UEL desenvolve teste de toxoplasmose em gestantes mais rápido e barato
UEL desenvolve teste de toxoplasmose em gestantes mais rápido e barato
Custos do SUS com diagnósticos para a doença podem cair em até 95% com o novo teste.Uma em cada três pessoas têm infecção por toxoplasmose no Brasil, de acordo com informações do Instituto Adolfo Lutz . Embora seja possível conviver com o parasita Toxoplasma gondii durante a vida toda sem manifestar a doença, quando isso acontece, especialmente em alguns grupos de risco como gestantes e recém-nascidos, o problema passa a ser preocupante.
Um projeto da Universidade Estadual de Londrina (UEL) aborda justamente esses grupos de risco e promete criar soluções para diagnósticos mais rápidos e baratos, com potencial para que os custos para o Sistema Único de Saúde (SUS) caiam em até 95%. Trata-se do projeto “ Toxoplasma Gondii : Simplificar o Diagnóstico de Triagem, Tanto para as Gestantes Como para as Crianças, e Desenvolver Kits a Baixo Custo”, coordenado pelo professor sênior e colaborador do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal (CCA) da UEL, Italmar Teodorico Navarro.
Além do risco de aborto, uma vez transmitida para o bebê pela gestante, a toxoplasmose pode acarretar nos primeiros anos de vida da criança males como hidrocefalia, cegueira, e danos ao sistema cognitivo, como retardo mental. Normalmente, a doença quando manifestada, apresenta sintomas que podem ser confundidos com enfermidades mais brandas, como uma gripe leve. Entre gestantes, o desafio de fazer um diagnóstico preciso da infecção aguda é ainda maior, já que mais de 90% desse tipo de infecção nesse grupo de risco é assintomática.
Detectar a infecção aguda é importante porque é através dela que as chances da mãe transferir a doença para o bebê aumentam significativamente. Segundo o professor Navarro, identificar precocemente a doença no bebê e iniciar o tratamento reduzem as chances da criança desenvolver lesões em 80% a 90%.
Ainda sobre o diagnóstico, entraves logísticos se interpõem à resolução do problema de forma rápida. Os testes são demorados, já que requerem várias etapas, como detecção se a infecção é aguda ou crônica, a fase evolutiva do parasita (que possui três fases), além de peculiaridades próprias do protozoário, pois ele é muito complexo, possui várias proteínas, vários ácidos nucleicos, enquanto, por exemplo, um vírus, como o da Covid-19, possui um só.
Rapidez com baixo custo
Hoje não existe no mundo nenhum teste rápido para diferenciar a infecção aguda da crônica, bem como as diferentes fases do parasita. O kit a ser desenvolvido pelos pesquisadores da UEL promete oferecer essa rapidez a baixíssimo custo. O material utilizado nos testes é o mesmo do usado em exames de várias outras doenças, como gripe e dengue. O que difere são as substâncias inseridas para se fazer as reações em contato com o sangue humano. Essas substâncias são antígenos – um
pool de proteínas específicas do parasita da toxoplasmose – identificados
e selecionados pelo grupo de pesquisa do professor Navarro. Após a interação com o reagente, em minutos se tem uma resposta se a pessoa tem ou não toxoplasmose e se ela está em sua fase aguda ou crônica.

(Foto: André Ridão/ Agência UEL)
Os benefícios econômicos para o SUS com esse novo teste seriam muito bem-vindos. Detectar se a gestante ou o recém-nascido está com a doença é o primeiro passo, mas depois é que vêm as etapas demoradas e caras, com os exames confirmatórios. O kit pretende diminuir significativamente o volume de casos que são repassados para essas fases seguintes à da triagem inicial, funcionando como um filtro para o que é grave (infecção aguda) e o que não é (infecção crônica). Conforme
o pesquisador, o número de gestantes com necessidade de fazer o diagnóstico confirmatório se reduzirá a patamares de 1 a 5%.
Segundo o IBGE, em 2024, cerca de 2,37 milhões de crianças nasceram no Brasil. Se em 95% desses nascimentos as gestantes não precisassem fazer os testes confirmatórios para toxoplasmose, estima-se uma economia considerável para os cofres públicos.
Um teste a baixo custo vem muito a calhar no caso das gestantes. Mesmo que ela testar positivo para infecção crônica e, posteriormente, houver uma queda do sistema imunológico, o quadro poderá evoluir para a fase aguda da doença. Por isso a necessidade do acompanhamento durante todo o pré-natal para monitoração, o que requer mais testes de triagem além do inicial, fazendo com que os custos dobrem ou tripliquem.
Interesse nacional
Órgãos e entidades importantes como Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o Ministério da Saúde (MS) e as Secretarias Municipais e Estaduais já se inteiraram do projeto e acompanham seu desdobramento. “Quando o kit estiver pronto, eles vão ser os atores principais. Primeiramente vão testá-lo nacionalmente para validá-lo e, após isso, colocar à disposição de toda a população em produção em larga escala daqui uns dois ou três anos”, prognostica Italmar Navarro.
O interesse de órgãos e entidades públicas pelo projeto da UEL não é incomum, já que a universidade é referência em toxoplasmose, produzindo protocolos, programas e consultorias sobre o tema ao longo das últimas décadas. Em 2006, foi implantado em Londrina o Programa de Vigilância da Toxoplasmose em Gestantes e Crianças, cujo sucesso o fez migrar para outras cidades do Estado, o que despertou a atenção da Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa) e do Ministério da Saúde, chancelando o programa como referência nacional. Atualmente, os pesquisadores da UEL dão assessoria ao Ministério no isolamento do parasita, diagnóstico, e terapêutica de gestante, além na investigação de surtos.
Sobre a importância do projeto, o professor Italmar Navarro, destaca a sua dimensão humana: “Vida. Se você conseguir diminuir ou evitar a dor de um pai e de uma mãe…Você não tem ideia da dor na alma de um casal com um filho com deficiência, com uma disfunção. A importância é você conseguir evitar a dor de um pai e de uma mãe em relação a um filho que poderia ter uma disfunção pro resto da vida”, comenta.
O projeto faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e foi contemplado na Chamada Pública Nº 18/2024 do Programa Bolsas de Produtividade Pesquisa, também pelo CNPq, e contará com bolsistas de Iniciação Científica, de Mestrado e de Doutorado.
