A morte nas linhas e entrelinhas
A morte nas linhas e entrelinhas
Com participação de estudantes, a pesquisa parte de uma das abordagens da Crítica Literária, a Crítica Psicanalítica, que se ocupa da manifestação do sujeito do inconsciente no texto literárioNa mitologia grega antiga, Tanatos era a personificação da morte. Sigmund Freud
(1856-1939), o pai da Psicanálise, apropriou-se dela para designar o que chamou de
“pulsão de morte”, ou seja, uma força inconsciente em direção à dor e à morte, em
oposição a Eros, a pulsão da vida. Já para o professor, psicólogo e psicanalista Gustavo Javier Figliolo (Departamento de Letras Estrangeiras Modernas), é o centro de seu projeto de pesquisa, intitulado “Morte e pulsão de morte na Literatura”.
Com participação de estudantes, inclusive de Iniciação Científica, a pesquisa parte de
uma das abordagens da Crítica Literária, a Crítica Psicanalítica, que se ocupa da
manifestação do sujeito do inconsciente no texto literário, e joga luz especificamente
sobre a pulsão de morte encontrada nas linhas e entrelinhas das obras.
Logo de saída, é importante assinalar que a ideia de morte, em todos os campos de
ideias, sofreu modificações no decorrer dos tempos. “A ideia de morte tem efetivamente mudado através do tempo e das épocas históricas e estéticas. Não somente na literatura, mas no imaginário social. Com o advento do Cristianismo, época em que se dizia que o mundo estava ‘velho’, a morte e o imaginário em torno dela ficaram centrados na vida divina e não terrenal, pelo que o próprio fato da morte era celebrado, muito diferentemente de como se recebe a morte nos dias de hoje”, explica o professor Gustavo.
É assim, segundo o pesquisador, que a morte tem variado, evoluído e sofrido mudanças temáticas, estilísticas e no que diz respeito ao lugar de enunciação dos autores, naquele doloroso processo de descrição do derradeiro evento da vida. “Depois da Renascença e do resgate da mitologia e do classicismo greco-latino, o homem alterna um estágio cultural não totalmente definido, representado pela ambivalência e a dualidade do Barroco”, expõe.
Ordem x Caos
Numa aparente necessidade de impor certa Ordem a um Caos em que o homem não consegue viver (existir), surge o período das Luzes, em que a subjetividade se rende aos imperativos da Ciência, do filosofismo e da Razão, na busca da trilha que tirará o Homem da incerta floresta barroca. Isso porque mesmo um Caos ordenado traria aquietação ao espírito.
A partir daí a morte foi racionalizada e, ao dizer do medievalista Philippe Àries (1914-
1984), foi transformada em selvagem, no sentido de que em épocas antigas era
“domesticada”, próxima, familiar, diminuída, insensibilizada. A morte era então
pública, com ritos fúnebres públicos ou dentro das casas e inclusive festejada. “Hoje já não é mais isso, a morte domesticada se transformou em selvagem, a morrer na solidão de um hospital e os enterros privados. Essa mudança sobreveio após a experiência iluminista, em que se percebe que continua a existir um vazio que a razão não consegue preencher, pelo que num outro giro interior – espiritual, cultural em definitiva – passa-se ao retraimento para si da experiência emocional, em termos de sensibilidade e desejo individuais”, descreve Gustavo.
Com o Romantismo, a morte tomou um caminho diferente, continua o pesquisador. No Barroco, onde a dualidade antropológica–teológica colocava ainda uma esperança em Deus (se bem que um Deus visto em claro-escuro), o período romântico, depois da enxurrada iluminista de razão, fez o homem se retrair a uma individualidade imperiosa. “É a expectativa desapontada que representa o drama humano e que traz consigo uma fascinação pelo sofrimento, pela dor e pela morte. Em épocas que poderíamos considerar contemporâneas a nós, esse processo tem se intensificado e a morte hoje representa uma verdadeira desgraça, a ser noticiada com os melhores requintes de crueldade que alguma época estética já sequer pensou em reproduzir”, completa o professor.
Crítica Psicanalítica
A Crítica Literária Psicanalítica está orientada a procurar ler, nas entrelinhas do
enunciado, as marcas enunciativas do desejo humano, e nisso é próxima da própria
prática clínica da psicoterapia psicanalítica em termos metodológicos, diz Gustavo.
Freud escreveu a obra Além do princípio do prazer, em que teoriza que não
necessariamente o ser humano procura prazer, embora sim a realização do desejo, uma vez que suas ações muitas vezes obedecem a uma compulsão à repetição que não traz benefícios ou situações prazerosas e que, no entanto, continuam a se repetir. “Qualquer pessoa pode observar isso em si mesma. Esse périplo em direção à morte, porque disso se trata, precisa, não obstante, contornar a vida, essa que vivemos e pela qual existimos.E cada um, vivendo essa vida, morre a sua maneira, do seu jeito”, argumenta o pesquisador.
Há um embate entre a pulsão de vida e de morte, ainda que ambas andem de mãos
dadas. A Literatura, ao refletir a vida, ao descrever e configurar o ser humano de alguma maneira, via linguagem, coloca esses dois polos juntos, em seu devido lugar: um digladiar-se dos dois, pulsão de vida e pulsão de morte, Eros e Tanatos. “A pulsão é originalmente de morte, caótica, psicótica, não simbolizável; os objetos nos quais
investimos nos dão a vida, transformam essa pulsão caótica em pulsões de vida que
sempre estarão na necessidade de uma relação de objeto a servir de investimento.
Quando acaba um filme procuramos assistir outro; termina um namoro e já vamos atrás de outro; o desejo se interrompe somente com a morte, mas após viver a vida”, explica Gustavo.
Na Literatura contemporânea, há exemplos em que a pulsões de vida se veem diante
com as pulsões de morte. “As pequenas chances”, de Natalia Timerman; “A ridícula
ideia de nunca mais te ver”, de Rosa Montero; “Por que começo do fim”, de Ginevra
Lamberti; “Matate, amor”, de Ariana Harwicz.
Mas para entender melhor as diferentes aproximações à morte, o professor recomenda os clássicos, como “Édipo Rei”, de Sófocles; “Hamlet”, de Shakespeare; “Crime e castigo”, de Fiódor Dostoiévski. “Enquanto agonizo”, de William Faulkner; e “O estrangeiro”, de Albert Camus. Quando as significações sobre o embate entre as pulsões se fazem presentes em uma obra, elas estão disseminadas dentro de toda a narrativa: personagens, diegese (universo fictício), foco narrativo, estrutura linguística. “Os significantes vão surgindo como se estivessem à espreita para direcionar o leitor em sua afetividade. Internalizando-se emocionalmente em uma história em que os elementos das pulsões de vida e morte estejam presentes protagonizando a batalha, o leitor poderá elaborar uma outra história (a sua própria) a partir da experiência pessoal que ele teve e tem com a morte e com a vida: a última a contornar a primeira, enquanto exista o desejo”, finaliza o professor Gustavo.







