Projeto estuda Ensino por Investigação em países da AL

Projeto estuda Ensino por Investigação em países da AL

É o projeto de pesquisa “O Ensino por Investigação nas propostas curriculares de países da América Latina”, do CCB.

O Ensino de Ciências no Ensino Básico, no Brasil, ainda é conteudista e conceitual. Ou seja, centrado na memorização de conceitos e fórmulas, sem a real compreensão de como tal conhecimento é construído, sua aplicabilidade no cotidiano e, principalmente, como o conhecimento científico deve promover mudança de atitude e possibilitar a plenitude da cidadania e da vida em sociedade.

Esta é avaliação da professora Andréia de Freitas Zompero (Departamento de Biologia Geral/CCB), que coordena o projeto de pesquisa “O Ensino por Investigação nas propostas curriculares de países da América Latina”, ativo desde o ano passado. Trata-se de um estudo documental que objetiva caracterizar as perspectivas do Ensino por Investigação estabelecidas nas propostas curriculares oficiais de ensino do Brasil, Chile e Colômbia.

O Ensino por Investigação é, segundo ela, uma abordagem pedagógica que pode ajudar a transformar este cenário e promover uma aprendizagem de maior qualidade, que vá além da memorização de conceitos, terminologias e procedimentos e compreenda o processo de construção do conhecimento. Adotado há muitos anos em países como Estados Unidos, Austrália e na União Europeia, o EI não é uma novidade. Suas raízes remontam ao século XIX, quando o estudo e o ensino de Ciências, particularmente as Ciências da Natureza, avançavam com novas ferramentas e o pensamento positivista.

O EI surgiu a partir de problemas da própria realidade. Mas a semelhança com o Ensino Baseado em Problemas ou com a  Metodologia da Problematização ficam por aí, porque o EI não é uma metodologia, mas uma abordagem didática centrada na investigação, e não propõe um passo a passo, fases sucessivas para o aprendizado, como faz uma metodologia. O Ensino por Investigação também prioriza emissão de hipóteses, observação de evidências  e dá grande importância à argumentação, à sustentação das possíveis explicações e soluções. “É ajudar a pensar”, sintetiza a professora Andreia, que publicou, em 2019, em coautoria, um artigo na revista “Debates em Educação”, da Universidade Federal de Alagoas, para tratar justamente da aproximação entre o EI e a aprendizagem baseada em problemas – Confira aqui o artigo.

RIEC

A professora Andréia integra a RIEC – Red Internacional de Investigación en Enseñanza de las Ciencias. Ela reúne diversas instituições do continente latino-americano e consiste num espaço de interação, formação de pesquisadores e produção de pesquisas de Pós-graduação que tenham interesse em temas ligados a Educação em Ciências. A rede atua  na Investigação em Ensino das Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química), Educação Ambiental, Matemática, Engenharias e Tecnologias.

É com pesquisadores do Brasil e de outros países que a professora desenvolve seu projeto. Na UEL, conta com a colaboração do professor Carlos Eduardo Laburú (Departamento de Física/CCE). Também com as professoras Cleci Teresinha Werner da Rosa (Física/Universidade de Passo Fundo-RS), Diana Lineth Lozano Parga (Química/ Universidade Pedagógica Nacional, Colômbia) e Ximena Vildósola Tibaud (Biologia/Universidade Metropolitana de Ciências da Educação/Chile). Com isso, o grupo contempla as três áreas das Ciências da Natureza e efetiva um estudo comparado entre os três países.

Andréia explica que a pesquisa ainda está em fase exploratória, por isso há mais perguntas do que respostas, por enquanto. O primeiro desafio, segundo ela, foi compreender que os sistemas de ensino fundamental e médio diferem em cada país quanto à faixa etária dos alunos. Os pesquisadores focam nos documentos oficiais de Ensino de Ciências, e aí já surgiu outra dificuldade. No Brasil, existe a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), um documento único que abrange todo o território nacional. No Chile e na Colômbia, existem várias normas, legislações regionais.

Por outro lado, nos três países existe a preocupação em formar competências e habilidades. No Brasil e na Colômbia, a legislação fala em 11 competências; no Chile, são mais de 20. Neste último, a tônica são os procedimentos, uma investigação que entenda o problema, formule hipóteses, teste-as e divulgue os resultados, entre outras. Na Colômbia, a preocupação é mais ambiental, social, voltada para a formação da cidadania. No Brasil, bem diferente há o viés investigativo e algumas competências direcionadas para formação em saúde.

Desdobramentos

Participam do projeto ainda dois alunos de graduação de Ciências Biológicas (Iniciação Científica) e uma mestranda do PECEM (Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática). É justamente esta estudante que está ampliando o foco do projeto, ao desenvolver uma pesquisa com os sistemas de ensino do Paraguai, Uruguai e Argentina, com a colaboração de professores de instituições de cada um destes países.

É exatamente o que espera a professora Andréia: aumentar o número de países estudados para entender as prioridades de cada um. Num momento posterior, incluir a formação dos professores de Ciências na investigação.

Leia também