Projeto elabora Atlas dos Territórios Vulneráveis da zona sul de Londrina

Projeto elabora Atlas dos Territórios Vulneráveis da zona sul de Londrina

É a segunda vez que a professora consegue a Bolsa do CNPq, e no projeto anterior (2023-2026) ela mapeou a zona norte de Londrina

A professora Ideni Terezinha Antonello, docente do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO), tem uma longa trajetória de estudos e produção científica na área de Planejamento Urbano, tendo atuado desde a orientação de pesquisas acadêmicas até no Plano Diretor de Londrina e na análise de comunidades, bairros e ocupações urbanas, além de integrar uma rede latino-americana de pesquisadores.

Ela foi uma das contempladas com Bolsa Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e vai elaborar um atlas diferente de Londrina: um que mostra os territórios vulneráveis da zona sul da cidade. É a segunda vez que a professora consegue a bolsa, e no projeto anterior (2023-2026) ela mapeou a zona norte de Londrina.

Longe de ser um conjunto de mapas com as características físicas da região em foco, o atlas se baseia em outras metodologias e conceitos para ser construído. Quando se fala em “território”, por exemplo, não se trata simplesmente de uma porção delimitada de espaço geográfico, mas de um espaço vivido, onde pessoas habitam e ocupam em todas as suas dimensões: social, econômica, cultural, religiosa, e sim, física também. Em Londrina, informa Ideni, a maioria das favelas está em fundos de vale, ou seja, existem num declive, o que acentua certos problemas, como os efeitos das chuvas. Ela já publicou artigos sobre a realidade londrinense e nacional, este em Portugal.

Já o conceito de “vulneráveis” vem da condição em que essas pessoas vivem – sem serviços públicos como saneamento básico, pavimentação, coleta de lixo, policiamento, unidades de saúde, iluminação pública… enfim sem estrutura técnica e social. Apesar de tudo isso, ou melhor, de nada disso existir, as pessoas acabam criando um vínculo entre si e com o lugar, e o defendem contra quaisquer forças que se oponham a eles.

Estes laços de solidariedade repercutem até na cultura local, a exemplo dos moradores do Nossa Senhora Aparecida, na zona norte, que se unem para fornecer periodicamente um sopão aos mais necessitados. Segundo a pesquisa, o “Aparecidinha”, como é conhecido, é um caso emblemático. Para o Estado, ele é uma “ocupação irregular”, mas que agora está em processo de regulamentação. É bom assinalar que lá vivem cerca de 680 famílias. De fato, o último estudo revelou 67 “ocupações irregulares” na área urbana de Londrina, dos quais 17 estão em processo de regularização.

Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tais locais eram chamados de favelas ou “aglomerados subnormais”, conceito incômodo que a professora Ideni rejeitou, adotando o termo mais apropriado “vulneráveis”. E a vulnerabilidade maior, já comprovada, é justamente o déficit habitacional – o que não significa apenas falta de teto ou de casa própria, mas de toda a infra-estrutura que deve acompanhá-la.

Professora Ideni Antonello: a vulnerabilidade muitas vezes gera resistência, apoiada na solidariedade
e no sentimento de pertencimento (Foto: André Ridão)

Diagnóstico

A elaboração do atlas servirá, no futuro próximo, como um diagnóstico da situação da região, apontando as necessidades da população baseadas na observação da realidade e na percepção dos moradores, que são ouvidos no projeto. Com isso, será possível investir nas políticas públicas necessárias e elaborar um planejamento urbano inclusivo. Como base científica, a pesquisadora utiliza o conceito de Ciência Popular, respeitando os diversos saberes envolvidos e chamando todos para um diálogo. Entra também a IPA – Investigação de Ação Participativa, com base em Orlando Fars Borda.

Esta ideia reflete o título de uma obra do professor argentino Horacio Bozzano, da Universidad Nacional de La Plata (UNLP), intitulado “Territorios reales, territorios pensados, territorios posibles”. Referência em Epistemologia da Geografia, espaçamento periurbano e inteligência territorial, o geógrafo é uma das bases teórico-metodológicas do projeto da professora Ideni, chamado Método Territorii. Já o objetivo último é criar um território justo e inteligente.

Os alicerces dos estudos de Ideni não param por aí. No primeiro projeto, do atlas da zona norte, ela contou também com a colaboração de Caio Cezar Cunha, que fez seu Doutorado e Pós-Doutorado em Geografia na UEL, e utilizou o conceito de ‘atlas afetivo’, que envolve expressões de estima das pessoas em relação aos seus lugares de vida e a vontade de agir delas frente a situações de precariedade, entre outros aspectos.

Um ponto importante dentro deste conceito é que a vulnerabilidade muitas vezes gera resistência, apoiada na solidariedade e no sentimento de pertencimento. Exemplo disso é o Flores do Campo, ocupação também da zona norte onde vivem 600 famílias cadastradas oficialmente, mas que pode estar abrigando muitas centenas mais de pessoas. E um detalhe: a maioria é de origem venezuelana. “O local já está sendo chamado por alguns de Pequena Venezuela”, anota a professora Ideni.

Rede de pesquisadores

A professora faz parte ainda do RECIME, uma rede de pesquisa entre universidades que investiga diferenças e potencialidades das cidades médias na América Latina, África e Europa.

O projeto da professora Ideni se encaixa diretamente em três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas: o 6 (água limpa e saneamento), o 10 (redução de desigualdades) e o 11 (cidades e comunidades sustentáveis). Mas a pesquisadora observa que a própria ONU está revendo estes objetivos, diante das novas realidades e desafios, assim como revê o próprio conceito de “favela”.

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