Pesquisas sobre segurança alimentar e superbactérias vencem prêmio internacional
Pesquisas sobre segurança alimentar e superbactérias vencem prêmio internacional
Estudos do Laboratório de Medicina Aviária oferecem soluções para o setor produtivo e garantem alimentos mais seguros para a populaçãoDois trabalhos de pós-graduação do Laboratório de Medicina Aviária da Universidade Estadual de Londrina (LMA/UEL) foram premiados durante a 2026 PSA Latin American Scientific Conference, realizada de 6 a 8 de outubro em Foz do Iguaçu pela Poultry Science Association (PSA). O encontro reuniu especialistas e pesquisadores de toda a América Latina para discutir os principais avanços da avicultura.
Para o LMA, a premiação reforça uma trajetória consistente de excelência: em 2024, o grupo já havia sido reconhecido no mesmo evento internacional. Os dois trabalhos premiados investigam mecanismos complexos de sobrevivência de bactérias na cadeia de produção de carne de frango, uma das proteínas mais consumidas no Brasil e no mundo. O grande diferencial científico das pesquisas está em entender a formação de biofilmes, espécie de “escudo de proteção” que comunidades de bactérias criam para se proteger contra sanificantes, calor e antibióticos.
O estudo apresentado pela residente Ana Paula Müller, intitulado “Characterization of Salmonella spp. Isolates from Feed Mills: Survival Following Thermal Processing, Biofilm Formation, and Antimicrobial Resistance”, analisou o comportamento de cepas de Salmonella encontradas em fábricas de ração. A pesquisa revelou como essas bactérias conseguem resistir ao tratamento térmico aplicado no processamento do alimento das aves e como a capacidade de formar biofilmes dificulta a eliminação do patógeno nas instalações industriais.

( esq. p/ dir.)
Já aquele conduzido pelo mestrando João Vitor Costa, “Biofilm Formation and Antimicrobial Resistance Profile of Enterococcus spp. Isolated from Alphitobius diaperinus and Broilers with Spondylitis” foca no estudo de bactérias do gênero Enterococcus isoladas de frangos diagnosticados com espondilite (infecção na coluna vertebral das aves) e de cascudinhos (Alphitobius diaperinus), insetos frequentemente encontrados no piso das granjas. O trabalho alerta para o papel desses insetos como reservatórios de bactérias resistentes a medicamentos na avicultura.
Impacto direto no consumidor
Embora a pesquisa ocorra em ambiente de laboratório, suas aplicações têm efeito prático na saúde da população e no bolso do consumidor. A proliferação de bactérias resistentes aos antimicrobianos é apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das maiores ameaças à saúde pública global.
Ao mapear a resistência bacteriana e entender como a Salmonella sobrevive na ração das aves, o LMA entrega dados estratégicos para que as indústrias aprimorem seus protocolos de higienização, desinfecção e controle térmico.
Na prática, isso significa alimentos mais seguros pela redução do risco de surtos de toxinfecções alimentares por contaminação de carne e derivados; a redução no uso de medicamentos graças às estratégias preventivas e de controle de pragas (como o cascudinho) que diminuem a necessidade do uso de antibióticos nas granjas e contribuições na sustentabilidade do setor, com menor perda de lotes de aves por doenças, garantindo a eficiência da produção e a estabilidade do abastecimento de frango.

De acordo com a professora Ana Angelita Sampaio Baptista, Coordenadora do Curso de Medicina Veterinária (CCA), do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva (DMVP) e do LMA, as pesquisas são aplicadas e construídas junto ao setor avícola. “As agroindústrias nos ajudam a compreender problemas concretos da produção e são parceiras importantes para a realização das coletas que dão origem aos nossos estudos. Também mantemos parcerias com empresas que trabalham com produtos biológicos e aditivos. Essa aproximação mantém nossas pesquisas conectadas às necessidades da cadeia produtiva”, afirma.
A conquista desses prêmios internacionais demonstra a contribuição direta da UEL para a produção de conhecimento científico aplicado às reais demandas do setor produtivo que valoriza os dados produzidos pelo grupo de pesquisa. “Vejo informações das nossas pesquisas sendo aplicadas e discutidas pelas empresas onde a ciência está presente no dia a dia da produção”, comenta Baptista. Os prêmios, continua a pesquisadora, ampliam a visibilidade do LMA e ajudam a demonstrar a aplicação da produção do conhecimento.
Valorização da ciência
As pesquisas do Laboratório de Medicina Aviária abordam temas urgentes como a sanidade avícola, a segurança dos alimentos e a contenção da resistência aos antimicrobianos para a carne de frango, proteína importante na alimentação da população e na economia brasileira. “É uma cadeia produtiva de grande dimensão e muito tecnificada, que precisa responder continuamente a desafios de sanidade, segurança dos alimentos e uso responsável de antimicrobianos”, destaca a professora.

No LMA são investigadas bactérias como Salmonella spp. e Enterococcus spp., a resistência aos antimicrobianos e a formação de biofilmes, que podem favorecer a persistência dos agentes no ambiente. “Também estudamos Enterococcus associado à espondilite, um quadro clínico importante nas aves, e sua ocorrência em cascudinhos. São questões que ajudam a orientar pesquisas e estratégias de controle mais próximas da realidade da produção”, comenta Baptista. “Nosso propósito é produzir ciência aplicada às necessidades do setor e, ao mesmo tempo, formar recursos humanos e profissionais preparados para contribuir com a avicultura”, pontua.
A dupla premiação em Foz do Iguaçu também traz reflexos diretos para o ambiente acadêmico. A visibilidade obtida em um evento de alcance internacional impulsiona a captação de recursos e parcerias com o setor agroindustrial, viabilizando a continuidade das linhas de pesquisa. “Mais do que o reconhecimento da qualidade técnica dos projetos, esse resultado traz um incentivo enorme para nossos alunos e professores. Isso mostra como o investimento em universidade pública se reverte em formação de recursos humanos de altíssimo nível e em soluções reais para a sociedade“, conclui a docente.
Para o mestrando João Vitor Costa, a premiação reflete o estudo e dedicação à pesquisa. “Foram diversas semanas trabalhando na execução da pesquisa e na elaboração do resumo, além de toda a preparação para a apresentação oral em inglês que seria realizada no Congresso”, comenta. Ele relata o apoio de colegas e da professora orientadora ao longo do percurso. “No final, já estávamos realizados simplesmente por ter completado o desafio, mas o prêmio veio como a cereja do bolo, reconhecendo todo esforço que tivemos e motivando para que possamos continuar conquistando espaço de pesquisa na avicultura para a UEL”, diz Costa.

*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação UEL – FOTOS: André Ridão.




