Mestranda pesquisa os desafios do aleitamento materno para mulheres indígenas

Mestranda pesquisa os desafios do aleitamento materno para mulheres indígenas

Enfermeira na Terra Indígena em que reside, Kunhã Nimboweradju busca aprimorar as ações de saúde voltadas aos povos originários e incentivar práticas humanizadas

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem em sua lista de egressos da pós-graduação quatro estudantes indígenas, que se tornaram mestres nos últimos anos. Atualmente, três mestrandos e quatro doutorandos realizam pesquisas sobre diferentes tópicos. Com uma diversidade de etnias, os alunos abarcam suas vivências em diferentes territórios, mas não se limitam à experiências próprias na construção de seus projetos.

Ampliando a possibilidade de formar pesquisadores e docentes indígenas na educação superior, a UEL oferta cotas para autodeclarantes em todos os programas de pós-graduação há quatro anos. Ao longo do mês, a UEL celebra a presença indígena com uma série de eventos. As ações integram a campanha “UEL na Luta Contra o Racismo”, que tem como um dos objetivos combater o preconceito contra esses povos.

Kunhã Nimboweradju é da etnia Guarani Nhandewa e pertence a Terra Indígena Ywy Porã – Posto Velho, situada em Abatiá (PR). Ela reside no território com seu esposo, estudante de Medicina na UEL, e filha. Graduada em Enfermagem, optou pelo curso a partir das dificuldades enfrentadas por ela e por seus conterrâneos, como a falta de saneamento básico e a precariedade no atendimento à saúde da população.

“Essas experiências despertaram em mim o desejo de contribuir com a melhoria das condições de saúde do meu território por meio do conhecimento adquirido no mundo ocidental, podendo conciliar com os costumes tradicionais da comunidade, respeitando as suas especificidades culturais e atendendo de forma humanizada”, pontuou Kunhã.

Desafios na amamentação

A enfermeira se interessou por temáticas voltadas aos indígenas durante toda a graduação, com o objetivo de fortalecer o protagonismo dos povos originários e ampliar o diálogo tanto com populações indígenas quanto com a comunidade externa. O tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi “Tuberculose em indígenas do estado do Paraná”, realizando a caracterização sociodemográfica, atestando hábitos de vida e comorbidades e identificando áreas de risco espacial.

Kunhã deixou seu território, Ywy Porã, em 2017 para cursar Enfermagem, retornado depois de formada para atuar na área da saúde. Foto: Arquivo pessoal

Agora mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UEL, iniciou a pesquisa “Aleitamento Materno em Mulheres Indígenas” no ano passado, com a defesa prevista para 2027 e orientação da professora Adriana Valongo Zani. A partir de sua atuação como profissional da saúde no território em que vive, tendo contato com as Djaryi (mulheres mais velhas) e Kunhagwe (mais jovens), percebeu que o aleitamento materno, “embora seja uma prática tradicionalmente valorizada, enfrenta desafios importantes relacionados a aspectos culturais, sociais e ao acesso aos serviços de saúde”, relatou Kunhã.

Assim, irá entrevistar Kunhagwes que amamentaram em algum momento de suas vidas residentes de dois territórios: a Terra Indígena Laranjinha, situada em Santa Amélia (PR) e composta por aproximadamente 300 habitantes pertencentes ao povo Guarani Nhandewa, e a Terra Indígena onde mora, Ywy Porã, casa de aproximadamente 60 pessoas.

Respeito aos costumes

Kunhã busca compreender as percepções de mulheres indígenas sobre o aleitamento materno e o aleitamento cruzado nas duas comunidades do Paraná, respeitando suas experiências, crenças e saberes transmitidos por gerações passadas. Também irá identificar fatores que facilitam ou dificultam a prática neste contexto e compreender como os saberes tradicionais e as práticas de cuidado influenciam o processo.

“Busco contribuir para o aprimoramento das ações de saúde voltadas à população, incentivando práticas mais humanizadas, culturalmente sensíveis e alinhadas às necessidades reais das mulheres indígenas.  E ainda, a pesquisa pode subsidiar profissionais na construção de estratégias mais eficazes de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno”, considerou a mestranda.

Ações para alunos indígenas

A Comissão Universidade para os Indígenas (CUIA) é responsável por implementar e monitorar a política de acesso, permanência e formação de estudantes indígenas, promovendo a recepção de calouros, ações de acompanhamento e a sensibilização  da comunidade acadêmica acerca dos povos originários. Ela é composta por 30 membros, entre alunos – que também participam da Articulação dos Estudantes Indígenas (ARTEIN) -, professores, técnicos e lideranças.

Já o Ciclo Intercultural de Iniciação Acadêmica de Estudantes Indígenas objetiva, especificamente, a integração dos calouros ao ambiente universitário. Wagner Amaral, professor do Departamento de Serviço Social e integrante da CUIA, explicou que “já no primeiro ano, esse ingressante ouve falar o que é o mestrado, o que é o doutorado, a importância da pesquisa e participa, muitas vezes, de grupos de pesquisa. É como se ele fosse se apropriando de uma perspectiva e da possibilidade de continuidade em uma carreira acadêmica”. O docente analisa a trajetória de egressos indígenas gestores de políticas sociais públicas em um projeto próprio.

Membro da CUIA, Wagner Amaral realiza pesquisas que contemplam vivências indígenas. Foto: Agência UEL

A universidade oferta cotas para indígenas em todos os programas de pós-graduação desde 2022, estimulando a sua participação no ambiente acadêmico de forma pioneira. “Em outras instituições, o programa delibera sobre a criação de cotas, então acaba sendo pulverizado na universidade. A UEL é uma das únicas que têm políticas de cotas para todos os programas, e assim, intensificou o número de candidatos indígenas”, relatou o professor.

Uma comissão indicada pela CUIA realiza a verificação de pertencimento indígena, assim como existem comissões de heteroidentificação para confirmar a autodeclaração de candidatos negros aprovados pelo sistema de cotas. No caso da pós-graduação, Amaral destacou que muitos dos novos mestrandos e doutorandos indígenas são egressos da graduação, já possuindo uma “trajetória na UEL”. 

“Acompanhar essa política tem sido bem importante e observamos que há um crescimento na medida em que muitos programas de pós-graduação, a partir da política de cotas, também vêm instituindo critérios de prioridade para indígenas no recebimento da bolsa, porque essa é uma deliberação de cada programa. Isso tem gerado maiores possibilidades de permanência, considerando que a bolsa é fundamental para que o estudante possa permanecer na universidade e na cidade”, salientou.

*Bolsista na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação

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