Pesquisadora angolana analisa estratégias de aprendizagem praticadas por professores brasileiros e de Angola

Pesquisadora angolana analisa estratégias de aprendizagem praticadas por professores brasileiros e de Angola

Antónia é a primeira mestranda internacional do PPGPSI e já qualificou sua dissertação de Mestrado

Existe no processo de aprendizagem um perigo conhecido como “currículo oculto da observação”. Ele consiste na internalização dos métodos, postura e dinâmica dos professores e sua replicação na prática docente. Em outras palavras, os professores tendem a ensinar do mesmo jeito que aprenderam. É mais seguro. Mas não necessariamente mais adequado.

É pensando nisso que a psicóloga angolana Antónia Ventura de Oliveira desenvolve uma pesquisa intitulada “Análise das estratégias de aprendizagem indicadas por professores do Brasil e de Angola, países não-weird”, dentro do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UEL. Aliás, Antónia é a primeira mestranda internacional do PPGPSI e já qualificou sua dissertação de Mestrado, informa sua orientadora, professora Roberta Ekuni de Souza (Departamento de Psicologia Social e Institucional).

Em sua pesquisa, Antónia ouviu 172 professores brasileiros, de todos os níveis de ensino, e 21 angolanos, do Ensino Fundamental (Foto: Arquivopessoal)

Formada pelo Instituto Superior de Angola em 2020, Antónia procurou um Mestrado e acabou chegando à UEL em 2022 e estabelecendo contato com a professora Roberta, e logo se juntou a ela, como orientanda, em sua linha de pesquisa.

Antes de mais nada, cabe explicar a que se refere o “weird”. Normalmente significa “esquisito”, mas aqui é um acrônimo que, em português, significa “ocidental, educada, industrializada, rica e democrática”. Portanto, é um modelo pedagógico que não contempla a maioria dos países e dos povos (esses, ‘weird’), mas que acaba predominando entre eles.

Antónia conta que, no Mestrado, iniciou um intenso processo de descobertas cientificas, ao começar a estudar as crenças que movem a prática docente, tanto no Brasil como em Angola. No Brasil, não só há lacunas, como é muito forte a experiência prática sobre a Ciência, há muito tempo. Em Angola, ela informa, ainda existem poucas pesquisas na área. Mas ela detectou que, embora o ensino seja fundamentado em evidências científicas, a maioria dos professores age de forma semelhante. Em sua pesquisa, a mestranda ouviu 172 professores brasileiros, de todos os níveis de ensino, e 21 angolanos, do Ensino Fundamental.

Ela então analisou algumas estratégias dos professores em sua prática, comparando com a literatura e uma grande quantidade de estudos recentes para aquilatar a qualidade destas práticas, se de alta ou baixa utilidade.

Uma destas estratégias é a de lembrar. Ela envolve atividades que fornecem ou não pistas, e que objetivam criar conexões e fortalecer o que já foi aprendido. Portanto, extrapola o simples fato de memorizar (uma data ou um nome). Outra é conhecida como espaçamento e consiste em revisar um conteúdo em certos intervalos de tempo a fim de otimizar a retenção do conhecimento. Pode-se dizer que espaçar é o contrário de “maratonar”, ou seja, trabalhar com conteúdos num intervalo maior de tempo, e não concentrados. E uma terceira estratégia é chamada de elaboração. Trata-se de enriquecer conteúdos associando-os a conhecimentos prévios, teóricos ou empíricos.

Antónia chama a atenção para o fato de que cada estratégia tem seu momento mais adequado, assim como associar duas ou mais as tornam mais eficazes para a aprendizagem. É por isso, por exemplo, que não basta simplesmente estudar muitas horas por dia. O mesmo para a prática de fazer resumos. Estes, em sua avaliação, não são adequadamente elaborados, tornando-se apenas uma simples síntese.

A pesquisa descobriu que parte dos problemas gerados pelo modelo “weird” é causado pela formação inadequada dos professores, que não possuem em seu currículo disciplinas ou conteúdos voltados a tais estratégias – daí o espaço aberto para a repetição de métodos conhecidos e cristalizados. Segundo Antónia,  também há poucos debates, poucos eventos científicos voltados a esta discussão.

Por esta razão, entre outras, ela destaca como a pesquisa tem sido um período de descobertas e rica troca de experiências com os colegas. Ela percebe a resistência ao tema em Angola, a necessidade de aprimorar a formação profissional, e como o estudo tem sido oportuno.

Na mesma direção vai a professora Roberta, que destaca a relevância da pesquisa. “É libertador!”, sintetiza. Ela já desenvolveu uma pesquisa com 800 pré-vestibulandos e descobriu que a maioria não escolhia as melhores estratégias de estudo para aprender. Era recorrente a ideia de estudar mais tempo simplesmente. Há mitos também, como aquele que defende que não se deve passar tarefa de casa para criança. Pelo contrário. Na avaliação da professora, as tarefas não só estimulam a autonomia e responsabilidade da criança, como as atividades podem reforçar os conteúdos vistos na escola, mesmo de maneira lúdica. Tudo isso ela leva à disciplina de Psicologia e Aprendizagem, que ministra para o 2º anodo curso de Psicologia.

Professora Roberta: pesquisa com 800 pré-vestibulandos descobriu que a maioria não escolhia as melhores estratégias de estudo para aprender (Foto: Arquivo Pessoal)

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