos de pesquisa e em uma multinacional com sede na capital paulista, até retornar a Londrina. Atualmente, é aluno do doutorado em Sociologia pela UEL, programa no qual desenvolve a tese “O Empreendedorismo Inovador como Relação de Trabalho: Um Estudo Sobre as Startups de Base Tecnológica”, que tem prazo de conclusão para agosto de 2023.

“O desenvolvimento e a defesa de uma tese são momentos em que você fica até um pouco preso à escrita acadêmica. Você precisa utilizar uma determinada linguagem, então, durante algumas entrevistas que eu fazia para a tese, surgiu a ideia de escrever o livro. Foi como uma forma de descansar, um momento de relaxamento”, conta.  

Já quando questionado sobre o quanto há de realidade na obra ficcional, Parra garante que durante toda a sua trajetória profissional nunca se deparou com empreendedores tendo que recorrer ao mundo do crime para alavancar seus negócios. “A ideia de um empreendedor se associar ao mundo do crime veio da minha cabeça, eu não vi isso acontecer, de fato. Mas toda a questão das milícias, do controle pelo poder policial e a violência que está muito presente, isso sim é uma realidade. Porque o livro tem partes violentas. Muita gente sensível pode até se surpreender. Mas eu quero mostrar a realidade crua mesmo, de quem se associa ao mundo do crime para atingir seus objetivos, esse aspecto que faz com que algumas pessoas façam tudo por um investimento é o que quero deixar como metáfora”, encerra.

O livro pode ser adquirido através do site da editora Viseu e não está disponível em lojas físicas, somente online.

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