Cursos de Saúde desenvolvem ações conjuntas voltadas às pessoas em situação de rua
Cursos de Saúde desenvolvem ações conjuntas voltadas às pessoas em situação de rua
Projeto teve início em julho de 2024 e atua em parceria com as Secretarias Municipais de Saúde e Ação SocialPara o Estado, população em situação de rua é o “grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória”. É o que está no parágrafo único do primeiro artigo do Decreto 7.053, de 23 de dezembro de 2009.
Para os participantes do projeto de extensão “Trilha da cidadania para pessoas em situação de rua”, desenvolvido pelos cursos de Farmácia, Enfermagem, Medicina, Fisioterapia, Odontologia e Nutrição, são gente. Pessoas vulneráveis que precisam de tudo – de pasta de dente a um abraço. “”Principalmente um abraço”, ressalta a professora Dora Silvia Correa de Moraes (Departamento de Patologia Análises Clínicas e Toxicológicas).
O projeto começou a ser executado em julho de 2024, e a professora Dora, que está no projeto desde o início, assumiu recentemente a coordenação, já que a coordenadora original, professora Andreia Name Colado Simão, foi eleita e tomou posse como Reitora da Universidade.
Dora explica que o projeto nasceu de uma visão da professora Andrea, que fez contato com as Secretarias Municipais de Ação Social (SMAS) e Saúde (SESA), que já desenvolviam ações voltadas à população de rua. De fato, em 2021, a SMAS foi contemplada com o Prêmio Gestor Público Paraná, justamente por apresentar uma metodologia que facilita o vínculo e a reinserção social, investindo em qualificação, trabalho e resgate da cidadania, numa iniciativa conhecida como “Educador Par”. Também foi premiado o Cartão Londrina Cuidando das Pessoas, um cartão-alimentação.
De acordo com a atual coordenadora, a professora Andrea manifestou grande interesse em participar de tais ações e conseguiu colaboradores de todos os cursos do Centro de Ciências da Saúde da UEL. O objetivo último é o mesmo: tentar reintegrar as pessoas, a partir de cuidados de saúde, habitação, empregos, entre outros aspectos. A população atendida inclui crianças, mães e filhos, pessoas trans, idosos e neurodivergentes. Algumas, infelizmente, segundo a professora Dora, não poderão prescindir de cuidados.
Casas de acolhimento
Os participantes do projeto realizam visitas periódicas as oito casas de acolhimento de Londrina. E aí já surge um triste detalhe: eram 15, mas nos últimos anos houve cortes de recursos, de modo que tais locais foram reduzidos praticamente pela metade. São menos pessoas atendidas, e menos possibilidades para aquelas que saem das casas mas se arrependem e desejam retornar – a vaga não existe mais. O projeto permanece cerca de 15 dias em cada casa, e depois passa para a próxima, num sistema de rodízio. Em média, são 15 pessoas atendidas em cada local, mas varia: já houve vezes que foram 50.
Dora relata que as casas de acolhimento são isso mesmo: casas. Oferecem estrutura, como quartos, cozinha, banheiro, ficam na zona urbana em locais de fácil acesso, perto de pontos de ônibus e outros serviços. Até porque, lembra a professora, muitos conseguem emprego e precisam se deslocar facilmente.
Segundo as estimativas (não oficiais) da própria professora Dora, Londrina tem mais de 2.000 pessoas em situação de rua. Mas o número não é o problema. O ponto é que algumas simplesmente não têm familiares, ou são rejeitadas por eles, ou apresentam alguma condição que simplesmente impede que possam viver de forma autônoma e independente. Aliás, um dos diferenciais do trabalho da SMAS é justamente a procura pelas famílias, onde quer que estejam.

Múltiplas ações
Dora observa que, apesar do esforço conjunto, às vezes aparecem demandas extremamente difíceis de serem supridas. Mas não são poucas as ações desenvolvidas. Os cursos de Saúde prestam uma enorme gama de orientações aos acolhidos, como o autocuidado com o corpo, prevenção contra drogas, doenças sexualmente transmissíveis, alimentação e manuseio de medicamentos (guarda, consumo, descarte, etc.). Uma professora de Microbiologia (CCB) já participou orientando sobre doenças respiratórias.
O zelo com esta população vai bem além. Por exemplo, o uso de telas pelas crianças acolhidas. Elas não podem simplesmente ter um celular à disposição, e mesmo para ver TV são precisos alguns cuidados. Desenhos e programas educativos são incentivados. Mas devem ser evitados, por exemplo, programas policiais, porque – além da violência – o pai ou a mãe de algumas crianças pode estar preso. Tudo é planejado conforme a faixa etária das crianças.
O projeto já realizou comemorações em datas especiais para as crianças, com lanches ou refeições especiais e muita brincadeira. Dora conta que, apesar das muitas atividades propostas, as crianças querem sugerir e decidir do que brincar. Eventualmente, o projeto levou crianças a espaços da UEL, para que conheçam a instituição. Algumas crianças, segundo Dora, já manifestaram interesse em ser tornar um profissional da saúde. Elas também ficaram sabendo mais sobre as mudanças no corpo humano quando chega a adolescência.
Outro diferencial do projeto de extensão é a preocupação com os cuidadores e outros profissionais que trabalham com os acolhidos. Isso foi traduzido em treinamentos e outras formações, realizadas no CCS. Entre os temas já tratados, o uso de medicamentos, o cuidado com pessoas com TEA, e a saúde mental. De acordo com Dora, este último não apresentou apenas questões técnicas, mas serviu até como momento de desabafo dos cuidadores. Além dos treinamentos e encontros, o projeto produziu materiais de formação, como cartilhas (por exemplo, sobre o uso de telas).

Participantes
A maioria dos participantes do projeto é de alunos de graduação (212, atualmente), mas de pós-graduação (24 no momento) também atuam. Desde o início, 283 estudantes já passaram pelo projeto. Com eles, 43 docentes estão envolvidos.
Para se ter uma ideia, ano passado foram atendidas 1.700 pessoas, contando apenas os adultos. Além delas, cerca de 100 crianças e 40 pessoas trans. Só a Odontologia contabiliza mais de 200 pessoas atendidas individualmente, com orientações. Dora destaca que o objetivo era alcançar 1.000 pessoas. Já atendeu o dobro, e o projeto ainda tem quase um ano pela frente, isso se não for renovado.
O projeto tem sido disseminado de várias formas. Já participou de eventos como o Por Extenso da UEL, que reúne o Encontro Anual de Extensão Universitária e Simpósio de Extensão da UEL. Também foi apresentado em outros eventos científicos, como um da Odontologia e outro sobre Saúde Mental. Mês que vem, estará na Expofavela, em Porto Alegre. Além disso, o material de formação produzido, como as cartilhas, é disponibilizado a outras instituições e iniciativas.





