Projeto da Matemática propõe ressignificar o tradicional conceito de avaliação

Projeto da Matemática propõe ressignificar o tradicional conceito de avaliação

A proposta tem como aporte teórico, dentre outros aspectos, a Educação Matemática Realística (RME) abordagem que toma a matemática como uma atividade humana

A avaliação escolar, frequentemente utilizada apenas para dar uma nota no boletim, ocupa posição central no ensino brasileiro. Especialistas têm se debruçado na busca pelo desenvolvimento de estratégias que possam transformar essa lógica considerada meramente numérica, de modo a torná-la um meio pedagógico, qualitativo e vital, capaz de oferecer oportunidades para a aprendizagem dos estudantes.

O projeto: “Avaliação da Aprendizagem Escolar na Educação Matemática: instrumentos, trajetórias e contextos formativos”, coordenado pela professora Pamela Emanueli Alves Ferreira do Departamento de Matemática do Centro de Ciências Exatas (CCE), propõe contribuir como uma iniciativa que pretende subverter essa lógica tradicional de avaliação.

Além dela, há também docentes de outras Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado do Paraná que atuam no projeto: professora Regina Luzia Corio de Buriasco (UEL);  professor Paulo Henrique Rodrigues (Universidade Estadual do Paraná – Unespar); professor Gabriel dos Santos e Silva (Universidade Federal do Paraná – UFPR); professor Diego Barboza Prestes (Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP). No âmbito da pós-graduação, há estudantes de Mestrado e Doutorado que atuam na pesquisa. Colaboram também no projeto estudantes bolsistas de Iniciação Científica (IC) da graduação em Licenciatura em Matemática dessas instituições.

Da esquerda para a direita, os professores Gabriel dos Santos (UFPR), Pamela Alves (UEL) e Paulo Henrique Rodrigues (Unespar) (FOTO: arquivo pessoal)

O objetivo é possibilitar que a avaliação seja compreendida como uma prática de investigação, “em que a produção do estudante deixa de ser um produto quantificável para se tornar um ponto de partida no processo de aprendizagem”, explica Pamela Alves. Implica em fazer uma subversão da atividade matemática comumente praticada, deixando de ser vista como um conjunto de regras abstratas, mas como uma “atividade humana”.

Segundo a docente, a problemática inicial do projeto, “reside em confrontar a avaliação tradicional, a qual frequentemente limita-se a medir resultados, em vez de contribuir para o processo de ensino e aprendizagem do estudante. Esse rito da mensuração cria obstáculos em relação ao potencial formativo da avaliação e não promove uma cultura de aprendizagem”, explica Ferreira.

Para superar esse cenário, o projeto se fundamenta em uma abordagem de ensino que privilegia fazer e produzir matemática. De acordo com informações da pesquisa, a iniciativa tem como fundamentação teórica, a Educação Matemática Realística (RME). Baseada nos princípios dessa abordagem, o estudo ganha novos contornos ao ser adaptado ao contexto brasileiro.

A RME propõe o ensino de matemática por meio da “reinvenção guiada”, em que a aprendizagem se baseia em contextos “reais” para os estudantes. Essa adaptação no Brasil será estudada por meio das Trajetórias de Ensino e Aprendizagem (TEA), que mapeiam caminhos pedagógicos para os alunos. Três perspectivas fundamentais, destacados pelo projeto, são: Compreensão – com foco no entendimento dos conceitos, combatendo a memorização mecânica de fórmulas; Resolução de problemas – a Matemática como estratégia de investigação para enfrentar desafios complexos e Associação com contextos realísticos – conexão direta entre o saber acadêmico e as situações do cotidiano, naturalizando a disciplina.

Propostas avaliativas

O projeto investiga ferramentas que incentivam a regulação e o diálogo constante entre professor e aluno. Instrumentos como a Prova-escrita-em-fases permitem que o estudante tenha mais de uma oportunidade para resolver uma tarefa, e aprenda com o próprio percurso. Já a Prova-escrita-com-cola ressignifica o ato de “colar”: a folha de consulta torna-se uma estratégia de síntese e estudo organizada pelo próprio estudante. Há ainda o Vaivém, um processo que envolve feedback contínuo onde a produção escrita circula entre as mãos do professor e aluno, e as fichas de autoavaliação, que provocam o estudante a assumir o protagonismo de sua evolução.

A proposta de transformação das ferramentas projeta no professor a figura de quem guia a aprendizagem.  O projeto defende que a formação inicial e continuada de professores precisa ser um espaço de experimentação e interação real. Ao utilizar as TEA, o professor constrói segurança para antecipar caminhos e reagir pedagogicamente às dificuldades da turma.

Segundo Ferreira, o projeto foi estruturado em um roteiro de 36 meses, que percorre desde o planejamento teórico até a validação dessas práticas. “Trata-se de um movimento coordenado para investigar a avaliação como oportunidade de aprendizagem”, explica.

Além de potencialidades com relação a instrumentos avaliativos e ao ensino, o projeto também se debruça sobre uma perspectiva diferenciada de formação docente, considerando professores e futuros professores como protagonistas de seu próprio processo de aprendizagem profissional.

Resultados

Ao final, espera-se que o projeto possa produzir instrumentos de avaliação alternativos, manuais teórico-práticos com diretrizes detalhadas para professores aplicarem as inovações em diversos contextos na sala de aula, relatórios completos com fundamentos, métodos e análises de impacto. Também serão produzidos artigos para periódicos a fim de socializar os resultados obtidos, bem como a construção de um repositório público online de livre acesso para educadores de todo o país, com instruções práticas para a formação docente e aplicação dos materiais. Além disso, serão buscadas parcerias com escolas públicas para que a implementação e ampliação do impacto social das práticas desenvolvidas possa de fato ser aplicada.

*Estagiário de jornalismo da Coordenadoria de Comunicação Social.

*Foto ilustrativa: Vecteezy.

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