Conhecimento “pra fora da porteira”

Conhecimento “pra fora da porteira”

Projeto de extensão produz podcast para informar e desmistificar temas sobre a agropecuária


Alternativa A) Não se deve comer frango porque possui muitos hormônios; Alternativa B) Leite faz mal à saúde; Alternativa C) Carne de porco é muito gordurosa e, portanto, prejudicial ao sistema cardiovascular; Alternativa D) Deve-se lavar a carne antes de cozinhá-la; E) Todas as alternativas anteriores são falsas ou não são verdades absolutas. Se você escolheu a alternativa E, parabéns!, você está bem informado. Mas muita gente ainda tem ideias retrógradas e equivocadas sobre vários aspectos que envolvem o setor agropecuário brasileiro. Para desmistificar tais visões, professores e estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolvem o projeto “Zootcast – Pra Fora da Porteira: Difusão de Conhecimento Científico Sobre a Agropecuária Brasileira”, coordenado pela professora do Departamento de Zootecnia, Sandra Maria Simonelli.

O Zootcast é um projeto de extensão que une estudantes, docentes e especialistas sobre agropecuária em bate-papos por meio de podcasts com o objetivo de realizar ações de comunicação rural e difusão de assuntos relacionados ao segmento agropecuário em uma linguagem acessível a toda população. “A ideia é levar informações corretas e científicas sobre produção e sanidade animal para a comunidade em uma linguagem não acadêmica. Nós queremos levar a informação de dentro da porteira para fora da porteira”, diz Sandra Simonelli.

Os podcasts têm duração de cerca de 40 minutos e foram produzidos por alunos dos cursos de Zootecnia com apoio de estudantes de Medicina Veterinária e de Jornalismo, utilizando os estúdios da Rádio UEL FM (107,9). A apresentação fica por conta de dois estudantes, que se revezam durante os episódios, acompanhados por um professor. Eles entrevistam um convidado, que pode ser um professor, um pesquisador ou um especialista no tema, não necessariamente vinculado à UEL. Voltado para a população em geral e também para alunos, técnicos e docentes da UEL, os programas são veiculados no Spotify e replicados em redes sociais do curso de Zootecnia. Durante o programa, é exibido um quadro chamado CurioZoo, que traz curiosidades relacionadas ao tema discutido no podcast. “É uma dúvida relacionada ao cotidiano, do tipo ‘eu posso lavar carne antes de consumir?’”.

Os professores Rafael Humberto Carvalho e Alexandre Oba são entrevistados pelos estudantes nos estúdios da Rádio UEL para o episódio sobre avicultura (Foto: Geovana Sartori)

Como não poderia deixar de ser, o conteúdo dos podcasts foca em temas do setor agropecuário em diversos ramos, como suinocultura, avicultura, nutrição para pets, forragem, bicho-da-seda entre outros, sempre trazendo informações curiosas e também desmistificadoras: “Nós ouvimos muitas informações errôneas na sociedade. Por exemplo, carne de porco é gordurosa e faz mal. Não faz mal. O suíno mudou, é uma carne altamente proteica, quase livre de gordura”, afirma Sandra Simonelli. A professora ainda comenta outro exemplo de mito que é rebatido nos podcasts, o de que a carne de frango é perigosa por conter muito hormônio: “Como vai ter hormônio na carne de frango se o Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo? Você acha que a Europa e a China comprariam de nós se tivesse hormônio? Hoje há um trabalho árduo focado em nutrição, genética e sanidade nesse setor”, afirma a coordenadora do projeto.

Dentre os episódios já produzidos, Sandra Simonelli destaca o primeiro com o tema suinocultura. O programa mostra como a produção animal atual é diferenciada. Uma dessas peculiaridades diz respeito à maneira de tratar o animal. Seguindo o conceito de bem-estar animal, são preconizadas cinco liberdades. O animal precisa ser livre de fome e sede, de desconforto, de dor e sofrimento, de medo e estresse e livre para demonstrar seu comportamento natural. “Hoje na suinocultura se usa até brinquedos para os suínos, porque, quando filhotes, eles se mordem, então colocam-se esses brinquedos de borracha para eles mordiscarem”, relata a professora. O convidado desse programa foi o especialista em saúde e bem-estar animal, Cleandro Dias.

Questionada sobre o que o agronegócio precisa comunicar mais à sociedade brasileira que ainda não foi comunicado, a professora responde que informações sobre o consumo de carne, ovos e leite precisam de uma melhor atenção e cita o que, segundo ela, é outro mito: o de que carne crua não pode ser consumida em hipótese alguma. “A carne realmente pode ser um veículo de transmissão de doença, mas se ela tiver uma boa procedência, vier de frigoríficos fiscalizados e for consumida com parcimônia, não há problema”, diz.

A professora comenta também que há muita desinformação sobre o setor do agronegócio e que os formadores de opinião deveriam se inteirar mais sobre o setor para informar melhor a sociedade. “Sem o agronegócio, o Brasil não teria a qualidade de vida que temos. Nós aqui temos carne em fartura, o que não há em outros países e de forma barata. Se quero economizar, posso deixar de comer carne de boi e consumir frango ou linguiça, por exemplo. Outros países não têm essa opção”, explica Sandra Simonelli e acrescenta que o agronegócio dá a oportunidade do brasileiro consumir proteína de alto valor biológico, como a de carne de porco. “Então é preciso desmistificar o agronegócio como um vilão. A agropecuária não é vilã, é uma heroína”, complementa.

Professora Sandra Maria Simonelli: “Hoje na suinocultura se usa até brinquedos para os suínos, porque, quando filhotes, eles se mordem, então colocam-se esses brinquedos de borracha para eles mordiscarem”. (Foto: Agência UEL)

A professora destaca uma outra importância do projeto, relacionada à formação dos estudantes. Há a preocupação de treinar os alunos de Zootecnia para que eles aprendam a falar com a comunidade, deixando de lado o academicismo e interagindo de forma mais coloquial. “O linguajar é um treinamento para o nosso aluno, para que ele fique apto a falar com todo tipo de pessoa. Isso vai contribuir lá no futuro quando ele for um profissional”, avalia Sandra Simonelli. Ainda segundo a professora, o projeto serve também como estímulo para que os estudantes não desistam do curso. “No primeiro ano do curso de Zootecnia, os alunos se deparam com matérias difíceis como Matemática, Química e Física. Então, no segundo ano, o projeto dá esse ânimo, já que mexer com rádio, editar, fazer entrevista, todos eles gostam”, comenta.

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