Diplomado em superação
Diplomado em superação
Após perder visão, José Marcelino decidiu cursar Direito na UEL e dá lição de vida vencendo limitações“Você fica sem chão, porque antes você sabia tudo, e depois fica sem saber nada”. A frase é de José Marcelino, 69 anos, estudante do quinto ano de Direito da UEL, ao comentar a perda de sua visão, fato trágico que se somou a uma história de vida de dificuldades e instigou-lhe a uma reviravolta, fazendo da Universidade, da busca por conhecimento, estímulo para continuar acreditando no futuro.
A história desse mineiro de Diamantina (MG), como a de muitos brasileiros, começa difícil. Ainda criança, teve que trabalhar na lavoura, em plantações de arroz, feijão, café e milho. A família, seus pais e mais oito irmãos, veio para o Norte do Paraná em 1962, quando ele tinha quatro anos, e se instalaram em vários pequenos municípios, inicialmente em Assaí, morando normalmente em barracos cobertos com folhas de palmito.
Na roça, o trabalho não era apenas duro, era injusto. A família enfrentou o que ainda hoje existe e causa espanto, mas que naquela época era comum: a semi-escravidão. Não recebiam dinheiro pelo trabalho. O patrão lhes dava uma ordem de pagamento para que comprassem mantimentos em locais pré-determinados por ele.
Mesmo com a dureza da vida, os pais de seu José fizeram questão de mantê-lo na escola, que frequentava à tarde e onde chegava após caminhar cinco quilômetros, mesmo após ter trabalhado à manhã toda, labuta para a qual acordava às quatro horas da manhã. Analfabetos, os pais tinham um propósito bem definido para mantê-lo estudando: era ele o encarregado de ler e fazer as cartas que mandavam para o restante da família em Minas Gerais.

Ia à escola com medo, porque seu pai, no primeiro dia de aula, disse à diretora da escola que ela tinha permissão para lhe dar uma surra, caso ele fizesse algo errado. “A gente lembra disso aí, dessas coisas, e conclui que não era normal, né? Era muito puxado”, comenta e lembra que usou o mesmo uniforme durante cinco anos, com sua mãe tendo que emendar retalhos para as mangas da blusa de frio, conforme os braços do menino cresciam.
A vinda para Londrina foi em 1976, seu José já com 19 anos, um ano após a “Geada Negra”, que destruiu plantações de café no Paraná. Aqui, seu José trabalhou em supermercados, como repositor, mas estabeleceu-se profissionalmente como encanador industrial, desempenhando a função em várias cidades do país, principalmente em prestadoras de serviço da Petrobras. Em alto-mar, chegou a ver de perto a destruição da Plataforma P-36, na Bacia de Campos, em 2001, quando explosões provocaram incêndios e seu naufrágio. O serviço nas plataformas era pesado. “Era muito perigoso, e a gente era tratado de uma forma, e os petroleiros de outra. Só os peões faziam a parte perigosa”, relata.
Mas a maior dificuldade da vida de seu José ainda estava por vir, em 2013, aos 56 anos. Equivocadamente, uma médica receitou um remédio a seu José visando combater dores de artrose em sua perna. Ele tomou o remédio durante seis meses, mesmo sentindo os olhos arderem muito. No retorno da consulta, relatou o problema a outro médico que percebeu o erro. Posteriormente, a médica que havia receitado o remédio, cloroquina, assumiu a culpa dizendo que deveria ter feito exames prévios para comprovar que o medicamento não faria mal.
A perda da visão foi progressiva. Durante anos, tentou tratamento para tentar reverter a situação, sem sucesso. “Eu estava perdendo a visão sem parar, mas não percebia, era aos poucos. E o médico falava que com o tempo eu não enxergaria mais nada. A pessoa não quer aceitar, e fica com aquela intuição de que tá enxergando, mas não está”, comenta seu José. A constatação de que era irreversível veio com um exame no qual eram desferidos feixes de luz nos olhos de seu José. “Aí o médico falou: ‘Não tem jeito. Tá cego’”.
Após o diagnóstico, seu José foi encaminhado ao Instituto Roberto Miranda para se adaptar à nova vida. No instituto, ele aprendeu a ler e a fazer contas em Braille, além de encontrar o acolhimento e ajuda contra certos desamparos. “Eu não tinha ninguém para me auxiliar em nada nos primeiros anos. Até os parentes se afastaram. Muitas vezes, as pessoas não têm empatia com o próximo, entende?”, comenta seu José, que, embora tenha uma filha e uma neta, nunca se casou.
Apoios e afetos
A reviravolta na vida de seu José veio com uma decisão: voltaria a estudar. Após completar sua formação no Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA), passou no vestibular de uma outra faculdade e entrou na UEL por transferência externa em 2022. Escolheu Direito porque queria entender as causas de tantas injustiças que passou ao longo da vida, seja na infância, seja no trabalho na roça, seja com prescrição equivocada do remédio.
Na UEL, encontrou não só respostas sobre leis e justiça, mas principalmente os apoios de que mais precisava, a começar pelo do Núcleo de Acessibilidade (NAC). “Desde o início, fomos trabalhando para entender quais as necessidades dele, quais as maiores fragilidades em termos de processo educacional, para que pudéssemos organizar os apoios”, diz Ingrid Caroline de Oliveira Ausec, coordenadora do NAC. No núcleo, seu José teve auxílio para o uso de tecnologias, pois tinha pouco conhecimento sobre como usar ferramentas digitais, e aprendeu a usá-las de modo que pudesse converter materiais em texto para áudio, por exemplo.

Durante as provas do curso, o NAC disponibilizava ledores para que seu José pudesse realizá-las. “Ele também recebeu apoio de um grupo chamado Ramo Estudantil, que são alunos das engenharias e da Ciência da Computação, que auxiliam outros estudantes em dificuldades específicas”, afirma Ingrid Ausec sobre a ajuda que obteve sobre informática de outros estudantes.
Quando o estudante com deficiência entra na UEL, o NAC faz uma entrevista inicial para detectar quais são as barreiras que ele enfrenta e, a partir disso, tece estratégias para enfrentá-las. “A gente atende aquilo que é recomendado pela Política Nacional de Educação Especial Inclusiva como público-alvo, que são pessoas com deficiência visual, auditiva, intelectual, física, pessoas com transtorno do espectro autista”, explica a coordenadora e ainda diz que o NAC também atende pessoas com altas habilidades de superdotação, que também são públicos da educação especial e necessitam de adaptações específicas no seu processo educacional. O núcleo também possui atividades relacionadas à formação continuada dos docentes e as capacitações envolvem atividades realizadas na Semana Pedagógica, como o suporte contínuo e permanente para a discussão de casos específicos trazidos pelos Colegiados dos cursos.
Por falar dos professores, seu José também teve o apoio deles em sala de aula. É o que relata a professora Luciana Mendes Pereira, do Departamento de Direito Privado. “O Seu José, em razão da idade e de sua história de vida, de sua simplicidade, ele tinha dificuldades com as questões tecnológicas. E quando havia projeções com data show, eu explicava, especialmente quando tinha algum desenho, alguma tabela, eu falava pra ele do que se tratava”, comenta a professora. “Nosso curso é basicamente leitura, então eu buscava explicar com o máximo de detalhes, e dava mais atenção ao seu José, para saber se ele estava entendendo mesmo”. Além da força dos professores, seu José tinha suas estratégias para aproveitar melhor as aulas: gravava tudo o que era dito e depois, se necessário, ouvia novamente em casa.
Um outro apoio importante que seu José teve na UEL veio dos colegas de sala. Dois deles, Fábio Sérgio da Cruz e Luiz Fernando, também fora dos padrões etários de estudante universitário, ambos com idades acima dos 40 anos, se juntaram a seu José formando um trio inseparável. “Nós nos identificamos. Então, foi aliando amizade, acolhimento, e a gente estabeleceu que formaríamos um grupo para um apoiar o outro ao máximo que fosse possível”, conta Fábio da Cruz. Os colegas ajudavam seu José no que podiam, seja fazendo trabalhos juntos, seja transcrevendo slides para texto e enviando-os para um aplicativo no celular de seu José, que os convertia em áudio.
Fábio da Cruz aponta um aspecto importantíssimo na inclusão de pessoas com deficiência nas universidades, o envolvimento dos professores. “Tem um princípio que aprendemos no curso que é o princípio da igualdade: tratar os iguais como iguais e os desiguais conforme a sua desigualdade. Alguns professores têm esse feeling, mas outros não. Não é uma questão do professor querer se atualizar, é uma questão de necessidade pra ele poder desenvolver o trabalho pra que ele foi contratado”, afirma.

Novas conexões
A profissão de encanador tem muito a ver com conexões, pois entre uma tubulação e outra, sempre há a necessidade de encaixes. Mas na UEL, seu José produziu outros tipos de conexões, talvez as mais importantes que existem: as amizades. “Pra gente é uma felicidade ter o seu José no curso, porque ele nos ensina amizade, companheirismo, saber que não somos todos iguais, e que cada um tem sua dificuldade”, diz Fábio da Cruz. Uma amizade baseada em trocas, como a da experiência de vida pelo conhecimento acadêmico. “Nós tentamos sempre aliar a nossa parte técnica com a parte da experiência de vida do seu José. Ele nos passa coisas que não se aprende na faculdade”, avalia e aponta outra grande lição que aprendeu com o amigo José: “Limitação todos temos de alguma forma, mas também temos capacidade. Esse é o ensinamento que o seu José sempre nos passa. Temos que deixar a limitação de lado e usar a capacidade para conquistar objetivos, que é o que o seu José tem feito”, finaliza.
Sobre o futuro, seu José pretende continuar os estudos com uma pós-graduação na UEL. “Pretendo dar continuidade na universidade. Apesar que a pessoa fica cansada por conta da idade, mas eu pretendo ir em frente, porque a gente tem prazer de passar as coisas que sabe pra outras pessoas”, prognostica.
Concretizando a continuidade dos estudos, seu José permanecerá repassando aos colegas o que tem de mais valoroso, sua sabedoria. “Sempre estou falando pra eles: Estudem, porque depois que vocês estiverem mais velhos, vocês vão sentir a falta que faz. Por mais profissional que a pessoa seja, ela não sabe o que pode ocorrer no dia de amanhã, é imprevisível, né?”, aconselha.
Pioneirismo
Trajetória semelhante de coragem e dedicação foi vivida de forma pioneira pelo DJ João Durval Piaie, colaborador da UEL FM há quase 20 anos (Programa Locomotiva do Rock), considerado o primeiro estudante de Direito com deficiência visual a entrar na UEL, conseguindo colar grau.
João Durval entrou na Universidade no Vestibular de inverno de 1989, realizado em julho daquele ano, colando grau em março de 1995. Para se ter uma dimensão das barreiras enfrentadas, o NAC da UEL foi criado dois anos após a entrada de João Durval no curso.
Hoje aos 58 anos, casado com a professora Josiane Marques Felcar Piaie de Oliveira, do Departamento de Fisioterapia, do Centro de Ciências da Saúde (CCS), ele relembra os anos de dedicação aos estudos, que contou com a colaboração de familiares e colegas de turma. Eram eles que faziam a leitura dos livros e textos para que João Durval pudesse assimilar os conteúdos. Assim, como seu José, ele gravava as leituras para ouvi-las posteriormente. Durante todo o curso ele fez as provas de forma oral, contando também com a colaboração de professores e colegas.

(FOTO: Arquivo pessoal)

(FOTO: Arquivo pessoal)
João Durval perdeu a visão aos 12 anos, de forma irreversível, uma atrofia dos nervos ópticos. Ele retornou aos bancos escolares aos 14 anos, utilizando Braille. “Hoje é possível estudar utilizando diversas ferramentas, inclusive o celular”, compara ele. A legislação também mudou e garante à pessoa com deficiência visual o direito de fazer prova oral, inclusive em concursos públicos, conforme garante o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que prevê igualdade de direitos e inclusão social para pessoas com deficiência visual.
(FOTOS: André Ridão/COMUEL)




