O poder dos pequenos movimentos
O poder dos pequenos movimentos
Liderada pelo professor Fabio Pitta, pesquisa investiga como uma transição gradual no esforço físico pode devolver a qualidade de vida a pacientes com doença respiratória crônicaA Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) impõe uma rotina limitante a seus portadores, causada principalmente pela resposta permanente das vias aéreas ao contato com substâncias nocivas, com o tabagismo respondendo por pelo menos 80% dos casos. Além dos sintomas respiratórios característicos, como tosse e falta de ar, os pacientes enfrentam frequentemente um grave descondicionamento físico e fraqueza muscular.
Antigamente a condição era chamada de enfisema ou de bronquite crônica, uma doença muito comum em idosos que fumaram muito ou tiveram contato intenso, por muitos anos, com outras partículas nocivas como fumaça de fogões a lenha ou até mesmo a poluição. Como resultado, pessoas afetadas encontram dificuldades na execução de tarefas do cotidiano, o que leva ao sedentarismo extremo e, em muitos casos, à restrição social e necessidade de oxigênio suplementar.
O sedentarismo na DPOC age como um mecanismo adicional implacável. “Além disso, os pacientes se tornam parte de um círculo vicioso, em que quanto mais sintomas eles têm, mais sedentários eles ficam, e o sedentarismo os torna ainda mais sintomáticos, e assim sucessivamente em uma espiral negativa”, explica o professor Fabio Pitta, do Departamento de Fisioterapia (CCS) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), contemplado com o Bolsa Produtividade do CNPq. O fomento busca valorizar docentes que possuam produção científica, tecnológica e de inovação de destaque nacional e internacional.

Pitta explica que embora os sintomas mais reconhecidos sejam os respiratórios, como a falta de ar e a tosse, outros sintomas mais gerais também acontecem com frequência, como a falta de condicionamento físico e o enfraquecimento dos músculos. “É aí que entra o sedentarismo. Por esses pacientes terem muitas dificuldades em sua vida diária por causa dessas características da doença, acabam se tornando pouco ativos fisicamente”.
Essa inatividade física contínua gera prejuízos profundos na qualidade de vida, transforma tarefas rotineiras em grandes obstáculos e exige, muitas vezes, o uso de oxigênio suplementar em casa ou em deslocamentos, o que restringe ainda mais o convívio social dos indivíduos. Dessa forma, o sedentarismo instala um ciclo prejudicial à saúde, em adição à doença já em curso.
Um passo de cada vez
Para combater essa combinação de fatores prejudiciais à saúde, a indicação tradicional costuma ser o encaminhamento dos pacientes para programas de treinamento físico. No entanto, os estudos apontam que a exigência de um esforço de intensidade pelo menos moderada, logo no início do tratamento, pode desencorajar os indivíduos.
“Muitas vezes esses programas se iniciam em uma intensidade difícil para o paciente, pois muitos não têm condições de realizar exercícios em intensidade pelo menos moderada, o que faz que eles não se sintam aptos a realizar exercícios como um todo”, aponta Pitta. Diante dessa barreira, o projeto desenvolvido na UEL propõe uma estratégia fundamentada em uma transição gradual, colocando as atividades físicas leves como um passo inicial.
A proposta é não começar as atividades físicas diretamente numa intensidade moderada ou intensa, mas sim fazer uma transição inicial para um aumento das atividades de leve intensidade. “Isso serviria como um passo intermediário, pois após o aumento das atividades físicas leves, esses pacientes podem ganhar mais confiança e capacidade para realizar atividades mais moderadas e intensas, retornando gradualmente a uma vida um pouco mais ativa e produtiva”, explica Pitta.
A pesquisa se encontra em desenvolvimento e é dividida em duas fases. A primeira etapa testou o programa propriamente dito e apresentou resultados promissores. Atualmente, o estudo inicia a segunda fase, focada no acompanhamento a longo prazo (um follow-up de 12 meses) para verificar a sustentabilidade das mudanças comportamentais. As duas fases da pesquisa estão diretamente vinculadas às teses de Doutorado de duas orientandas do professor, Thaís Tofoli e Amanda Pucca, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. As equipes de pesquisa do Laboratório de Pesquisa em Fisioterapia Pulmonar (LFIP), no Centro de Ciências da Saúde (CCS) e formada por pós-graduandos de Doutorado e Mestrado, além de alunos de iniciação científica e residentes também dão todo o suporte ao projeto.
Impacto além dos laboratórios
As contribuições do estudo extrapolam o tratamento da DPOC e oferecem valiosos direcionamentos para a saúde de toda a população, incluindo indivíduos sedentários sem qualquer doença crônica. O avanço científico demonstra que a prática regular de movimento é um fator central para a qualidade de vida e a funcionalidade ao longo dos anos. “A ciência mostra que ser ativo fisicamente traz grandes benefícios para além da estética, sendo principalmente na manutenção da saúde a longo prazo, prevenção de fraqueza e quedas, prevenção e tratamento de doenças cardíacas, metabólicas e neurológicas, e até na manutenção da capacidade cognitiva”, ressalta.
A pesquisa também desconstrói a ideia de que apenas rotinas de treinamento exaustivo produzem efeitos benéficos ao organismo. “Apesar de muitos pensarem que apenas exercícios pesados são importantes, cada vez mais a Ciência tem mostrado que mesmo atividades de intensidade leve são benéficas, e o simples fato de diminuir o tempo sentado ao longo do dia já pode trazer repercussões muito positivas. Cada minuto e todas as atividades contam”, destaca o pesquisador.
Pequenas mudanças de hábito, como levantar-se periodicamente ou caminhar distâncias ligeiramente maiores do que o habitual, geram impactos reais na saúde de pessoas saudáveis e de portadores de doenças crônicas. “Mesmo sabendo que se tornar fisicamente mais ativo é uma escolha difícil, complexa e dependente de diversos fatores, é importante ressaltar que é possível começar por pequenas atitudes e iniciativas, que podem trazer impactos reais na saúde”, diz.
Ao aliar rigor metodológico e aplicação social prática, o trabalho demonstra como o conhecimento gerado na universidade pública se converte em benefícios diretos para a sociedade. “O que a pesquisa pretende mostrar é que pacientes com dificuldades respiratórias crônicas e dificuldades para realizar atividades físicas mais intensas devido à doença, ainda assim podem se beneficiar do aumento de atividades de intensidade leve, o que pode levá-los a progredir gradualmente para níveis cada vez melhores de atividade física e saúde. Além disso, uma mudança de atitude na direção de uma vida um pouco mais ativa pode trazer benefícios não apenas no curto prazo, mas também ao longo do tempo”, sintetiza Pitta.
*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação/UEL
Foto destacada: Getty Images




