Projeto analisa conceitos da documentação museológica de museus brasileiros e italianos
Projeto analisa conceitos da documentação museológica de museus brasileiros e italianos
Objetivo é propor um modelo conceitual mais contextualizado e socialmente situado que evite invisibilizar culturas e narrativasAlém de conservar e expor, os museus têm por função interpretar objetos históricos e culturais e essa interpretação pode ser vista nas escolhas dos conceitos presentes na documentação museológica. Mas o quanto dessas escolhas possuem fidedigna correlação com a realidade, com o contexto social e cultural, e o quanto podem transmitir e perpetuar restritas visões de mundo, ideologias ou ideias hegemônicas? Estas e outras indagações são instigadas pelo projeto “Da Crítica à Proposição de Modelos Conceituais no Contexto de Museus Brasileiros e Italianos”, coordenado pela professora do Departamento de Ciência da Informação, Ana Cristina de Albuquerque.
A professora parte da concepção, aventada em projeto anterior, de que os museus europeus influenciavam a confecção dos produtos da documentação museológica (inventários, livros tombo, fichas, catálogos, etc.) em museus brasileiros, na maneira de classificar, de alocar os artefatos, de ver os objetos. “Sempre se olhava com um olhar estrangeiro sem valorizar a nossa cultura, os nossos conceitos, as nossas histórias”, explica. A partir dessa constatação, o projeto atual propõe um modelo conceitual capaz de subsidiar sistemas de organização do conhecimento mais sensíveis, contextualizados e socialmente situados.
A professora dá um exemplo sobre a contextualização proposta na confecção dos conceitos dos produtos museológicos em seu aspecto temporal. A tatuagem antigamente era considerada coisa de criminosos e hoje em dia se popularizou e alcançou o status de arte. Ana Albuquerque cita o pensador Cesare Lombroso que relacionava o criminoso com características morfológicas, teoria que teria influenciado museus, especialmente na América Latina, a partir de conceitos que se cristalizaram não só nas instituições mas também na vida social. Segundo a professora, esses conceitos já foram refutados pela Ciência, mas continuam no imaginário da população. “Como podemos, através desses próprios conceitos, desconstruir isso e fazer uma relação classificatória mais coerente com o nosso tempo?”, indaga, discorrendo sobre um dos objetivos do projeto que pretende estudar a documentação museológica como ação que documenta, preserva e produz narrativas históricas, através dos conceitos nela dispostos.
Ana Albuquerque dá um outro exemplo de como os produtos da documentação museológica precisam estar mais contextualizados com as mudanças na sociedade, apontando as transformações ocorridas ao longo do tempo sobre o comportamento sexual. “Uma menina que está se descobrindo lésbica e quer procurar informação sobre o que é ser lésbica, pode ir a um museu e se deparar com um guia com palavras ou classificações preconceituosas. Até hoje, na documentação de bibliotecas, podemos encontrar a Classificação Decimal de Melvil Dewey, que relaciona homossexualidade a doença”, comenta, citando o bibliotecário que criou esse sistema classificatório. A professora diz que isso pode ser repensado contextualizando a informação, colocando notas explicativas, referências, áudios, imagens que contrapõem e refutam as definições preconceituosas e que isso é um exemplo do que um modelo conceitual relacional pode possibilitar a partir das representações dispostas nestes ambientes informacionais.

Ainda segundo a professora, os produtos da documentação museológica podem invisibilizar culturas como, por exemplo, a indígena, que, até hoje tem representações insuficientes ou mesmo inexistentes em bibliotecas, arquivos e museus. “Muitos museus já estão repensando isso, fazendo novas representações, mas é preciso ouvir essas pessoas, trazer o sujeito dono de sua cultura para falar sobre ela e nos ensinar. O ato de classificar e consequentemente representar ainda mantém o olhar do colonizador, ou catálogos sobre pessoas negras ou documentações específicas contendo nomeações como ‘pretos’, ‘pretinho’, mulatinho’ sem contextualizar, sem historicizar”, diz a professora. Ela menciona as relações de poder que a documentação museológica pode expressar em determinados locais. “Se você vai a museus municipais, percebe a história da pessoa que tem dinheiro na cidade, do fundador, mas não vê a história de quem construiu as cidades”, complementa.
Uma importante base teórica da qual o projeto parte é a de que os produtos de documentação museológica não são neutros, teoria defendida pela pesquisadora Hannah Turner. Ela defende que esses registros não são elaborações neutras, pois refletem ideologias, valores e contextos históricos específicos responsáveis pela perpetuação de legados coloniais que silenciam narrativas.
Isso é mais visível no contexto histórico-político. Ana Albuquerque lembra que, nos anos 30 estava em voga no Brasil o Integralismo, corrente política de extrema-direita ligada ao fascismo que eclodia na Europa. Ela conta que nesse período o primeiro diretor do Museu Histórico Nacional (MHN) foi Gustavo Barroso, um notório integralista e eugenista que moldou os padrões da museologia no Brasil à época. “Foi um contexto político influenciado. Na década de 30, havia a ascensão do fascismo e do nazismo. O padrão de obra de arte eram as artes clássicas”, diz a professora exemplificando como o contexto político pode influenciar a arte e a documentação museológica que a cataloga, descreve e interpreta. “Por trás da elaboração do documento museológico, existe uma pessoa com as suas tradições, convicções, conceitos e preconceitos. Então é preciso que essa documentação seja mais socialmente situada, sensível à nossa diversidade e crítica”, complementa a pesquisadora.
Sobre a metodologia, o projeto vai analisar dez museus, cinco brasileiros e cinco italianos. Os critérios para a escolha dos museus foram ter coleções antropológicas e similares nas tipologias e conceitos para possibilitar comparações das documentações.
Ana Albuquerque faz uma analogia do trabalho dos museus com o Jornalismo, ao mencionar que ambos precisam ser criticos: “Assim como no Jornalismo, quem trabalha com informação precisa ter criticidade, conhecer a sua comunidade, o ambiente, conhecer para quem vai ser oferecida aquela informação. Isso é fundamental para criar modelos de mundo, que são esses modelos conceituais, e para que sejam mais coerentes, mais contextualizados e mais democráticos. Se nós conseguirmos trabalhar com as injustiças sociais, com informações mais democráticas e teorizar a partir desses conceitos arraigados, já será uma grande vitória”, deseja.
O projeto foi recentemente contemplado na Chamada Nº 23/2025 Bolsa Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), na modalidade Bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ).




