Projeto idealizado por alunos transforma a realidade de vestibulandos de Escolas Públicas
Projeto idealizado por alunos transforma a realidade de vestibulandos de Escolas Públicas
A iniciativa do Departamento de Arquitetura e Urbanismo já alcançou mais de 30 instituições escolares e democratiza o acesso ao ensino superiorNem todos possuem a mesma trajetória até o Vestibular. Para muitos, o caminho se revela desafiador, com informações às vezes desencontradas e erros de avaliação. Um projeto de extensão idealizado e gerido por alunos da Universidade Estadual de Londrina (UEL) pretende iluminar a caminhada até a sonhada vaga, pavimentando a estrada com muita informação e linguagem que faz com que alunos do ensino médio de colégios localizados na periferia da cidade se sintam mais próximos da realidade universitária.
Em 2023 nasceu o Integra UEL, projeto de extensão de Departamento de Arquitetura e Urbanismo/CTU que tem como objetivo desmistificar o acesso à Universidade pública, demostrando, através desse movimento de acolhimento, que uma transformação social é possível. A ideia veio da estudante, hoje do 4º ano, Julia Gabrielly dos Santos que encontrou no professor Ivanóe de Cunto, coordenador do colegiado do curso, o parceiro ideal para colocar o projeto em pé. Após ser idealizado, o Integra UEL passou por um cuidadoso processo de planejamento e documentação que se estendeu até meados de 2024. A proposta central era clara: ir presencialmente até as escolas, principalmente as públicas localizadas em regiões periféricas, para apresentar o Vestibular e demais formas de ingresso, o funcionamento e políticas de permanência da UEL.

Em meados de 2024, a equipe partiu para a execução prática. Desde então, as ações presenciais já impactaram turmas em mais de 30 escolas de Londrina. Para além das palestras informativas, o projeto expandiu suas frentes com o uso estratégico das redes sociais: o perfil do Instagram tornou-se um canal de comunicação de grande visualização, humanizando o atendimento e esclarecendo dúvidas frequentes dos vestibulandos. “Nos orgulhamos do fato do Integra ter sido criado por alunos e abraçada por tantos outros. Hoje estamos mudando vida de adolescentes que normalmente não tem as mesmas oportunidades”, comenta a idealizadora.
Para a estudante, as apresentações nas salas de aula propiciam a absorção das informações sobre o acesso ao ensino superior, em especial. “Além do impacto gerado nos alunos das escolas, o projeto também transforma seus próprios integrantes por meio das experiências vivenciadas. Atualmente, mais de 120 estudantes já participaram da equipe do projeto, contribuindo para sua continuidade com qualidade”, comenta.
Desafios na Prática
A experiência impõe desafios diários. Um deles, é conseguir abertura e acesso direto às salas de aula, algo complicado devido às restrições burocráticas e de horários das próprias instituições de ensino. Além disso, prender a atenção e gerar identificação em jovens inicialmente desmotivados exige criatividade. “Por isso, buscamos constantemente desenvolver estratégias para despertar o interesse. Como contrapartida, uma das maiores conquistas do projeto é justamente conseguir envolver esses estudantes, utilizando uma linguagem próxima da realidade deles e estabelecendo um diálogo que faça sentido para seu cotidiano”, explica Gabrielly.
O objetivo, continua, é promover uma verdadeira troca de experiências e mostrar que o ingresso na universidade pode transformar a vida de cada um e ser conquistado por todos, desmistificando a ideia de que a universidade pública é um espaço elitizado e inalcançável, distante daquelas realidades.

Uma das maiores conquistas práticas consolidadas até agora foi o chamado “Aulão de Desenho”. Voltado para os candidatos que precisam prestar a Prova de Habilidades Específicas (PHE), o simulado preenche uma lacuna histórica: como esse tipo de preparação costuma ser caro e não é ofertado pelo cursinho da instituição (CEPV), o Integra UEL passou a oferecer a simulação de forma totalmente gratuita. No ano passado, a primeira edição do aulão coroou o esforço do grupo, aprovando diversos estudantes que hoje, como calouros da UEL, tornaram-se membros do próprio projeto.
O professor Ivanóe de Cunto revela que foram justamente as Provas de Habilidades Específicas as molas propulsoras do projeto ao explicar para os alunos da periferia como elas acontecem. “Além de Arquitetura, temos alunos de outros cursos com PHE que participam e ajudam aos alunos a entender sobre essas provas. Fizemos ano passado o Aulão sobre essas provas para alunos de cursinho da UEL e pretendemos fazer novamente esse ano, trazendo também alunos interessados dessas escolas da periferia”, diz.
Talvez seja o “Aulão” o que consagra a criação do Integra UEL e a sua continuidade: o projeto nasceu da inquietação de uma futura aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo, vinda da escola pública e sem informações sobre as provas e a Universidade e que hoje, se preparando para a conclusão do curso, continua sonhando junto com outros futuros alunos (e colegas) uma Universidade mais inclusiva e acolhedora.

A Força do Voluntariado
Até o momento, o Integra funciona de forma totalmente independente, sem patrocínios financeiros, sustentando-se exclusivamente pelo trabalho voluntário e cotizações internas. Durante os aulões, por exemplo, os próprios integrantes arrecadam folhas e emprestam materiais pessoais para garantir que nenhum vestibulando seja excluído por vulnerabilidade socioeconômica.
A realidade do projeto, contudo, caminha para um novo patamar de suporte. Uma reunião recente com a Coordenadoria de Processos Seletivos (COPS) e Coordenadoria de Comunicação (COM) garantiu apoio institucional. A expectativa é que, através dessa aproximação com a UEL, o projeto passe a contar com materiais de apoio, impressões e recursos estruturais para ampliar o atendimento à comunidade.

O Impacto Humano
Mais do que números, o projeto é movido a sentimentos e identificação. Esse mesmo sentimento inspirou Kainan Gomes Cardoso a assumir a liderança das ações. Para ele, estar à frente da coordenação agora que a criadora precisa se dedicar à conclusão do curso, traz o desafio complexo de conciliar a rotina acadêmica com a gestão de pessoas, mas o retorno pessoal é imensurável. Ele consegue enxergar no Integra a sua própria história. “Minha entrada na Universidade foi um pouco difícil, demorei pra entender que era a UEL que eu queria, e por isso demorei pra começar a estudar devidamente”, diz. “Se eu puder ajudar eles a escolherem o que querem e começar a lutar por isso o quanto antes, verão que podem conquistar coisas extraordinárias”, reflete. Segundo ele, o retorno positivo dos estudantes serve como o principal combustível para o grupo.
A troca de experiências agrega valor tanto para os profissionais e professores que apoiam a causa quanto para os universitários envolvidos, acelerando a maturidade profissional. No fim, a recompensa do Integra UEL está no retorno voluntário daqueles que foram tocados pelas iniciativas do projeto. Ver o estudante da escola pública ou do Aulão de Desenho ser aprovado e retornar para agradecer é, segundo os voluntários, o que realmente “deixa o coração quentinho” e prova que a Universidade Pública é capaz de cumprir o seu papel social mais nobre.
*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação/UEL – FOTOS: Arquivo Integra




