Diagnóstico tardio de autismo transforma e liberta a vida adulta
Diagnóstico tardio de autismo transforma e liberta a vida adulta
Números crescem exponencialmente. Independente dos laudos, pessoas neurodivergentes merecem respeito e acolhimento.“A impressão que tenho é que antes eu andava completamente no escuro”, diz Jorge (nome fictício) sobre como se sentia antes de ser diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa sensação de jogar luz sobre uma questão que há anos perturba parece ser comum, especialmente entre os autistas diagnosticados tardiamente. Diagnósticos revelados na fase adulta, estão crescendo exponencialmente no mundo. A investigação, que traz entre outros benefícios, uma sensação de libertação, é uma jornada cheia de percalços entre a suspeita de ter o transtorno e o laudo oficializando a condição.
Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), mais especificamente no Núcleo de Acessibilidade (NAC), há dados que corroboram esse aumento dos diagnósticos. Segundo a professora do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento e membro do NAC, Maria Clara de Freitas, em relação ao total de estudantes cadastrados em atendimento ativo no órgão, a porcentagem de autistas subiu de 9% em 2020 para 53% em 2025. Uma das possíveis causas para o aumento de casos a nível mundial pode estar relacionada à diminuição de erros durante o processo de diagnóstico.
Diagnosticar autismo, especialmente em adultos, não é uma tarefa trivial, especialmente porque os sintomas do transtorno, como hiperfoco, rigidez cognitiva e sensibilidade sensorial, precisam ser comprovados que ocorriam no transcorrer da infância, mesmo que o indivíduo os apresente na fase adulta. “Eu pergunto: mas você era assim desde pequeno? Aí o paciente fala: ‘Não, eu fiquei assim depois que minha mãe morreu, eu tive um surto’. Então, não é autismo”, explica a especialista do NAC.
Ainda segundo a professora, para se diagnosticar autismo, seja em crianças ou em adultos, é necessário que haja impacto clínico significativo no dia a dia da pessoa, como, por exemplo, não conseguir se expor a luzes muito fortes ou a barulhos muito altos.
Autista aos 43 anos

Mesmo trabalhando com musicoterapia para crianças com TEA, a cantora Camila Taari só foi se perceber autista bem longe do período normal do diagnóstico, que é na infância. O diagnóstico dela veio aos 43 anos de idade, depois de ter investido tempo e tratamentos psicológicos apostando que o seu caso era de transtorno de personalidade borderline. “Minha psicanalista à época, observou que eu sempre levava às sessões semelhanças da Camila criança com as crianças do meu trabalho, atípicas. Então essa psicóloga me orientou a procurar a psiquiatria, e eis que veio o resultado: autismo e TDAH”, conta.
Certa vez, no meio de um show, a cantora Camila Taari teve que pedir para que pessoas próximas ao palco e que falavam muito alto se distanciassem. “Pedi com jeitinho para que fossem um pouco pra trás se quisessem conversar, pois aquele barulho todo estava me deixando com tontura e náusea. A melhor coisa do diagnóstico foi entender o porquê de eu sentir essas coisas”, relata.
O diagnóstico de Jorge, estudante de um dos cursos da área de Comunicação da UEL, foi ainda mais complicado, apesar dele suspeitar do transtorno desde a adolescência e o diagnóstico ter vindo só aos vinte anos. Até ter sua condição de neurodivergente oficializada, ele encarou alguns psicólogos, fez vários testes e análises e o dardo nunca cravava o centro do alvo. Ouvia dos especialistas que seu caso era de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) ou borderline. “Eu me via como um autista autodeclarado, porque não tinha um diagnóstico mas eu já me percebia dessa forma. Os diagnósticos equivocados me atrapalharam bastante, porque eu tinha sintomas de TOC, mas que não eram suficientes para atestar autismo. E a insistência em borderline bagunçou minha cabeça, até que essa mesma psicóloga percebeu que devia me indicar a um neuropsicólogo”, conta.
Camuflar para se incluir
Outro possível entrave para o diagnóstico é o chamado mascaramento (masking) ou camuflagem, que é um artifício que o autista usa no convívio social para se adaptar a grupos ou a situações sociais, ocultando comportamentos fora dos padrões e até sua personalidade natural. Especialistas especulam que o mascaramento pode retardar o autoconhecimento sobre o autismo, adiando, portanto, a busca por diagnóstico e tratamento. Segundo a professora Freitas, quem adota esse comportamento são autistas sem deficiência intelectual, com bom nível de funcionamento cognitivo, que aprendem a se comportar na sociedade, por mais que não seja isso que gostariam de fazer em determinadas situações. Isso traz um custo emocional muito forte, porque o indivíduo simula comportamentos que não são seus. “Eu costumo dizer aos meus alunos que é uma violência psíquica que você faz com você mesmo por pressões dos outros”.
Jorge acrescenta que o mascaramento pode ser um artifício, mas traz consequências desagradáveis. “Você já se sente muito diferente das pessoas, e aí você quer anular um pouco dessa diferença, quer se sentir pertencente em relação aos demais. Mas o mascaramento é a anulação de si mesmo. É muito triste isso”, afirma. Camila Taari também se camuflou para se adequar aos padrões sociais, e hoje pensa diferente. “Foram anos de exaustão, tristeza e culpa. Hoje respeito minha rigidez cognitiva, minha seletividade, minhas questões sensoriais. Faço o possível para que eu me sinta bem por existir”, comenta. Não raro, o descompasso entre o que se é e o que é mostrado aos outros pode causar outros problemas, como ansiedade e depressão. “O mascaramento realmente leva a questões de saúde mental”, afirma a professora.
Benefícios do diagnóstico
Sejam quais tenham sido os obstáculos para se conseguir o diagnóstico tardio, quando se consegue, um sentimento de alívio toma conta. “Chorei muito, quis acolher a Camila criança que sofreu um bocado. Perdoei meus pais por nunca perceberem”, relata Taari. Na mesma linha de descoberta, Jorge diz que o diagnóstico lhe trouxe a possibilidade de jogar luz sobre si e de se enxergar com muito mais profundidade, clareza e precisão, algo como obter um mapa de si mesmo.
A professora Maria Clara de Freitas relata que a sensação pode ser a de uma peça que se encaixa em um quebra-cabeças. “Eu já vi pessoas falando assim: ‘então eu não era uma pessoa ruim’. O diagnóstico traz um senso de não estar sozinho, de não se achar a única pessoa esquisita do mundo”, completa.

Independentemente da idade na qual é feito o diagnóstico, as pessoas neurodivergentes merecem algo que independe de laudos, de especialistas e de tratamento: respeito e acolhimento. “Conhecer a pessoa, quem ela é e não só o autismo dela. Muitas vezes a gente vê o diagnóstico e não vê a pessoa por trás. Quem é essa pessoa? Ele tem dificuldade com barulho? Ora, pergunta pra ele! É saber quais são as questões da pessoa, como deveríamos fazer com qualquer pessoa. Conhecer a pessoa”, prescreve Freitas.
Sobre os estereótipos que se impõem sobre os autistas, um deles é o de que são pessoas com déficit em comunicação. As histórias da cantora e do estudante de comunicação derrubam esse estereótipo. Ele reclama que, muitas vezes, apenas por se comunicar bem, o julgam como uma pessoa que não seria autista. “Muitos autistas também são superdesenvolvidos para falar, mas ninguém vê o caminho que foi percorrido até ali. Ninguém vê o dia a dia daquela pessoa pra ter essa convicção de que ela não sofre”, diz o estudante.
Autistas na graduação e pós
O NAC disponibiliza o InclusivaMente, grupo de apoio para universitários com autismo oferecido a estudantes de graduação e pós-graduação da UEL sem a necessidade de diagnóstico para participar. O grupo, que é mediado por estagiários de Psicologia, se reúne quinzenalmente, das 12h45 às 13h45 para uma roda de conversa onde são discutidos temas relacionados ao autismo. Quem quiser participar, basta preencher o formulário de inscrição aqui.
Conversas clareiam, trazem conhecimento. Para os adultos sem diagnóstico e que não sabem o que fazer, ou a quem procurar, Jorge aconselha: Independentemente de qualquer diagnóstico, quanto mais sabemos sobre nós mesmos, mais temos qualidade de vida, entendemos como funcionamos e o que nos faz bem”.




