Pesquisadora produz livro de memória da pandemia com alunos do Ensino Fundamental

Pesquisadora produz livro de memória da pandemia com alunos do Ensino Fundamental

Produção textual de alunos do ensino fundamental de escola londrinense relatam experiência no período pandêmico.

José de Arimathéia

Agência UEL


As consequências do ensino remoto só estão começando a ser avaliadas pelos especialistas, e nem todas elas se referem à Educação. O impacto de mais de um ano e meio em casa afeta os estudantes social, psicológica e materialmente, para dizer o mínimo.

É o que aponta a produção textual de alunos do ensino fundamental II (8º e 9º anos) do Colégio Estadual Albino Feijó Sanches, localizado na zona sul de Londrina, próximo à PR 445 e à saída para Curitiba. A professora Ana Paula da Silva, doutoranda em Estudos da Linguagem na UEL (PPGEL), percebeu os sentimentos de suas turmas e, dentro de suas atividades habituais, propôs que escrevessem sobre o momento que todos estão atravessando.

Professora da rede pública há 15 anos, com passagens também por escolas privadas, Ana Paula já tinha a experiência de trabalhar com produção textual. No Mestrado, as teorias e ferramentas do letramento se uniram à produção de um jornal escolar. No Doutorado, que também foi impactado pela pandemia e teve seu projeto revisto mais de uma vez, a pesquisadora decidiu dar voz aos alunos, o que significa, segundo os teóricos em que se baliza, dar poder a eles.

Além disso, Ana Paula levou para a sala de aula textos literários com situações semelhantes, como a gripe espanhola, ocorrida um século atrás. Um exemplo foram textos de Pedro Nava (1903-1984), um médico e memorialista mineiro. A professora relata, porém, que fizeram muito sucesso textos do escritor pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980), particularmente as Crônicas 11 e 12, que falam da chegada de sua família ao Rio de Janeiro em pleno surto da gripe espanhola.

Relatos de experiência

O resultado é um livro de 63 páginas, com 26 relatos de experiência, escrito e ilustrado pelos alunos. “Nem todos quiseram publicar seus textos, e nem todos quiseram sequer escrever”, conta Ana Paula. Ela disse que não foi um processo fácil, pois envolveu sentimentos à flor da pele, e outro fator crucial: o acesso e domínio à tecnologia adequada para o desenvolvimento das atividades.

Para Ana Paula, a atividade foi uma forma de acolher esses estudantes e propiciar momentos em que pudessem expressar suas experiências, ao mesmo tempo em que todos os conteúdos previstos eram abordados, como a Gramática e os gêneros textuais. Porém, o acesso à tecnologia foi uma grande dificuldade. Além da falta de equipamentos adequados em casa, mesmo na escola (já na fase de aulas presenciais escalonadas) havia obstáculos. “Nossos alunos não são letrados digitalmente. É diferente de mexer no whats app”, explica a professora. Ela conta, por exemplo, de um aluno que não sabia o que era “arroba” (@) e que, quando apontou a tecla com o sinal, ele digitou “2”, porque não sabia que tinha que apertar “CapsLock”.

Lidar com as emoções foi outro aspecto tenso. Nos relatos de histórias pessoais, a tônica foram as perdas na família pela covid-19, a ausência da escola, o distanciamento dos amigos, a esperança de que a vacina traga boa parte disso de volta. “Muitos alunos choraram muito na produção dos textos. Houve um caso em que um deles escreveu que o pior de tudo foi não ter podido se despedir da avó, que morava numa casa na mesma data que o resto da família, algo comum no bairro, e morreu durante a pandemia”, diz Ana Paula.

Lançamento

O livro terá como título “Por trás das nossas faces: eternas memórias”. Será publicado pela Editora Midiograf, com registro de ISBN. O título é uma referência às histórias e memórias que estão por trás dos rostos que aparecem nas telas do ensino remoto. “Muitos nem abriam a câmera, para não mostrar como eram suas casas. Mas houve um caso de um aluno que aparecia sempre com a avó atrás, fazendo alguma coisa. Até que um dia ela não estava. Quando perguntei dela, a péssima notícia: a doença a havia levado”, conta a professora.

Ana Paula diz ainda que os alunos estão trabalhando na organização de um pequeno evento na escola para o lançamento do livro, em dezembro, com mais produção textual: convite, banner, cerimonial, etc. “Todas essas atividades envolvem o trabalho com a escrita e estão alinhadas aos princípios e bases teóricas do trabalho com projetos de letramento, de uma concepção de escrita como prática social e na ideia de protagonismo juvenil”, avalia a professora.

Tese

Para o Doutorado, Ana Paula selecionou cinco alunos entre os autores e aprofundou seu perfil e textos. São alunos considerados bem sucedidos conforme os critérios do sistema escolar, com boas notas, avaliações, etc. Agora ela se debruça sobre as consequências do cenário pandêmico para o ensino, primeiro remoto e depois híbrido (parte presencial e parte remoto), e o trabalho de escrita neste cenário, considerando as dificuldades com a tecnologia e o trabalho de letramento digital. “Os professores não tinham experiência nenhuma e não estavam preparados para isto. Não houve como se preparar. Simplesmente chegou um dia em que todos foram informados que as aulas presenciais estavam suspensas”, reflete a pesquisadora.

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