Parceria entre UEL e Judiciário promove debate sobre violência doméstica e familiar
Parceria entre UEL e Judiciário promove debate sobre violência doméstica e familiar
Iniciativa foi promovida pela juíza Cláudia Andrea Bertolla Alves, do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar com a agente da GM e doutoranda da UEL, Aline Salles Pedrazani.O Centro de Formação da Guarda Municipal de Londrina (CFGM) foi palco de um importante encontro voltado à conscientização e ao enfrentamento da violência doméstica e familiar no início dessa semana. Com o tema “Quem cuida de quem cuida?”, o evento reuniu agentes da Guarda Municipal, além de representantes das polícias Militar e Civil, promovendo um espaço de diálogo e fortalecimento das servidoras que lidam diariamente com esse tipo de ocorrência.
A iniciativa foi promovida pela juíza Cláudia Andrea Bertolla Alves, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar e pela agente da Guarda Municipal, Aline Salles Pedrazani, doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). O objetivo foi ampliar a reflexão sobre a violência de gênero, especialmente aquelas formas que ainda passam despercebidas no cotidiano.
Trajetórias de mulheres
No Brasil, embora a violência contra a mulher atinja com uma intensidade brutal mulheres junto às populações pretas periféricas, todas as mulheres – pelo simples fato de serem mulheres -, estão vulneráveis a sofrer as diversas formas de violência tipificadas pela Lei Maria da Penha. Na opinião da doutoranda da UEL, o feminicídio seria uma causa de morte evitável. “Infelizmente estamos lendo todos os dias notícias de mulheres perdendo suas vidas, mulheres trabalhadoras da segurança pública inclusive. O evento se conecta com a minha vida, pois sou mulher e sou atravessada por toda essa materialidade social”, diz.

A sua pesquisa de Doutorado se debruça sobre a trajetória de mulheres que passaram pelo acolhimento institucional durante a infância e/ou adolescência. Os dados mostram que, embora seja uma medida excepcional, a institucionalização de crianças e adolescentes é muito comum no Brasil e tem como uma das principais causas a violência doméstica direta contra a criança ou adolescente, mas também a violência “indireta” sofrida ao presenciar agressões físicas ou verbais contra as suas mães.
“Temos crianças que necessitam do acolhimento devido ao feminicídio de suas genitoras. Como mulher, cidadã, pesquisadora e como servidora não posso me furtar a tudo isso. Ao refletir junto com minhas companheiras de trabalho, busco construir consciência das violências que podem nos atingir e que elas repliquem entre outras mulheres essa consciência e o como agir diante de violações de nossos direitos humanos básicos”, afirma a doutoranda e agente da GM.
Questões de gênero
Salles Pedrazani conta que teve um percurso acadêmico, de uma forma ou outra, ligado às questões de gênero e violência. “Em meu mestrado trabalhei com análise discurso de processos judiciais que tratavam sobre violência contra a mulher e agora, no doutorado, essa violência paira sobre minha análise e quero refletir em minha tese sobre ela. Em minha prática profissional busco conduzir minhas ações respaldada pelas leituras que me formaram enquanto pessoa, e aqui me refiro a pessoa enquanto conceito caro a Antropologia”, pontua.
“Toda essa minha caminhada de pesquisa foi orientada pela professora Carla Delgado, do Departamento de Ciências Sociais da UEL e uma das mulheres que me ajudam a ser uma mulher melhor. Ela considera a sua pesquisa e leituras, desde a graduação, importante na construção de quem é hoje, consciente de toda a complexidade social na qual está envolvida, sem deixar de questionar e ter criatividade para que a própria ação profissional seja útil à sociedade. “Não existe a pesquisadora sem a servidora, sem a cidadã, sem a filha, sem a esposa, a amiga que sou. O conhecimento é fonte de vida então, a academia é vida e deve ser abundante, deve estar e se fazer presente na rotina das pessoas de maneira universal. Temos que aproximar a população da academia, mostrar que nossas pesquisas impactam o mundo e que todas as pessoas são importante para a construção de uma sociedade melhor”, completa.
Segundo dados apresentados, desde 2021 foram instaurados apenas 17 inquéritos com base no artigo 147-B do Código Penal, que trata da violência psicológica contra a mulher — um número considerado baixo diante da realidade. A agente da Guarda Municipal reforça a importância de dar visibilidade a comportamentos muitas vezes naturalizados. “Infelizmente a violência contra a mulher é uma constante em nossas vidas. Muitas vezes a mulher vivencia formas de violência que não consegue nomear. Nossa roda de conversa foi justamente para debatermos frases que ouvimos na nossa rotina que são violentas, mas muitas vezes normalizadas”.
Atuação da Patrulha Maria da Penha
A Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal de Londrina atua 24 horas em todas as regiões da cidade, seja por meio dos chamados via telefone 153 ou através do acionamento do botão de emergência. A instituição conta ainda com um setor responsável por acompanhar mulheres vítimas de violência doméstica que possuem medida protetiva expedida pela Justiça.
Até o final de março, 2.396 mulheres estavam cadastradas na base da Guarda Municipal e tinham acesso ao botão de emergência, disponibilizado por meio do aplicativo 153 Cidadão. A ferramenta permite o acionamento rápido das equipes em situações de risco, fortalecendo a rede de proteção às vítimas.
O encontro reforçou a importância da integração entre as forças de segurança e da capacitação contínua dos agentes públicos, especialmente diante de uma violência que, muitas vezes silenciosa, ainda representa um grande desafio para toda a sociedade.
Durante a sua participação, a juíza Cláudia Andrea Bertolla Alves destacou a necessidade de capacitação contínua das instituições, fundamentais para a reflexão sobre o que é possível melhorar no enfrentamento à violência contra a mulher. “Infelizmente, os números só crescem, e essa violência está muito mais próxima do que se imagina, muitas vezes dentro dos próprios lares”, pontuou Alves.
Ela também enfatizou a gravidade da violência psicológica, tipificada como crime em 2021, mas ainda pouco identificada. “A violência psicológica ainda é invisibilizada. Muitas vezes, ela antecede agressões físicas, mas não é identificada nem pelas vítimas nem pelas instituições. Hoje, temos apenas 13 ações penais em andamento relacionadas a esse crime em Londrina, o que mostra o quanto ainda precisamos avançar”, pontuou.
*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação Social e com informações do Blog.Londrina
Fotos: Bruno Amaral/SMDS


















