Projeto promove mediação linguística em escolas de Londrina para alunos haitianos

Projeto promove mediação linguística em escolas de Londrina para alunos haitianos

UEL atua em escolas municipais para auxiliar no processo de mediação linguística de alunos haitianos, recém chegados

A chegada de migrantes de países francófonos (que possuem o francês como língua oficial) tem acrescentado novos elementos e trazido de volta o francês ao nosso cotidiano. Segundo o Índice de Integração de Migrantes da OIM/IPL (ONU Migração), estima-se que cerca de 200 mil haitianos vivem no Brasil. A comunidade francesa registrada oficialmente é de aproximadamente 30 mil pessoas (conforme a Polícia Federal/Embaixada da França). Essa realidade demanda novas adaptações, sobretudo, no que diz respeito a políticas públicas voltadas aos migrantes. Com isso, outro desafio se impõe, a capacitação de profissionais que dominem o idioma para acolher essa população.

Um projeto interinstitucional que envolve a UEL e outras instituições de ensino superior têm contribuído para elaborar e implementar dispositivos didáticos e ações de formação de professores com foco no ensino de temas transversais relacionados ao meio ambiente e ao multiculturalismo. Além disso, a iniciativa realiza um trabalho de mediação linguística com estudantes haitianos em escolas da rede municipal de Londrina.

Na UEL, a coordenação do E-laborar (CNPq) está sob responsabilidade da professora Suélen Maria Rocha, do curso de Letras-Francês (CLCH).  Esse projeto atua na formação de professores para elaboração de materiais didáticos sobre temas transversais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e discute o multiculturalismo e a educação ambiental. Além da UEL, estão reunidos pesquisadores das Federais de Viçosa (UFV), Paraná (UFPR) e USP.

Coordenadora do projeto Suélen Rocha (Foto: Maycon Rocha)

A equipe possui uma sólida formação teórica e metodológica na atividade docente, com base em contribuições de pesquisadores da França e Brasil como Yves Clot, Daniel Faïta e Anna Rachel Machado. O grupo também se apoia na Engenharia Didática da Escola de Genebra (Suíça), representada pelas pesquisas de Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly, referências internacionais na Didática das Línguas.

Os integrantes do grupo E-laborar reúnem-se mensalmente para leitura e discussão desses temas contemporâneos. Entre os autores estudados estão Ailton Krenak, Lucie Sauvé e Alain Legardez, no campo da educação ambiental, além de Vera Candau, Peter McLaren e Michel Byram, nas reflexões sobre multiculturalismo.

Mediação linguística

Na UEL, o projeto ganhou uma dimensão prática a partir de uma demanda da Gerência de Diversidade da Secretaria Municipal de Educação de Londrina. A universidade passou a atuar em escolas municipais de Ensino Fundamental I para auxiliar no processo de mediação linguística de alunos haitianos que recém chegavam às escolas com pouco ou nenhum domínio do português e, em alguns casos, sem experiência prévia de escolarização.

Segundo a professora Suélen Rocha, as ações se concentram, especialmente, na Escola Municipal Maria Tereza Meleiro Amâncio e na Escola Municipal Anita Garibaldi. O trabalho envolve estudantes do curso de Letras-Francês, que acompanham as crianças em sala de aula, mediando a comunicação entre professor e aluno e entre os próprios colegas. O uso do francês é essencial para esse começo e depois gradualmente ocorre a transição para o português, “isso como uma forma das crianças se sentirem acolhidas e emocionalmente seguras”, diz ela.

Segundo ela o projeto surgiu da necessidade de formação docente e o ensino de temas transversais nas escolas. No entanto, a partir de uma demanda apresentada pela Secretaria de Educação do Munícipio, Suelen vislumbrou uma oportunidade de encaixar formalmente a mediação linguística ao projeto, bem como de desenvolver um trabalho sistemático de análise das experiências vivenciadas no cotidiano escolar pelos estudantes do curso de Letras-Francês. A inserção de estudantes migrantes nas escolas potencializou, ainda, reflexões relacionadas ao multiculturalismo, constituindo, para a docente, o ponto de convergência entre as diferentes dimensões do projeto.  

Paralelo ao trabalho de mediação realizado pelas estudantes de graduação, os relatos de experiência ajudam a pensar sobre a formação docente em um contexto multicultural e plurilíngue. Torna-se fundamental compreender a conjuntura escolar concreta, a fim de promover uma formação docente não idealizada, mas que esteja em sintonia com a realidade, conclui a professora.

Para as discentes que participam do projeto, a vivência experienciada na sala de aula, foi um grande aprendizado para os envolvidos, desde as crianças até os professores da rede municipal. “É uma relação que vai além da parte linguística, envolve questões de afeto, solidariedade e empatia”, conclui Ângela Carolina de Castro Simões, do quarto ano do curso de Letras-Francês.

Para Evelise Martins Pereira do terceiro ano, o trabalho no dia a dia escolar com crianças é mais difícil, por geralmente envolver primeiras experiências de vida delas, “e o desafio se torna ainda maior”, relata. Apesar dos desafios ela conclui dizendo que todo esse trabalho é muito gratificante. Além delas o E-laborar na UEL, conta com mais sete estudantes de graduação do curso de francês e a professora Janaína Jenifer de Sales do Departamento de Letras Estrangeiras e Modernas.

Da esquerda para a direita: profa. Suélen Rocha e as estudantes Evelise Martins e Ângela Simões (Foto: Maycon Rocha)

Outro ponto que o projeto também explora, envolve os relatos produzidos pelos estudantes nas escolas. Esse conjunto de registros, segundo Suélen, futuramente constituirá um importante material de análise para pesquisas desenvolvidas por estudantes de pós-graduação da UEL, sob sua orientação. Estes estudos poderão oferecer possibilidades de aprimoramento da formação docente dentro do contexto multicultural. Ou seja, o projeto que conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq) e tem duração de três anos, deve produzir resultados que subsidiarão novos estudos.

Ao integrar pesquisa, ensino e extensão, o projeto E-laborar vem se consolidando, no contexto da UEL, como uma ação voltada não apenas à formação de professores e à produção de materiais didáticos, mas também ao enfrentamento de desafios concretos do cotidiano escolar, especialmente no acolhimento de alunos migrantes. Ao articular multiculturalismo e mediação linguística, o projeto contribui para a construção de uma educação comprometida com a justiça social, a diversidade e o fortalecimento de uma cidadania crítica e inclusiva, demonstrando o comprometimento da universidade como ferramenta de inclusão e transformação social.

*Estagiário de jornalismo na Coordenadoria de Comunicação Social.

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