“Novo normal” reinventa a rotina e exige adoção de novos hábitos

“Novo normal” reinventa a rotina e exige adoção de novos hábitos

Estresse, ansiedade, depressão e desesperança são alguns dos efeitos emocionais da pandemia.

“Minha rotina mudou totalmente. Antes, eu fazia várias coisas no decorrer do dia e, agora, passo o dia em frente da tela do computador, fazendo as coisas do estágio, que está em home office, estudando e até fazendo exercício [físico]”. O relato é da estudante Marianne Freitas, do 3º ano do curso de Direito (vespertino), da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Para ela, uma grande preocupação é o futuro. “Será que vamos conseguir levar tudo isso? Se a gente vai fazer dar certo e como a gente vai conseguir se formar”.

Além das expectativas para o futuro, e da vida em frente ao computador e celular, a estudante afirma que ela e os pais tiram o sapato antes de entrar em casa – costume que não tinham, não circulam pela casa com a roupa que vieram da rua e higienizam todos os produtos quando chegam do supermercado. Ela admite que tudo isso é desgastante. A situação que enfrenta a estudante é a realidade de milhões de pessoas em todo o mundo para o que está sendo considerado o “novo normal”, ou seja, adoção de novos hábitos diante do enfrentamento à pandemia de COVID-19.

A psicóloga e professora Vanessa Ximenes, co-gestora da frente de psicoeducação do Projeto Suporte Psicológico COVID-19, afirma que estresse, ansiedade, depressão e desesperança são alguns dos efeitos emocionais da pandemia de COVID-19, causada pelo novo coronavírus. Esse projeto é uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPPG), do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento do Centro de Ciências Biológicas (CCB), Residência em Psiquiatria e apoio da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Sociedade (PROEX).

Mesmo diante dessa nova realidade, muita gente nega o perigo da transmissão do novo coronavírus e a gravidade da doença. Esse comportamento também tem explicação a partir de fatores psicológicos. “Diante da existência de uma ameaça muito intensa, algumas pessoas acabam negando a ameaça como forma de lidar com ela”, afirma a Vanessa Ximenes, que foi professora do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento do CCB, até o último mês de abril.

Projeto da UEL – O Projeto Suporte Psicológico COVID-19 pode ser contatado pelas redes sociais – @psicouel.covid. Contatos também podem ser feitos pelo celular (43) 99625- 5345. A professora Vanessa Ximenes atendeu a um pedido de entrevista da Agência UEL, por e-mail. Confira abaixo:

Agência UEL – Qual o impacto desse “novo normal” no comportamento das pessoas?

Vanessa Ximenes – As pessoas estão sendo impactadas de modos distintos pela crise da COVID-19. Não saber quando a pandemia irá terminar, não ter segurança sobre ações e decisões governamentais para frear a transmissão do vírus, sentir ameaça de demissão ou redução de salário, estar exposto à violência familiar, ter jornadas de trabalho mais extenuantes são algumas das novas realidades impostas e que aumentam grandemente a vulnerabilidade psicológica das pessoas justamente porque diminuem o senso de capacidade e controle dos indivíduos. Estresse, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e desesperança são alguns dos efeitos emocionais desse momento.  

Agência UEL – A pandemia de COVID-19 forçou novos hábitos, como lidar com isso?

Vanessa Ximenes – Existem diferentes condições que influenciam essa adaptação aos novos hábitos. Precisamos entender que é justamente a adoção desses novos hábitos que irá fazer com que a transmissão seja reduzida e a gente saia logo dessa crise com o menor número de afetados possível. A pandemia traz à tona o risco de agir pensando unicamente no próprio bem ou no próprio benefício imediato. A sua ação somada à ação das pessoas ao seu redor é determinante para afetar a situação atual. 

Agência UEL – O que fazer para minimizar possível sofrimento psicológico? 

Vanessa Ximenes – É imprescindível identificar alterações comportamentais como modificações no sono, no apetite e no humor, aumento de irritabilidade, desesperança e medo. Esses são alguns indicativos de que é o momento de buscar por ajuda psicológica. Além disso, buscar redes de suporte social, adotar atitudes (muitas vezes pequenas) que geram a sensação de controle no dia a dia (como organizar sua rotina, levar o lixo, fazer uma refeição) e se engajar em ações  (online) que envolvem a participação coletiva (como grupos de apoio, de estudos, de discussão sobre agravos sociais) podem ser caminhos para proteger a saúde mental.  

Agência UEL – Uma parte significativa da sociedade nega o coronavírus e a gravidade da COVID-19. O que explica esse comportamento?

Vanessa Ximenes – É como se estivéssemos vivendo diferentes pandemias ao mesmo tempo no Brasil, eu diria ao menos 27 delas (referente aos nossos 27 estados). Atitudes de governantes que banalizam a gravidade da COVID-19 demonstram o rompimento do compromisso com o povo. Pessoas reproduzem discursos e parte do que se fala (e se faz) pelos “líderes” políticos é um desserviço ao trabalho que está sendo realizado nas inúmeras unidades de saúde, à ciência e à produção de pesquisas acadêmicas, um risco ao direito de saúde integral e universal. Além da conduta irresponsável dos gestores políticos, outro fato que pode fazer com que pessoas neguem a pandemia é a crença de que não irão ser afetadas ou que se forem afetadas, não morrerão porque não são grupo de risco, porque têm plano de saúde ou porque são atletas. Diante da existência de uma ameaça muito intensa, algumas pessoas acabam negando a ameaça como forma de lidar com ela. Isso fica ainda mais grave quando temos algumas autoridades que atuam dessa forma, pois acabam dando suporte para essa fantasia de que a pessoa é imbatível ou que está acima de qualquer risco. E qual a razão para isso acontecer? Temos inúmeros riscos presentes no cotidiano, mas suprimimos alguns deles para poder levar nossas vidas. Caso contrário, ficaríamos paralisados pelo medo.

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