Projeto visa propor diretrizes para educação linguística no Brasil

Projeto visa propor diretrizes para educação linguística no Brasil

Abordagem será o desafio do ensino da Língua Portuguesa e Inglesa para crianças migrantes internacionais

Quem é professor sabe: ensinar não é fácil. Ensinar uma língua estrangeira a alunos da Educação Infantil também não deve ser das tarefas mais comezinhas. E se o desafio fosse ensinar duas línguas estrangeiras, no caso o Inglês e o Português, para crianças migrantes internacionais em escolas brasileiras? A missão se torna ainda mais complicada se considerarmos que muitos professores não têm a capacitação necessária para esse tipo de ensino, nem mesmo materiais didáticos adequados.

O projeto “Diretrizes Curriculares para Educação Linguística Intercultural em Línguas Adicionais com Crianças Migrantes na e para a Educação Básica Brasileira”, coordenado pela professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, do CLCH, Juliana Reichert Assunção Tonelli, pretende criar propostas de intervenção, conjuntamente com professores de todo o país, visando sanar esses desafios presentes nas salas de aula brasileiras.

Não é de hoje que o Brasil recebe grandes contingentes de migrantes internacionais, principalmente os do fluxo Sul-Sul (dos países em desenvolvimento, também chamado Sul-Global). Entre os vários desafios que o Poder Público enfrenta para acolher com dignidade e garantir os direitos dessas pessoas está o de oferecer educação, especialmente para os filhos dos migrantes internacionais. Mas o pressuposto para reivindicar e exercer direitos é que não haja barreiras para isso, principalmente as da língua.

A questão não é só ensinar o Português, a língua de acolhimento, mas também o Inglês, língua adicional e obrigatória a partir do 6º ano do Ensino Fundamental, segundo as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), podendo cada estado da federação estabelecer a regra para anos anteriores. O problema é ensinar essas duas línguas, num contexto em que salas de aula possuam migrantes internacionais – matriculados nos anos iniciais da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) –, cuja língua originária e cultura específicas devam ser consideradas num contexto de educação plurilinguística e multicultural.

Professora Juliana Reichert Assunção Tonelli: “Projeto amplo, com diretrizes e formas de avaliação”.

A coordenadora do projeto diz que seus resultados serão submetidos ao Ministério da Educação (MEC), visando contribuir para a construção de diretrizes educacionais. “Nós estamos percebendo que o sistema educacional brasileiro não está preparado para receber essas crianças. Não temos nenhum tipo de documento, de resolução, nada que oriente o que fazer com elas. O projeto pretende construir algo mais amplo, nacional, diretrizes mesmo, desde a questão de acolhimento da criança na matrícula até as formas de avaliação”, afirma a professora.

Ainda segundo a professora, o projeto tem apelo fortemente intercultural, já que, segundo ela, nos últimos anos, tem aumentado muito o número de cursos de inglês no país nos primeiros anos do Ensino Fundamental, paralelamente ao também atual fenômeno social de recrudescimento das migrações internacionais. “Os professores estão literalmente perdidos. Temos salas de aula nas quais estamos ensinando Inglês para várias nacionalidades. E nós, professores de inglês, não fomos preparados para entrar numa sala com vários idiomas”, exemplifica. De acordo com Juliana Tonelli, há escolas com crianças de várias nacionalidades, totalizando 27 idiomas diferentes.

Conforme a coordenadora do projeto, a questão cultural é fundamental para ser considerada no ensino, seja da língua de acolhimento, seja da adicional, especialmente com crianças, porque elas trazem um contexto cultural muito específico dos seus países de origem que deve ser considerado. “Quando falamos em cultura, consideramos várias nuances, até na merenda, porque tem certos alimentos que essas crianças rejeitam, até por questões religiosas. Isso causa um impacto cultural nos professores, que não sabem como proceder”, explica.

A inadaptação da criança migrante internacional tangencia várias situações, além da cultura. Muitas vezes, elas são trazidas pelos pais ainda muito pequenas, o que dificulta o entendimento sobre a nova realidade. “Há um termo que utilizamos, que é ‘bilíngues forçados’, porque essas crianças não foram consultadas se gostariam de mudar de país. E aí, elas vêm com a família, muitas vezes sem entender o que está acontecendo”, relata Juliana Tonelli.

Professores com dúvidas

Da parte dos professores, outras barreiras se instalam. Não é incomum, por exemplo, noções equivocadas na hora de ensinar crianças imigrantes. Prevalece o mito de que para ensinar uma nova língua é necessário antes aprender o idioma de origem, e os professores acabam desistindo ou criando obstáculos.

Outra questão levantada por Tonelli é a visão também equivocada por parte de muitos docentes de que as crianças precisam primeiro aprender português para só então aprender inglês, quando o ideal seria aprenderem as duas línguas juntas. “Isso se chama monolinguismo, a ideia de que primeiro aprendo uma língua, depois aprendo outra. Mas a nossa cabeça não funciona assim. Por que não aproveitamos essas várias nacionalidades, culturas e línguas diferentes para promover um plurilinguismo em sala de aula? Por ser um contexto novo, ainda não temos professores com formação para isso”, avalia.

Apagamento cultural – Nesse sentido, uma das preocupações do projeto é evitar o apagamento cultural, que acontece quando a língua de origem da criança é desprezada ou ignorada, favorecendo a supervalorização do inglês, por exemplo. “Será que é só o inglês que é importante? Será que outras línguas que já estão nas nossas salas de aula não são também igualmente importantes e deveriam ser valorizadas?”, aponta.

Outra dúvida comum é quando o professor se depara com crianças migrantes internacionais que ainda não foram alfabetizadas em sua língua de origem. “Geralmente, os professores têm muita dúvida. Quando chegam crianças ainda não letradas e não alfabetizadas, eles ficam se questionando se vão alfabetizá-las no português ou no inglês”, diz a professora.


Ensinar como ensinar

O projeto vai se debruçar sobre todas esses desafios, e para isso proporá a realização de um curso de formação inicial e continuada de docentes de várias cidades do país. Eles serão recrutados através de contatos com secretarias municipais de educação, e a concepção do curso se baseará na abordagem da pesquisa crítico-colaborativa, na qual os participantes formatam o curso durante sua realização, com cada integrante dando sua contribuição através das experiências que trouxerem do trabalho com crianças migrantes internacionais. “Nem os temas são definidos a priori. São os próprios professores que vão nos dizer o que faremos, se teremos workshops, oficinas, então nada é levado pronto”, detalha.

A necessidade do curso se impõe porque são raros os cursos de licenciatura em Letras que se ocupam da escolarização na Educação Infantil, embora haja, desde 2020, com a publicação do Parecer 02/2020 do Conselho Nacional de Educação (CNE), a indicação para a modernização desses cursos com vistas a atender às demandas de uma educação bi, multi e plurilíngue. O curso conterá participantes de cidades da Região Sul, Sudeste e Nordeste do país, como forma de abarcar diferentes realidades nas quais estão inseridas crianças migrantes internacionais.

Nos primeiros contatos com as secretarias municipais, notou-se uma demanda por materiais para o ensino das línguas Portuguesa e Inglesa numa perspectiva intercultural. E criar esses materiais didáticos também é um dos objetivos do projeto. “Nós praticamente não temos no Brasil materiais didáticos para o ensino de Português como língua de acolhimento”, afirma a professora.

Ainda segundo Juliana Tonelli, a confecção de um arcabouço de regras como diretrizes nacionais é importante porque traria homogeneização para o ensino dessas crianças nas escolas brasileiras. “Essas crianças não se estabelecem por muito tempo num lugar. Entram numa escola e depois saem, vão para outra cidade. Uma das dificuldades que os professores relatam é não conseguirem fazer um trabalho contínuo”, comenta, salientando que vários dos problemas relacionados ao tema decorrem justamente da ausência de diretrizes.

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