Jogando se transforma, convivendo se aprende

Jogando se transforma, convivendo se aprende

Projeto da UEL conecta atividades corporais e lúdicas através de jogos.


Um projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL) promove experiências corporais e ações lúdicas vinculadas ao jogo através de ruas de recreio, gincanas culturais e esportivas em espaços públicos de Londrina e no Centro de Educação Física e Esporte (Cefe). Trata-se do projeto “Oficina do Jogo Presencial e Virtual: Atividades para Comunidade Externa e Produção de Vídeos Didáticos para Internet”, coordenado pela professora do Departamento de Estudo do Movimento Humano, Gisele Franco de Lima Santos.

Com foco em promover o conhecimento associado ao jogo sob a ótica das suas funções educativas, o projeto é aberto a qualquer cidadão interessado, mas a maior parte do público é de estudantes da Educação Básica da rede pública e privada, crianças participantes de projetos sociais, além de professores de Educação Física e profissionais da área. “Os principais objetivos são fazer eventos em que a gente atenda a comunidade e que envolvam toda a parte de jogo, seja o vinculado ao esporte, ou apenas o jogo em si”, afirma Santos.

Atualmente, o projeto possui cerca de 40 estudantes de diversos cursos, incluindo o de Educação Física, que desempenham várias funções, seja na coordenação, na preparação de eventos ou em tarefas de comunicação, enriquecendo assim as formações em suas respectivas áreas. A maioria dos eventos realizados são de demandas da comunidade, de organizações da sociedade civil que desejam a expertise do projeto para a realização de atividades lúdicas para os seus públicos-alvo.

Para a divulgação do projeto, há uma parceria com um canal do YouTube, o “ABC do Jogo”, no qual vídeos das atividades realizadas são produzidos. Coordenado pela professora Santos e integrantes do projeto, o canal conta com mais de 4 milhões de visualizações dos seus vídeos e com cerca de 40 mil inscritos. Em sua maioria, os vídeos são curtos, diretos e mostram na prática como realizar diversos jogos, suas regras e simulações, de maneira lúdica e criativa, com a participação dos colaboradores do projeto. “Nosso objetivo é sair um pouquinho do mundinho acadêmico e trazer para o senso comum as coisas que a gente faz, seja para o professor ensinar em sala de aula, seja para a família fazer em casa e brincar com os amigos”, diz Santos.

Professora Gisele Franco de Lima Santos: “Nosso objetivo é sair um pouquinho do mundinho acadêmico e trazer para o senso comum as coisas que a gente faz, seja para o professor ensinar em sala de aula, seja para a família fazer em casa e brincar com os amigos”. (Foto: Agência UEL)

Regras flexíveis

A professora salienta que no projeto pode até haver competição esportiva, mas desde que ela tenha flexibilidade de regras, porque é isso que caracteriza um jogo. “O futebol é um esporte cujas regras são conhecidas no mundo inteiro. Nós podemos usar o futebol no projeto, desde que façamos alterações, como jogar três contra três. Porque a característica do jogo é essa, é de poder dar essa satisfação pessoal dessa mudança”, exemplifica.

Ainda segundo ela, o jogo da Bola Queimada, por exemplo, é chamado em outros lugares como apenas Queimada, ou Mata-Mata, ou Cemitério etc., e suas regras são modificadas conforme o local, e essa versatilidade, ao contrário do esporte, é uma das características do jogo. “Tem o jogo do Esconde-Esconde ao Contrário, no qual uma pessoa se esconde e todas as outras batem cara. Só que quando você vai procurar a pessoa, vai tentar se esconder junto com ela. Aí quem perde é o último que não conseguiu encontrar todo mundo para se esconder junto. É isso a diferença entre jogo e esporte”, complementa.

Outra distinção que a professora faz é do conceito de lúdico. Segundo ela, a palavra possui uma acepção de relativização, já que o que pode ser lúdico para alguém, pode não ser para outra pessoa. Conforme Santos, o lúdico seria o que dá prazer, portanto, uma pessoa que gosta de correr teria ludicidade na atividade; já outra que não gosta, não. Outra observação da professora é sobre como a sociedade acaba esvaindo o lúdico do ser humano por conta de convenções sociais, como a de que o adulto não deve mostrar seu lado criança. “Quando entrou essa questão de produtividade, essa questão do capitalismo na nossa vida, a ideia de que tudo que não produz, que não gera renda, é considerado fútil. Então, é tirado do adulto essa questão do lúdico”, contextualiza, acrescentando que o jogo é uma das possibilidades de viver esta dimensão.

Estudantes e colaboradores do projeto em evento num acampamento no qual o jogo foi “Sujar e Molhar”. (Foto: Arquivo pessoal)

A professora ainda aponta uma das características do jogo pouco percebida, que é a de acompanhar os valores dos contextos sociais. Ela exemplifica com o “Banco Imobiliário”, que fez parte da infância de muitas gerações. Ela diz que antigamente esse jogo possuía papéis em formato de dinheiro, e hoje algumas versões trazem maquininhas de cartões de crédito como forma de realizar as transações monetárias. “Então o jogo vai acompanhando a lógica da estrutura social”, comenta.

Gisele Franco de Lima Santos aponta uma função importantíssima nos dias de hoje, não só do jogo, mas do profissional de Educação Física. Ao contextualizar o comportamento das crianças e jovens atuais que passam horas em frente às telas e deixaram de brincar como faziam as crianças de outras gerações e que de repente nem sabem o que é pular Amarelinha. “Hoje, nós temos que ensinar nas aulas de Educação Física essas brincadeiras. Porque as crianças não sabem mais. Então, ganhamos uma função extra que é perpetuar a memória e a história”, comenta.

Os jogos podem contribuir para o aprendizado educacional na medida que requerem adaptação a situações diferentes, por conta da mudança de regras, estimulando o raciocínio e a criatividade. Além disso, segundo Santos, os jogos podem ser um instrumento para promover a cultura da democracia, pois, como o jogo prevê mudança de regras, e precisa funcionar coletivamente, o grupo tem que entrar em comum acordo.

A estudante e colaboradora do projeto, Renata Fernanda da Silva: “Acima de tudo aprendi a ser humana, a olhar o outro como um humano”. (Foto: Agência UEL)

Entre risos, diversão e movimentos, algo parece ser uma constante nos jogos: aprendizado. Não é à toa que o lema do projeto é “Jogando se transforma, convivendo se aprende”. Foi o que comprovou Renata Fernanda da Silva, estudante do terceiro ano de Educação Física e uma das colaboradoras do projeto. Ela relata que, no projeto, além de ensinar, aprende muito: “Acima de tudo aprendi a ser humana, a olhar o outro como um humano. Aprendi a ver o outro humano e ser humana também, me colocar no lugar do outro. Então no projeto, não é só ensinar, mas é também aprender com o outro”.

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