Estudos de Geografia Urbana alertam para estruturas excludentes que ameaçam a autonomia dos idosos
Estudos de Geografia Urbana alertam para estruturas excludentes que ameaçam a autonomia dos idosos
As barreiras diárias enfrentadas pela população ultrapassam a falta de infraestrutura e se transformam em problema que ameaça a saúdeO ritmo acelerado das áreas urbanas e a lógica de planejamento focada no tráfego de veículos transformaram as cidades em ambientes hostis para uma parcela crescente da população. Calçadas esburacadas, semáforos com tempos curtos de travessia e sistemas de transporte de difícil acesso impõem barreiras diárias ao público idoso. O problema ultrapassa a esfera da acessibilidade física tocando questões de justiça social e saúde pública que afetam diretamente a autonomia, a independência e a sociabilidade de milhões de brasileiros.
A urgência do debate ganha dimensão diante da aceleração da transição demográfica. O Brasil passa por uma queda expressiva da taxa de fecundidade que passou de 6,28 filhos por mulher em 1960 para 1,9 em 2010; acompanhada pelo aumento contínuo da expectativa de vida, que era de 48,4 anos em 1960, atingiu 73,4 anos em 2010 e tem projeção de alcançar 81,89 anos até 2050. Segundo estimativas do IBGE, os idosos representarão 37,8% dos brasileiros até 2071, somando mais de 75 milhões de pessoas. No entanto, os centros urbanos ainda mantém estruturas excludentes que limitam o pleno exercício do direito à cidade para os mais velhos.
O Descompasso Político e Estrutural
Para pesquisadores da área do planejamento urbano e da geografia, as deficiências de circulação não são fruto da falta de conhecimento técnico, mas de escolhas políticas de investimento que historicamente priorizam o transporte automotivo individual em desfavor do pedestre. O estudo da cidade pela geografia busca compreender como o espaço se organiza, as motivações dos deslocamentos e as razões pelas quais determinados bairros e locais de atividades são ou não conectados. Para a disciplina, estudar o território é entender como ele se projeta no espaço físico como o resultado de conflitos, tensões e decisões políticas.
As vias e os espaços de circulação (como ruas, calçadas e ciclovias) também integram o espaço geográfico e são alvo de disputas. A decisão de onde aplicar investimentos públicos ou de onde implantar uma infraestrutura gera resistência e conflito. Essa disputa por espaço transforma a gestão urbana em uma disputa política e territorial.

A alocação de investimentos e prioridades em bairros ou grupos de maior poder, em detrimento dos mais vulneráveis, resulta em injustiça e iniquidade social. O planejamento urbano deixa de ser puramente técnico e passa a ser regido por decisões políticas e de poder.
Vinícius Polzin Druciaki, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), esteve na UEL na última semana e participou do primeiro Encontro do Grupo de Estudos de Geografia Urbana (Geourb) que discutiu os chamados “Territórios Intergeracionais do Cuidado”. Vinculado ao programa de Pós-graduação de Geografia (Ppggeo-UEL), o grupo com apenas dois meses de existência, já vem tratando o tema da mobilidade, com um olhar especial ao público da melhor idade.
“Independentemente da escala da urbanização, temos diversos problemas de um ambiente urbano que está em constante transformação, mas cuja construção e dinâmica têm repelido as pessoas do seu ambiente de circulação e dos espaços de convivência. Isso quer dizer que tem se tornado cada vez mais difícil para uma pessoa se deslocar a pé ou usufruir de espaços por prazer”, comenta o pesquisador.
A legislação brasileira conta com arcabouços normativos robustos, tais como o Estatuto da Cidade, o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), a Lei de Acessibilidade (Lei nº 10.098/2000) e a Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2012). No entanto, continua Druciaki, a aplicação prática das diretrizes legais ainda ocorre de maneira fragmentada, falhando na oferta de uma rede de acessibilidade universal contínua. “O Brasil não tem nenhum problema técnico. As ideias para melhorar o ambiente da cidade são simples, o problema é político. A estrutura política acaba por não implementar verdadeiramente o que é proposto pela jurisdição”, sentencia.

Barreiras Físicas e o Tempo do Pedestre
As limitações de mobilidade enfrentadas no cotidiano são ampliadas pelo descompasso entre o desenho da infraestrutura e as alterações fisiológicas e sensoriais naturais do envelhecimento. Diminuições na visão periférica favorecem colisões com o mobiliário urbano e pedestres, enquanto a redução no tamanho da pupila dificulta a diferenciação de sombras e contrastes em vias mal iluminadas. Além disso, padrões e desenhos em pisos externos podem provocar ilusões visuais nocivas para pessoas com perdas neurológicas ou visuais.
A norma técnica ABNT NBR 9050 estabelece como parâmetro uma velocidade de caminhada de 0,4 m/s para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Apesar disso, o planejamento tradicional dos semáforos urbanos costuma calcular o tempo de travessia com base em uma velocidade média de marcha de 1,2 m/s, impondo um ritmo acelerado que gera extrema dificuldade, medo e risco severo de atropelamentos. Os idosos representam 36% do total de vítimas fatais de atropelamentos no Brasil, e a mortalidade por este tipo de acidente alcança a taxa de 64,8 óbitos por 100 mil habitantes nessa faixa etária. Paralelamente, os problemas em calçadas resultam em uma taxa de mortalidade por quedas de 58,3 por 100 mil habitantes, sendo que cerca de 30% dos idosos que vivem na comunidade caem a cada ano e metade sofre quedas recorrentes.
O Isolamento Social
Esse conjunto de entraves cria um cenário de exclusão urbana. O processo tem início na presença de uma infraestrutura hostil, repleta de calçadas irregulares e semáforos apressados, o que consolida nos idosos um sentimento contínuo de medo e insegurança decorrente de situações prévias de risco, os quase atropelamentos e quedas. Como resposta, a população idosa passa a restringir seus deslocamentos e a abandonar o espaço público, o que desencadeia o isolamento social e acelera o declínio físico, cognitivo e a perda de autonomia. Na ausência de rotas seguras e espaços públicos adequados, o acesso ao lazer e à convivência comunitária fica severamente comprometido.
Sob a influência do modelo biomédico tradicional, os próprios idosos tendem a culpar o envelhecimento biológico e as perdas do corpo pelas quedas e dificuldades no trânsito. Contudo, a análise sob a ótica do modelo social demonstra que a incapacidade não reside no corpo do idoso, mas no ambiente urbano que se revela hostil e incapaz de absorver a diversidade funcional de sua população. “O parâmetro para se planejar uma via, uma calçada, uma rota de ônibus, uma ciclovia ou uma academia ao ar livre tem que ser a pessoa idosa, a criança, a pessoa com deficiência e a mulher grávida. Se a cidade não for boa para esses sujeitos, é impossível que seja boa para todo mundo”, recomenda o professor Druciaki.
De acordo com a professora do Departamento e coordenadora do colegiado de Gradução, Jaqueline Telma Vercezi, o tempo é diferente conforme amadurecemos. Para ela, superar esse cenário exige combater o etarismo e desconstruir preconceitos socioculturais sobre o envelhecer. “A nossa sociedade cultua muito o novo, o estético e a vitalidade. Percebemos nuances de preconceito e a criação de iniciativas de pesquisa é justamente para desconstruirmos esse perfil pejorativo atribuído ao idoso, incutindo nas gerações mais novas a perspectiva de que todos envelhecerão e de preferência, com dignidade”, afirma.

Planejamento Urbano Inclusivo
A transformação do meio urbano requer intervenções estruturadas e alinhadas aos conceitos de Desenho Universal e caminhabilidade (walkability). Do ponto de vista econômico, a acessibilidade planejada desde a concepção original adiciona apenas 1% ao custo total de uma obra, ao passo que realizar adequações posteriores em espaços já construídos pode encarecer a intervenção em até 25%. O alcance dessas medidas beneficia a sociedade como um todo, visto que cerca de 123 milhões de brasileiros possuem relação direta ou indireta com pessoas de mobilidade reduzida.
Para os pesquisadores, a transição demográfica exige que a mobilidade urbana deixe de ser tratada sob a ótica meramente rodoviária ou assistencialista, para se consolidar como um determinante estrutural de saúde e cidadania. Garantir rotas seguras e transitáveis para a população idosa representa assegurar o direito fundamental à cidade para toda a sociedade.
A Formação de Redes de Pesquisa
Criado há cerca de dois meses e reunindo atualmente 16 membros, o grupo de estudos vinculado à pós-graduação de Geografia da UEL passa por um processo de consolidação. O objetivo é a aprovação do grupo de pesquisa no âmbito da instituição para o posterior cadastramento no diretório de grupos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A institucionalização busca dar suporte e visibilidade às dissertações e teses já em produção na UEL e que transitam pelas dinâmicas espaciais e sociais do envelhecimento, além de fortalecer a atuação em rede com docentes de outras instituições de ensino superior, como já acontece com a UFG. Conforme destacam os pesquisadores, o trabalho articulado entre diferentes centros de pesquisa é a via pela qual os grandes temas da geografia e do planejamento urbano têm se consolidado no país.
Etarismo Acadêmico
A reflexão sobre a velhice e o preconceito etário não se restringe à dinâmica das ruas e se estende para o próprio ambiente universitário. A crítica é em relação à forma como as instituições de ensino superior lidam com os professores mais velhos e recém-aposentados.
Na opinião de Vinícus Druciaki, na busca por metas de produtividade impostas pelas agências de fomento, a academia frequentemente invisibiliza a trajetória daqueles que dedicaram décadas à formação acadêmica e à produção científica. Quando o docente atinge a aposentadoria, são comuns o afastamento definitivo e a interrupção do diálogo com o departamento, desconsiderando a bagagem e a experiência acumuladas.
“Nós, professores universitários, infelizmente temos desprezado e invisibilizado os nossos colegas que chegaram na velhice, que se aposentaram, porque não estão mais produtivos para a Capes ou para a pós-graduação. Quantas vezes a gente traz essa pessoa para continuar contribuindo? Quantos de nós estamos dispostos a aprender com a bagagem que essa pessoa tem?”, questiona.
Ele sustenta a criação de espaços e mecanismos institucionais que permitam a permanência colaborativa dos docentes seniores. “Sem a exigência burocrática e o cumprimento rígido de metas laborais cotidianas, esses profissionais podem continuar a contribuir com orientações, debates e projetos de extensão, garantindo a preservação da memória acadêmica e a troca intergeracional dentro do espaço universitário”, diz.
A desconstrução do etarismo exige mudança de postura tanto na gestão das cidades quanto no interior da própria produção do conhecimento. Para os especialistas, incluir o idoso na pesquisa e na sociedade não significa apenas ter ele como como objeto de estudo, mas sim como um participante ativo das decisões.
Os docentes defendem que a métrica das políticas públicas deve ser invertida. O ponto de partida para a concepção de uma calçada, o tempo do semáforo ou a estrutura de um departamento acadêmico deve considerar a parcela da população com maior grau de vulnerabilidade. “Se o espaço urbano e acadêmico for estruturado de forma a acolher esses sujeitos, ele se tornará, por consequência, um ambiente plenamente acessível e democrático para toda a sociedade”, finalizam.
*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação/UEL – Foto destacada: Pixabay




