Muito além das batalhas
Muito além das batalhas
O pesquisador continua a realizar um levantamento de tudo o que foi escrito sobre a participação do Brasil no conflito, em vários países, mas agora com foco também em países menos envolvidos diretamenteA Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi uma “virada de chave” na História, pois ela provocou, direta e indiretamente, efeitos ainda não totalmente mapeados pela Historiografia. Em parte, porque ainda há muitas fontes sob sigilo. Em parte, porque são muitas as abordagens possíveis, e têm crescido aquelas que fogem dos estudos mais tradicionais, concentrados em batalhas e personagens ilustres.
É com foco neste olhar amplo, global e interdependente sobre a Segunda Guerra que o professor Francisco César Alves Ferraz (Departamento de História) prossegue seus estudos, agora num novo projeto recém contemplado com Bolsa Produtividade pelo CNPq: “Escritos em Guerra, Escritos de Guerra”. O pesquisador continua a realizar um levantamento de tudo o que foi escrito sobre a participação do Brasil no conflito, em vários países, mas agora com foco maior, também em países menos envolvidos diretamente, como os do Oriente Médio e África Subsaariana.
Tais regiões foram afetadas pela Guerra? Sim. O Irã, por exemplo, foi invadido “preventivamente” pela Inglaterra e pela União Soviética, em 1941, de olho nos recursos petrolíferos que podiam abastecer os Aliados. É por casos como este que o professor Francisco chama a 2ª Guerra de “imperialista”.
O caso chinês
A China foi outro país muito afetado pela Guerra, mas ela reagiu à altura. O Japão invadiu a Manchúria (nordeste da China) em 1931, e a partir de 1937 começou a ampliar o território ocupado, naquilo que ficou conhecido como (segunda) Guerra Sino-Japonesa. Mais de 15 milhões de chineses foram mortos até o final do conflito, em 1945. Só o Massacre de Nanquim pode ter chegado a 300 mil pessoas exterminadas em 1937. O Japão minimiza os números.
O filme “731” aborda de forma crua e explícita os experimentos que os japoneses fizeram nos prisioneiros chineses. O título se refere à Unidade 731 do Exército Imperial Japonês, responsável pelas atrocidades. Conforme o professor Francisco, o filme é exibido às crianças chineses nas aulas de História, para que saibam o que aconteceu. O pesquisador esteve duas vezes na China ano passado, inclusive em setembro, quando (no dia 3) se comemora a vitória chinesa final nos conflitos. Ele foi o único convidado brasileiro nos eventos científicos.
A China foi, de acordo com o professor Francisco, o segundo país que mais perdeu pessoas na 2ª Guerra (mais de 20 milhões), atrás apenas da União Soviética (mais de 25 milhões). Não só no front, mas também em extermínios programados, e fome. Mas a nação foi brava: fez o Japão mobilizar 4 milhões de soldados. E é bom observar que a China estava dividida na época, entre nacionalistas e comunistas. Estes, com táticas de guerrilha, conseguiram apoio dos camponeses e se opuseram fortemente ao invasor. Depois do fim da Guerra, em 1949, o conflito interno acabou com a vitória do Mao Tsé Tung, do Partido Comunista Chinês, e a fundação da República Popular da China.
Nazistas refugiados nos EUA
Se os Estados Unidos posam de grandes libertadores da Europa e ferrenhos inimigos do nazismo, é bom saber que não é bem assim. O documentário ‘Caixa Postal 1142’ (2021, disponível da Netflix) revelou que muitos especialistas nazistas foram abrigados nos EUA e instalados confortavelmente num campo secreto que nem as Forças Armadas americanas sabiam que existia. Lá, desfrutavam de todos os confortos e prazeres em troca de segredos de estratégia e tecnologia. Soldados judeus foram convidados a interrogar os alemães, que só informavam o que queriam, sob o olhar revoltado dos interrogadores, inconformados com o privilégio dos nazistas.
Um dos ilustres “prisioneiros” do campo secreto foi Wernher von Braun, um engenheiro aeroespacial que desenvolveu uma série de foguetes e projéteis para a Alemanha na guerra. Visionário, von Braun também é amplamente conhecido pelo desenvolvimento do foguete Saturno V, que levou os astronautas americanos à lua, em julho de 1969, o que lhe valeu a alcunha de “pai do programa espacial norte-americano”.

De volta ao Brasil
O ataque à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, é o mais conhecido, mas o Japão fez uma série de outras incursões no Pacífico. Uma delas foi na Malásia, então a maior fornecedora de borracha ao Ocidente. Vale lembrar que o Brasil tinha esta liderança, até a Inglaterra levar mudas e sementes à Malásia para dominar seu próprio mercado de produção de borracha.
Com a ocupação japonesa, os Aliados voltaram ao Brasil, e os Estados Unidos financiaram a produção de borracha. Mas como não havia mão de obra suficiente, o governo brasileiro incentivou a ida de trabalhadores à região norte. A maioria dos interessados migrou do Nordeste semiárido para lá. Resultado: cerca de metade dos mais de 30 mil trabalhadores migrantes morreram com a mudança geográfica.
Os impactos no Brasil foram muito além da política ou mesmo da economia. Terá sido coincidência o Zé Carioca ser criado por Walt Disney em 1941? Isso foi um aspecto cultural ligado à aproximação na época entre Brasil e Estados Unidos, que acabou levando a um processo consolidado de americanização brasileira, dos alimentos aos quadrinhos.
Em terra, no mar e no ar
O Brasil interessava aos Aliados, e particularmente aos EUA, por muitas razões. Primeiro, sua extensão territorial, marítima e de espaço aéreo. Segundo, pelos recursos naturais. O Brasil dispunha, por exemplo, além da borracha, do cristal de quartzo, usado nos rádios dos soldados, e cobre, largamente utilizado, em todos os projéteis bélicos.
A base aérea americana instalada no Rio Grande do Norte virou até assunto de novela brasileira, mas a estratégia dos EUA foi muito mais ampla e é bem menos conhecida. O país instalou cerca de 25 bases no Norte e Nordeste do território brasileiro, mas algumas “disfarçadas” de pequenos aeroportos criados para desenvolver o Brasil. O governo Vargas fez sua parte: restringiu pilotos estrangeiros, visando os alemães.
Vale lembrar que as duas grandes companhias da época, Varig e Cruzeiro do Sul, tinham forte origem e ligação com o capital alemão. A Varig foi fundada em 1927 por Otto Ernst Meyer-Spelhorne. A Cruzeiro do Sul nasceu de uma subsidiária da Lufthansa (Condor Syndikat). De outro lado, começou a ganhar espaço a companhia americana Pan Am (Pan American Airways), que logo fundou a brasileira Pan Air. Algumas fontes dizem que as companhias de origem alemã contrabandeavam materiais do Brasil para a Alemanha, o que fez os EUA exigirem e o Brasil controlar as atividades das companhias.
No sul do Brasil, os imigrantes e descendentes italianos e alemães, sobretudo, eram visados pelo governo Vargas. Não é à toa que cidades mudaram seus nomes na época, dentro de uma campanha de nacionalização paralela à discriminação contra os imigrantes vindos de países do Eixo, e chamados pejorativamente na época de “Súditos do Eixo”. Dreizehnlinden (SC) foi aportuguesada: Treze Tílias. Nova Belluno (SC) passou para Siderópolis. E Nova Danzigue virou Cambé (PR).
É verdade, porém, que havia membros do partido nazista no sul do Brasil, daí a preocupação do governo brasileiro. Gaúcho, Vargas se preocupava com a vizinha Argentina, que abrigava nazistas, espiões e se tornou depois da Guerra um dos refúgios para militares alemães.
Pesquisa
Até agora, o professor Francisco já levantou exatas 2.681 obras que falam do Brasil na Segunda Guerra, publicadas entre 1945 e 2020 (o recorte da pesquisa) em vários países, até a Polônia. “São 13 anos de trabalho”, diz o pesquisador.
O novo projeto se alicerça em quatro eixos: origem e causas da Guerra; protagonistas – indivíduos, classes e grupos; caráter interdependente (global) do conflito; e Brasil na 2ª Guerra. Francisco conta com alguns orientandos de Iniciação Científica e IC Júnior. Ele informa que vai buscar editais para concessão de bolsas. Aos poucos, outros pesquisadores, de outras áreas, vão aparecendo. O professor cita alguns de Enfermagem interessados nos serviços de saúde prestados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Guerra.
A pesquisa já tem sido amplamente disseminada, com apresentações em eventos científicos (como na China) e muitas publicações. Um e-book deve ser lançado em breve com 12 temáticas. Outro (já 50% pronto) deve vir na sequência, com comentários sobre a bibliografia levantada e resumos de 120 obras consideradas “clássicas” sobre o tema. “Um guia de estudos sobre o Brasil na 2ª Guerra Mundial”, define o professor.
Ainda assim, admite o pesquisador, há desafios. Como se trata de bibliografia de guerra, militar, uma grande quantidade de documentos ainda é mantida em segredo de Estado, especialmente nos EUA. Em março de 2020, o Papa Francisco abriu ao público os arquivos do Vaticano referentes ao Papa Pio XII, o pontífice da Segunda Guerra, alvo de algumas polêmicas. Na avaliação do professor Francisco, talvez nada de muito surpreendente possa ter sido descoberto até agora, pois nenhuma publicação de impacto veio deste acervo ainda. Mas é preciso aguardar mais.

(Foto: André Ridão/COM)




