Estatisticamente falando…

Estatisticamente falando…

Ao completar 20 anos, o Departamento de Estatística comemora a criação da graduação em Estatística e Ciência de Dados

No ano em que o Departamento de Estatística completa seu vigésimo aniversário, antes chamado de Departamento de Matemática Aplicada, a principal comemoração é a criação do curso de graduação em Estatística e Ciência de Dados, que deve receber seus primeiros alunos em 2027.

Com 58 disciplinas de graduação e pós-graduação, o Departamento de Estatística é o único que pode dizer que já ministrou aulas em todos os nove Centros de Estudos da UEL. Com a extinção do curso de Ciência do Esporte, somente o Centro de Educação Física não tem mais, mas o professor Pedro Henrique Ramos Cerqueira (chefe do Departamento de Estatística) garante que essa situação vai mudar.

Parte do Centro de Ciências Exatas, o Departamento de Estatística possui 11 docentes efetivos, todos doutores. Eles ministram aulas em 36 outros Departamentos, em 25 cursos de graduação, 13 de Especialização e 15 de Stricto Sensu. Suas áreas de atuação vão da Probabilidade e Estatística até a Análise de Resíduos; de Defesa Fitossanitária até Teoria das Filas. Além disso, docentes atuam como consultores ou assessores à comunidade externa. O professor Pedro destaca o trabalho durante a pandemia em parceria com a Prefeitura de Londrina.

Ciência “inexata”

Embora seja classificada como uma Ciência Exata, o professor Pedro Cerqueira brinca que a Estatística é, na verdade, inexata. Isso porque lida com variáveis mais ou menos previsíveis, múltiplos fatores, probabilidades (e não certezas), e mais: com o imponderável, ou seja, aquilo que não se pode medir, pesar, calcular ou prever com exatidão.

É por isso que o Chefe do Departamento conhece um elenco de frases que sintetizam a área, para o certo e para o errado. De um lado, há os que afirmam que a Estatística “nunca erra”, justamente porque nunca dá certezas. Mas o professor lembra que existe o erro, o acaso e o aleatório. Então, é melhor dizer que a Estatística deve “errar o menos possível”. Não é à toa que qualquer pesquisa eleitoral termina dizendo “com margem de erro de x%…”. Porque “todos os modelos erram”, afirmam outros.

Entre duas posições tão antagônicas, talvez caiba um terceiro pensamento: “Os números não mentem, mas também não contam a história toda”. Esta “terceira via” não é uma média nem uma mediana, para usar o vocabulário da Estatística. Cerqueira explica que a média às vezes é absurda. Por exemplo, no cálculo de renda de uma população. A média pode ficar razoável – digamos 7 mil reais por mês – mas ignora que possam existir famílias vivendo com 700 reais, ou bem menos. Já a mediana, em posição central, divide os dados ao meio, e por isso mesmo pode ignorar valores extremos. O professor usa um versículo do salmo 91 para ilustrar: “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido”.

“Existe o erro, o acaso e o aleatório. Então, é melhor dizer que a Estatística deve ‘errar o menos possível'”, pondera o professor Pedro Henrique Cerqueira (Foto: André Ridão/COM)

Desafios

Para o Chefe do Departamento, a Inteligência Artificial veio ajudar, mas tem limites. Ela pode produzir um gráfico de qualidade, mas interpretá-lo é tarefa do estatístico humano. Para o professor, há outros desafios a serem vencidos antes. Um deles é o uso inadequado, e algumas vezes desonesto, dos números. É o encontro da má informação com um “analfabetismo numérico”, o que pode induzir a decisões equivocadas e efeitos no mínimo indesejáveis. Além disso, este tipo de atitude de má fé gera a aversão das pessoas, que deixam de confiar em estudos estatísticos. Pedro Henrique observa que as muitas piadas de estatísticos, ou de Estatística, podem ser usadas para demonstrar certos absurdos e explicar a partir daí como a Ciência funciona. Exemplo de piada ruim é aquela que diz que “100% dos condenados por homicídio comeram pão pelo menos uma vez na vida”. E outro, para mostrar como a aparente lógica leva ao erro: “Água faz mal à saúde do ser humano, e quanto mais ele toma, mais rápido ele morre”. Na verdade, trata-se da descrição “estatisticamente maquiada” de um afogamento.

Esta história dos homicidas comedores de pão tem nome: correlações espúrias. São variáveis que parecem estar conectadas, mas não existe nenhuma relação de causa e efeito entre elas. Como aqui: quanto mais igrejas uma cidade tem, mais assassinatos acontecem. O número destes crimes tem relação com o tamanho da população e outros fatores, não com o número de templos religiosos. E que tal esta: o aumento na venda de sorvetes acompanha o aumento de afogamentos em piscinas. O que está por trás, de fato, é o calor do verão. Alguém duvida que algum candidato a cargo eletivo, ou políticos governistas ou oposicionistas, abusam desta “ferramenta” quando falam de economia ou de uma nova lei trabalhista?

Dos tempos bíblicos

Nascida na Antiguidade, a Estatística começou como uma ferramenta de controle estatal (daí seu nome), para contagem de pessoas ou recursos, como terras e riquezas, não raro para estabelecimento de tributos.

Em Gênesis, capítulo 41, por exemplo, a fartura das colheitas foi tanta que José chegou a suspender a contagem nos silos, porque a quantidade era “além de toda medida”, “como areia no mar”. Isso foi no século XVII antes de Cristo. Dezessete séculos mais tarde, um censo determinado por César Augusto obrigou um carpinteiro a viajar de Nazaré para Belém para a contagem, levando junto sua esposa grávida. E a criança nascida lá, entre outras coisas, dividiu o calendário ocidental. Mais 17 séculos se passaram, e  os franceses Blaise Pascal e Pierre de Fermat criaram a base matemática da probabilidade estudando jogos de azar, em 1654, e a base da Estatística Moderna.

Nos últimos 100 anos a Estatística ampliou muito seu campo de atuação, como indica sua presença nos mais diferentes cursos da UEL.

Blaise Pascal e Pierre de Fermat

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