UEL entrega título de Doutor Honoris Causa a Dom Luiz Fernando Lisboa

UEL entrega título de Doutor Honoris Causa a Dom Luiz Fernando Lisboa

Religioso destacou-se pela defesa do povo de Moçambique e pelo esforço junto ao Vaticano do reconhecimento da guerra civil no país

Na próxima terça-feira (15), será entregue o título de Doutor Honoris Causa ao Arcebispo-bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES), Dom Luiz Fernando Lisboa. O evento será realizado no Anfiteatro Cyro Grossi, do Centro de Ciências Biológicas (CCB), em homenagem ao trabalho do religioso em defesa da população de Moçambique (África). A entrega do título faz parte da programação da “Primeira Jornada Africana: Afluentes da Memória – Onde as Águas Banham, Deságuam e Ecoam na UEL”.

A honraria foi proposta pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) por meio do professor Jefferson Olivatto da Silva do Departamento de Psicologia Social e Institucional e aprovada pelo Conselho Universitário (CU).

Não é de hoje que a população moçambicana sofre com conflitos bélicos no país. Por conta de desdobramentos do processo de independência (1975), a ex-colônia portuguesa conflagrou-se em guerra civil entre 1977 e 1992. E neste século, em 2010, o cenário beligerante ressurgiu com novas causas e componentes, pois, neste ano, foram descobertas jazidas de petróleo e de gás natural no Norte do país, na Província de Cabo Delgado, uma região na qual já havia reservas de ouro e rubi.

A descoberta, segundo Jefferson Olivatto, teria atraído o interesse de grandes empresas estrangeiras na exploração dessas riquezas minerais, que teriam contratado milícias armadas – entre elas, o Grupo Wagner, organização mercenária e paramilitar russa – para expulsar os moradores nativos da região, iniciando efetivamente conflito em 2017. Ainda segundo o professor, o governo de Moçambique alegava que os conflitos e desterros eram causados por grupos rebeldes, entre os quais alguns de origem islâmica, conferindo então um componente religioso à questão.

Dom Luiz Fernando Lisboa (FOTO: Arquivo CNBB)

De fato, havia e ainda há conflitos religiosos no país, cujos protagonistas incluem os grupos fundamentalistas Talibã e Boko Haram, mas, segundo o professor Jefferson, a religião foi usada para consolidar a posição do governo moçambicano de negar a existência de uma guerra civil. Esse reconhecimento pela comunidade internacional facilitaria a chegada de ajuda humanitária à população, o que foi conseguido por intermédio de Dom Luiz Fernando Lisboa, que denunciou a crise ao Vaticano, que levou o caso aos órgãos representativos da comunidade internacional. “Essa situação se torna tão desproporcional, que hoje ocorre em Moçambique o terceiro maior deslocamento populacional do mundo por conta de guerra. E o governo local continua declarando que isso não tem nenhuma relação com guerra civil, que são conflitos isolados”, explica o professor. O conflito em Moçambique já deslocou mais de 1,3 milhão de pessoas.

Processo “por causa de honra”

O processo de tramitação para a concessão do título de Doutor Honoris Causa (tradução do latim: “por causa de honra”) a Dom Luiz Fernando Lisboa iniciou-se há dois anos e foi concluído recentemente. Entre outros embasamentos, o dossiê do processo foi composto por 62 cartas de apoio de personalidades, autoridades eclesiásticas e instituições brasileiras, portuguesas e moçambicanas, entre as quais, mães e pais de santo de Londrina, Curitiba e de São Paulo, além do Movimento Negro da cidade.

Segundo o Estatuto da UEL, o título pode ser concedido às personalidades científicas nacionais ou estrangeiras, que tenham contribuído, de modo notável, para o progresso das ciências, letras ou artes, ou ainda aos que tenham beneficiado de forma excepcional à humanidade, ao país ou prestado relevantes serviços à Universidade. O processo foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Universitário da UEL. “Dom Luiz, por já ter uma tradição de Comunidades Eclesiais de Base, tem uma perspectiva de Igreja do povo, então ele começa a lutar em prol dessas pessoas. E uma das formas significativas foi ter conseguido que Roma reconhecesse a guerra civil. Após o reconhecimento, a ajuda humanitária começa a chegar”, relata Jefferson Olivatto.

Dom Luiz Fernando Lisboa (ao centro) com representantes de países em conflitos pela extração de recursos naturais

Ainda segundo o professor, Dom Luiz Fernando teve que deixar Moçambique devido a ameaças de morte que recebeu por conta de sua atuação em defesa da população. “E aí, para não deixar isso cair no esquecimento, nós nos mobilizamos num grupo internacional composto de brasileiros, portugueses e moçambicanos, para dar esse título e conferir visibilidade ao sofrimento do povo de lá”, sintetiza o professor. O grupo a que o professor se refere é encabeçado pela professora Patrícia Teixeira Santos, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), multinacional e constituído por pesquisadores que estudam história africana.

Breve histórico
(Divulgação)

Dom Luiz Fernando viveu em Moçambique entre 2001 e 2021, com uma curta interrupção por conta de um retorno ao Brasil para fazer seu Mestrado em Teologia em Curitiba, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Em 2013, de volta a Moçambique, o religioso é indicado pelo Papa Francisco como Bispo de Pemba, capital da Província de Cabo Delgado, cargo que exerceu até 2021. Nesse mesmo ano, assume o posto de Arcebipo-Bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Em 2024, participa de reunião dos bispos católicos em países com conflito em Acra (Gana). Na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, seu ministério episcopal é pautado pela atenção aos pobres e pelo trabalho em favor da justiça social e da dignidade humana.

Jornada – A “Primeira Jornada Africana: Afluentes da Memória – Onde as Águas Banham, Deságuam e Ecoam na UEL” ocorrerá na Universidade no próximo dia 14 de setembro, no Anfiteatro Maior do Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH); e no dia 15 no Auditório Cyro Grossi (CCB).

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