Projeto analisa uso da Inteligência Artificial no Ensino Superior
Projeto analisa uso da Inteligência Artificial no Ensino Superior
O foco é avaliar o quanto a IA generativa pode ajudar docentes na criação de novas práticas avaliativasO copo está meio cheio ou meio vazio? A clássica pergunta que remete a uma apreciação sobre o grau de pessimismo ou de otimismo em relação a uma realidade pode ser empregada também nas discussões sobre o uso da inteligência artificial (IA). E se esse uso se der no ensino superior e, mais especificamente, nas práticas avaliativas dos estudantes, seria algo bom ou ruim? Antes que, por hábito ou pragmatismo, recorramos à IA para obtermos respostas para a questão, o projeto “A Inteligência Artificial Generativa como Parceira Intelectual nas Práticas Didáticas Avaliativas no Ensino Superior” pretende buscá-las, sem artificialismos, mas com Ciência.
Não é de hoje que a Inteligência Artificial divide opiniões de pesquisadores e professores sobre seu papel na Educação, despertando polêmicas, tais como a indagação sobre se o seu uso em sala de aula é um aliado ou um comprometedor da aprendizagem. O projeto coordenado pela professora Dirce Aparecida Foletto de Moraes, docente do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Londrina, pretende compreender em que medida a Inteligência Artificial generativa pode contribuir na construção de experiências didáticas no campo da avaliação no ensino superior.
As práticas avaliativas tradicionais (realização de provas, seminários, etc.) são consideradas confiáveis para medir dados quantitativos sobre a aprendizagem, mas não entregam informações qualitativas sobre ela – aquilo que precisa ser superado, os avanços do estudante no percurso do aprendizado – nem a autorreflexão sobre como melhorar a construção do conhecimento. O projeto conduzido pela professora Dirce Moraes parte do princípio de que a avaliação precisa ser entendida como parte do processo, e não o produto final, e possibilitar evoluções contínuas por meio de feedbacks e autoavaliações que resultem na autorregulação do aluno.
O estudo vai problematizar não só as possibilidades que a IA pode oferecer ao aluno, mas também, e principalmente, como o professor poderá usar essa nova tecnologia em sala de aula – especificamente como subsídio às práticas avaliativas –, já que muitos docentes ainda carecem de letramento digital e familiaridade com os instrumentos tecnológicos nessa área. “O professor precisa dessa compreensão crítica, de letramento em IA, além de conhecer o que são essas tecnologias e formar um pensamento crítico. Precisamos discutir e pensar em que medida podemos lançar mão dessa tecnologia para subsidiar o trabalho educativo”, afirma Dirce Moraes. Ela complementa dizendo que o letramento digital permite uma compreensão mais crítica daquilo que as tecnologias digitais possibilitam em termos pedagógicos e intencionais. Entendimento que, segundo ela, ainda precisa ser adotado no ambiente acadêmico.
Para isso, serão convidados a participar cerca de 100 professores das sete universidades públicas do Paraná, que se reunirão quinzenalmente de forma online em encontros nos quais serão realizadas ações formativas e interventivas, no intuito de pensar diferentes práticas avaliativas utilizando a IA generativa a partir de uma pesquisa-formação. “Não é uma formação para os professores, mas sim uma formação com os professores. Nesses encontros, queremos dialogar, construir, pensar essa prática formativa, principalmente no que se refere à avaliação, diante dessa novidade que é a IA generativa”, explica a professora. Ainda segundo Dirce Moraes, na pesquisa-formação, o conhecimento vai sendo construído de forma coletiva, colaborativa a partir das trocas, do diálogo e da construção conjunta de significados com os professores.

O projeto norteia-se na Teoria da Cognição Distribuída, que defende que os artefatos culturais são parceiros intelectuais na construção do conhecimento, pois possibilitam a distribuição de cognição entre indivíduos ou entre eles e tais artefatos. “Essa teoria parte da premissa de que o conhecimento não está apenas no indivíduo, mas na mediação e na interação entre os sujeitos e destes com os artefatos culturais. E aí, a tecnologia se torna essa parceira intelectual”, diz a coordenadora do projeto.
Ao comentar o conceito de parceria intelectual, a professora diz que a IA generativa disponibiliza a possibilidade do aluno se autoavaliar. “O professor pode orientar o estudante a usar a IA nessa perspectiva de autoavaliação, pois o artefato pode oferecer um suporte para as operações mentais”, explica. Ainda segundo a professora, a IA pode ser uma parceira intelectual do aluno, pois a partir do seu formato dialógico e interativo, pode ajudá-lo com feedbacks imediatos e personalizados, a partir das suas necessidades de aprendizado, num diálogo pedagógico que o leva a aprender a gestar os seus próprios erros e a superar desafios.
A ideia de considerar a IA como parceira é fundamental porque, por conta do uso inadequado dessa tecnologia em sala de aula apenas como instrumento utilitário, que faz tudo pelo aluno sem nenhuma contribuição dele, está havendo um retrocesso em algumas universidades, que estão voltando a adotar práticas avaliativas da era “pré-internet”, como provas orais ou sem nenhuma consulta a qualquer material. “Negar não é o caminho, porque o aluno vai usar esses dispositivos fora da Universidade e até no mercado de trabalho. No formato que temos hoje, ou damos margem para o estudante plagiar, ou voltamos para um instrumento avaliativo que não corresponde à realidade atual. Em vez disso, precisamos construir novos caminhos e compreender as possibilidades da IA generativa como parceira de forma crítica e construtiva”, afirma a professora, e dá exemplos de como seria esse uso: o estudante poderia realizar um exercício e confrontar a resposta dele com a da IA, ou poderia criar um vídeo sobre um conceito que ele está estudando e depois pedir para a IA avaliá-lo.
Fora a investigação sobre como e se a IA pode ser utilizada nas práticas avaliativas e no ensino superior, ao projeto subjaz a discussão sobre a qualidade da aula praticada nas universidades. “Às vezes, você assiste a um vídeo de três minutos e aprende muito mais do que em uma aula que levou uma manhã inteira. Quando nos deparamos com uma tecnologia como a da IA generativa, percebemos o quão frágil são as nossas ações, a nossa didática. Ainda damos aula da mesma forma que dávamos há 20 ou 30 anos atrás e isso também precisa fazer parte das nossas discussões, não no sentido de cairmos nos modismos pedagógicos, mas de repensarmos nossas práticas no contexto da cultura digital”, comenta a professora.




