Pesquisa elabora Atlas sobre territórios vulneráveis de Londrina
Pesquisa elabora Atlas sobre territórios vulneráveis de Londrina
O primeiro volume foca na Região Norte, com mapas afetivos dos territórios: Aparecidinha, Flores do Campo e o Córrego Sem DúvidaO Atlas dos Territórios Vulneráveis de Londrina foi produzido por pesquisadores do Departamento de Geografia da UEL, que procuraram fazer levantamentos sobre os habitantes desses locais, suas demandas e necessidades. O objetivo do projeto é contribuir para a elaboração de novas políticas públicas voltadas para se avançar no direito à cidade desta população visando o aumento da qualidade de vida.
Ideni Terezinha Antonello, professora do Departamento de Geografia, da Pós-Graduação em Geografia (PPGEO/UEL), pesquisadora do CNPq (PQ2) e coordenadora do projeto, relata que, durante os três anos da duração da iniciativa, foram visitados os territórios da Aparecidinha, Flores do Campo e o Córrego Sem Dúvida, e outros na região norte da cidade, para falar diretamente com os habitantes desses espaços e entender seu perfil.

Segundo a coordenadora, o déficit habitacional – quando há mais população do que moradias disponíveis – é um dos principais problemas que o planejamento urbano enfrenta, e uma das maiores causas da segregação social e territorial que causa a expansão desses espaços.

O começo da discussão foi o nome desses territórios, que possuem diferentes denominações nas várias partes do país, de vilas, favelas, até ocupações irregulares, designação que esses espaços ganham em Londrina. “Esse termo traz um preconceito. Quando se diz irregular, é irregular em relação a quê? No momento em que se fala isso, você coloca toda essa população, em irregularidade perante as leis, isto é a cidade formal”, argumenta.
Antonello adiciona que o objetivo do projeto está em criar conhecimento que alcance além dos muros da Universidade. “O Atlas traz uma discussão que é importante não só para a Geografia, mas para todas as demais áreas que vão discutir a questão da habitação, como Serviço social, Arquitetura, Direito, Urbanismo, a Medicina”, afirma.
Perfil do morador
Utilizando dados da Companhia de Habitação de Londrina (COHAB) e do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) como suporte, foi traçado um perfil das famílias que vivem nesses territórios, observando qual a porcentagem de pessoas atendidas pelo bolsa família, número de crianças, renda, idade, gênero e emprego.
Léia Aparecida Veiga, pesquisadora do projeto e professora do PPGEO/UEL, relata que os dados recolhidos mostraram uma parte significativa das famílias dessas regiões é de mulheres como chefes de família vivendo com seus filhos, além de um percentual expressivo de crianças e um número crescente de idosos. Quanto à renda, grande parte dos trabalhadores atuam na informalidade, sem renda fixa, com dependência de políticas públicas sociais, como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada, cestas básicas e outras formas de auxílio federal e municipal.
No território do Flores do Campo, esse padrão se combina com a chegada dos imigrantes venezuelanos. A docente afirma que “Por causa do grande número de imigrantes, esse local ganhou o apelido de Pequena Venezuela. Toda semana chegava uma família de imigrantes naquela situação. Da última vez que estivemos lá, já eram quase 250 famílias no total vivendo em situação de vulnerabilidade”, relata.
Veiga adiciona que, além dos auxílios, essa população também depende dos serviços públicos para ter qualidade de vida. “Percebemos que a presença do CRAS é fundamental. Não só o CRAS, mas também as UBS, todo o sistema de saúde, as escolas municipais, estaduais, o CEPAS. Eles acessam muito o sistema público de saúde, educação e assistência social”, relata.
Mapas Afetivos
Uma inovação apresentada pelo Atlas é a utilização da metodologia dos Mapas Afetivos, desenvolvidos pelo professor Caio Cezar Cunha, doutor em Geografia pelo PPGEO/UEL. Essa técnica combina o espaço que as pessoas vivem nos territórios vulneráveis, por meio de mapas, com o sentimento desses indivíduos por sua moradia.
Os dados iniciais foram recolhidos por meio de oficinas com 15 a 20 moradores, nas quais foi utilizado um mapa por satélite do local em tamanho A0, para que possam identificar o local que habitam. Então, cada participante deve usar cinco palavras para descrever sua moradia, assim resultando em um mapa da insegurança e do pertencimento desses espaços.
Segundo a coordenadora Ideni Antonello, a inovação está na junção de técnicas que ao mesmo tempo representam as opiniões das pessoas, mas também é sustentada no espaço físico. “É um mapa cartográfico, esse é o grande diferencial. Porque muitas vezes a cartografia social se atém e trabalha com desenho e falas, mas não resulta em um mapa como esse que o Caio elaborou”, explica.
A professora relembra que o ponto de partida foi o território, não somente nas visões econômicas e naturais, mas, em adição, do território como espaço social, cultural e político. Ela argumenta que “trabalhamos com planejamento a partir de uma concepção de planejamento a partir do diálogo com a população, porque quem melhor produz e conhece o espaço é a população”.

Além do presente
O projeto também fez um recorte histórico desses territórios, procurando analisar como essas ocupações se iniciaram e evoluíram ao longo do tempo, colocando lado a lado fotografias e mapas históricos, da gênese das primeiras favelas de Londrina na década de 60, em contraste com contrapartes atuais dos mesmos lugares.
A ideia para o levantamento desses materiais partiu da professora Elisa Roberta Zanon, docente de Arquitetura e Urbanismo que faleceu em 2023, enquanto estava no processo de defender sua tese de Doutorado sobre o tema.
A coordenadora relata que a integração dessa análise tem o objetivo de expandir o entendimento do que é um atlas e sua função. Ela argumenta que “Não é aquela visão de atlas que é só mapas, a gente traz uma outra abordagem, um atlas contextualizado com análises, referências e textos. Porque a Universidade não pode ficar entre quatro paredes, ela tem que ir para o território, viver o território e, se possível, transformar esse território”, finaliza.
*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.









