Projeto elabora BIM para a gestão de empreendimentos de interesse social 

Projeto elabora BIM para a gestão de empreendimentos de interesse social 

Reflexo da disparidade de renda entre as diferentes camadas da população brasileira, o déficit habitacional hoje estimado em 5,8 milhões de moradias – fonte: Ministério do Desenvolvimento Regional – é um grande gargalo que precisa encontrar soluções capazes de prover um maior “senso de comunidade”. Quem defende a tese é o arquiteto formado pela Universidade […]

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Agência UEL


Reflexo da disparidade de renda entre as diferentes camadas da população brasileira, o déficit habitacional hoje estimado em 5,8 milhões de moradias – fonte: Ministério do Desenvolvimento Regional – é um grande gargalo que precisa encontrar soluções capazes de prover um maior “senso de comunidade”. Quem defende a tese é o arquiteto formado pela Universidade Estadual de Londrina e atual docente do Departamento de Arquitetura e Engenharia Civil da Universidade de Bath (Inglaterra), Ricardo Codinhoto. Responsável por ministrar uma série de atividades formativas na UEL ao longo deste mês, Codinhoto também esteve em contato com gestores de órgãos ligados ao planejamento urbano de Londrina em uma oficina cujo objetivo foi elaborar as características de uma ferramenta de gestão de empreendimentos de interesse social, o chamado BIM (Modelagem de Informação da Construção). 

“Estamos retirando pessoas em condições de habitação informal e passando para a habitação formal. Então você imagina, há uma mãe solteira que trabalha três jornadas e deixa o filho com o vizinho. Isso é comunidade. Quando se retira essa pessoa e se coloca em uma casa nova, apesar de a casa ser melhor, ela perde o apoio que tinha e viver se torna inviável. Então, não vamos focar tanto na casa, mas sim no empreendimento, principalmente na parte de loteamento”, explica.

 
Além de docentes do departamento, estudantes de pós-graduação e demais membros da comunidade interna da universidade, participaram do workshop gestores da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) e do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul). 


Como resultados do trabalho em conjunto, Codinhoto destaca que o grupo focal conseguiu desenvolver um modelo que aponta para os interesses sociais, porém sem deixar de ser prático, eficiente e capaz de ser implementado pelo setor público com base nas tratativas com as agências de fomento. “Tivemos quatro atividades e chegamos às características que temos que prestar atenção e inserir no processo de projeto que se tem hoje. Porque também não adianta propor uma ferramenta de gestão que é fantástica no papel e chega na hora de implementar e não funciona”, pondera.

 
Morando há 17 anos na Inglaterra, o professor costuma ser solicitado para eventos técnicos entrevistas. No ano passado, abordou o pioneirismo da Inglaterra no processo de digitalização da construção civil em um evento promovido pelo BIM Fórum Brasil uma vez que o país europeu deu início a esta transformação ainda em 1998, com a elaboração de um relatório sobre as fragilidades do setor. Já a obrigatoriedade de adoção do BIM na elaboração dos projetos das obras públicas veio somente em 2016, com a promulgação de um conjunto de leis. O Brasil seguiu o mesmo caminho com a publicação de dois decretos presidenciais, em 2018. Porém, ainda hoje em dia, há uma resistência de parte da categoria de profissionais e docentes em utilizarem a ferramenta.

 
Ex-morador de um empreendimento da moradia popular, Codinhoto é ex-aluno da rede estadual de educação do estado de São Paulo. Após ter concluído a graduação na UEL, ingressou no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) até tornar-se doutor pela Universidade de Salford (Inglaterra) e docente na Universidade de Bath, considerada uma das três melhores do mundo no ensino da Arquitetura.

 
Ciclo de atividades formativas 

Ricardo Codinhoto passou a maior parte do mês de julho nas salas e corredores do Centro de Tecnologia e Urbanismo da UEL para a realização de um cronograma de atividades formativas. Professor visitante do programa de Pós-Graduação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, é docente da disciplina de Instrumentalização da Tese desde 2018, início do Doutorado em Arquitetura e Urbanismo na UEL. “Da mesma forma que eu sou professor visitante aqui, eu faço trabalhos na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e as dificuldades são as mesmas. Precisa avançar muito na área de Metodologia de Pesquisa, entender o que é evidência porque é o que fomenta argumentos”, avalia. 


Além de ministrar o workshop e orientar ao menos dois alunos de Doutorado, Codinhoto ministrou nesta terça-feira (26) uma palestra para estudantes de pós-graduação sobre outra importante experiência das escolas de arquitetura britânicas: a utilização da Pedagogia do Ateliê como metodologia de produção de, no mínimo, 50% dos projetos exigidos ao longo dos cursos de graduação. “Na Inglaterra, o órgão equivalente ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) exige que 50% do curso seja entregue dentro de um estúdio, onde os alunos vão praticar. Se o objetivo é ensinar você a praticar a Arquitetura, é no estúdio que praticamos, não em uma sala de aula olhando o professor. É você projetando e discutindo com os colegas e professores”, explica.

 
A programação de atividades em Londrina também inclui um encontro com servidores e demais profissionais que atuam com projetos e na manutenção da infraestrutura de hospitais ao longo desta quarta-feira. Neste evento, Codinhoto vai abordar tópicos importantes no contexto de digitalização de projetos, com a maior presença de técnicas que utilizam Inteligência Artificial e o aprendizado das máquinas, além da utilização do BIM. “É importante mostrar o que tem lá no horizonte de futuro, coisas que estão sendo feitas que geram maior eficiência na gestão. Porque em órgãos públicos não adianta só construir, você vai ficar com toda a manutenção da edificação. Acho que estas palestras de quarta e quinta-feira vão tocar nesses temas”, comenta a professora sênior do Departamento de Arquitetura, Ercília Hirota. 


Hirota também lembra que a vinda do ex-aluno para a UEL contou com o financiamento do Fundo Newton e da Fundação Araucária, possível graças ao Programa de Cooperação Internacional STEM (sigla para Science, Technology, Engineering and Mathematics) firmado entre o Conselho Britânico e o Ministério da Educação e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). No entanto, lamenta que o Brasil atravessa período de redução do investimento público para o setor, de modo que a contribuição pedagógica do docente em tantas atividades formativas é fruto mesmo de um sentimento de retribuição para com a UEL.

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