Startups transformam ciência de bancada em bioindústria de ponta

Startups transformam ciência de bancada em bioindústria de ponta

Com apoio da Aintec e da Intuel, pesquisas com resíduos agroindustriais e microalgas impulsionam o desenvolvimento de bioprodutos sustentáveis

Atualmente a biotecnologia é uma das vertentes estratégicas para o desenvolvimento socioeconômico. Ao unir as ciências biológicas à tecnologia, a área permite a manipulação de organismos vivos, células e moléculas para a criação de soluções inovadoras que impactam diretamente a longevidade, a sustentabilidade e a qualidade de vida no planeta.

A universidade pública é o ambiente ideal para o surgimento de respostas a essas demandas globais. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Agência de Inovação Tecnológica (Aintec) e a sua divisão de incubação, a Incubadora Internacional de Empresas de Base Tecnológica (Intuel), desempenham um papel importante no fortalecimento de ideias acadêmicas que se convertem em produtos comerciais. Em uma série especial de reportagens, O Perobal apresenta startups incubadas na UEL que estão desenvolvendo bioprodutos com alto potencial de mercado, amparadas pela pesquisa de excelência e pelo suporte institucional.

Aproveitamento de resíduos e saúde única

A Pronasul nasceu a partir das pesquisas sobre plantas medicinais e bioprodutos derivados de resíduos agroindustriais, conduzidas pela química Jessica Bassetto Carra e pelo biólogo e farmacêutico Ricardo Luís Nascimento de Matos, atual diretor de P&D/Inovação, com visão comercial.

A empresa foi incubada na Intuel para transformar resíduos da vitivinicultura em matéria-prima de alto valor agregado, desenvolvendo subprodutos agroindustriais por meio da extração e da estabilização de compostos bioativos. Com essa tecnologia, a empresa desenvolveu microesferas nutracêuticas com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias voltadas para a nutrição animal.

Além do segmento zootécnico, a iniciativa diversifica sua atuação no desenvolvimento de soluções sustentáveis e cosméticas, englobando a produção de fibras vegetais e de sabonetes em gel esfoliantes derivados de resíduos agroindustriais. Com parcerias estratégicas no ecossistema acadêmico e de inovação, a startup busca consolidar ajustes tecnológicos, ampliar a sua capacidade produtiva de microesferas e conquistar certificações para agregar valor econômico tanto aos seus próprios produtos quanto aos parceiros.

Resíduos agroindustriais transformados em bioprodutos

Apoio do ecossistema de inovação

Transportar os resultados obtidos em laboratório (microescala) para uma escala industrial se revelou um grande desafio e estar na incubadora, com a possibilidade de participar de eventos, congressos e encontros empresariais, ajudou a superar as primeiras dificuldades. “A Intuel foi fundamental tanto para a divulgação estrutural da empresa quanto para conhecer outras propostas e grupos. Foi excelente nessa fase”, comenta Matos. O apoio continuou através de encaminhamentos para a evolução do projeto e para o entendimento da viabilidade da produção em uma escala industrial.

Para o pesquisador e empresário, a Universidade é essencial não apenas para os estudos em biotecnologia, mas também para o desenvolvimento da startup. “Ela estimula tanto o nosso crescimento como pesquisadores, quanto a avaliação do senso crítico, a busca de dados e fontes confiáveis para que tenhamos uma argumentação melhor e, consequentemente, resultados melhores. Oferecendo a possibilidade de escalar a pesquisa do ambiente discente para o ambiente empresarial”, afirma.

No entanto, quando o material de pesquisa transita da bancada para a escala industrial, os problemas se tornam igualmente grandiosos. “Existe uma lacuna gigante entre a estrutura universitária de pesquisa de bancada e o produto acabado na prateleira do mercado”, diz, ressaltando a importância de uma maior integração entre as universidades e a realidade industrial para converter artigos científicos (papers) em produtos acessíveis à sociedade.

Hoje, a Pronasul trabalha na validação técnica de sabonetes esfoliantes. Outra frente é a transformação dos resíduos agroindustriais em fertilizantes a partir da demanda por uma destinação mais adequada de hidrolatos, os resíduos de óleos essenciais. Além disso, realizam consultoria para isolamento de substâncias em fitoterápicos e análise de compostos de plantas medicinais.

“Acredito que, dentre todos os nossos objetivos, está a parte da saúde única através da gestão dos resíduos sólidos convertidos em um produto que seja viável economicamente. Trabalhar utilizando uma química verde para reduzir a geração de resíduos, contribuindo com a qualidade do meio ambiente e oferecendo produtos de qualidade — interligando e preservando o meio ambiente, o ser humano e os animais”, pontua Matos.

Biólogo e farmacêutico, Ricardo Luís Nascimento de Matos, atual diretor de P&D/Inovação; e sabonete esfoliante: destinação sustentável de resíduos industriais (FOTOS: Divulgação)

Potencial biotecnológico das microalgas

Com trajetória consolidada na pós-graduação da UEL, o biólogo Helder Rodrigues da Silva direcionou sua carreira para a Microbiologia e a Bioenergia, com foco no desenvolvimento de biocombustíveis sustentáveis a partir de microalgas. “São microrganismos fascinantes e com um potencial biotecnológico enorme. Com o avanço das pesquisas, percebi que essas tecnologias também poderiam gerar inovações importantes para o agronegócio, especialmente no desenvolvimento de soluções voltadas para a agricultura”, explica Silva.

A oportunidade de converter o conhecimento acadêmico em negócio surgiu em 2019, com a aprovação em um edital da Intuel. Teve início, então, o desafio de migrar da carreira estritamente acadêmica para o ambiente corporativo ao estruturar a startup Novaalga – Biotecnologia de Microalgas.

Para Silva, a incubação é um processo de desenvolvimento mútuo: “A startup recebe orientação para amadurecer seu modelo de negócio e, ao mesmo tempo, contribui para o fortalecimento do ecossistema de inovação local. Esse processo envolve responsabilidades que preparam a empresa para atuar de forma autônoma no mercado”, diz.

A certificação CERNE, voltada à qualificação dos ambientes de incubação, é apontada pelo pesquisador como outro diferencial relevante. “Ela demonstra o compromisso com processos estruturados de apoio ao empreendedorismo inovador, fortalecendo a incubadora e ampliando as oportunidades de captação de recursos e inserção das empresas em programas de fomento”, avalia.

Biólogo Helder Rodrigues da Silva: foco no desenvolvimento de biocombustíveis sustentáveis a partir de microalgas

Ajuste entre a precisão científica e as regras de mercado

A biotecnologia representa um campo estratégico para a geração de inovações aplicadas à agricultura, energia, saúde e meio ambiente. As microalgas, em razão de sua alta diversidade metabólica, são insumos promissores para uma economia de base sustentável. “Estar inserida no ambiente universitário permite à startup estabelecer conexões diretas com pesquisadores, laboratórios e infraestrutura científica de ponta. Essa articulação facilita o enfrentamento de gargalos tecnológicos e estimula novas soluções”, analisa Silva.

Contudo, o pesquisador ressalta que o rigor científico isoladamente não assegura a viabilidade comercial de um empreendimento. “A startup precisa testar a escalabilidade das suas tecnologias e estruturar um modelo de negócio sustentável do ponto de vista financeiro. É necessário conciliar a precisão científica com a dinâmica do mercado. A integração entre universidade, incubadoras, empresas e órgãos de fomento é o que viabiliza a transformação do conhecimento em inovação com impacto econômico, social e ambiental”, completa.

A Novaalga atua no desenvolvimento de biofertilizantes à base de extratos de microalgas para aplicação foliar e tratamento de sementes, focando em culturas como soja, milho, trigo, cana-de-açúcar e hortaliças. O diferencial do produto reside na união do conhecimento científico à prática de campo.

Entre os principais obstáculos enfrentados pela startup estão as exigências regulatórias para a comercialização dos produtos. “Há mais de quatro anos buscamos avançar nos processos de registro da empresa e de suas atividades junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Essa experiência evidencia um desafio recorrente para as startups de base tecnológica frente aos prazos e exigências dos órgãos reguladores”, pontua.

Além dos bioinsumos agrícolas, a Novaalga desenvolve projetos em nanotecnologia aplicada ao agronegócio, aquicultura e dermocosméticos. A empresa mantém parceria com programas de graduação e pós-graduação da UEL (como o de Agronomia e os do Centro de Tecnologia e Urbanismo – CTU), integrando estudantes de TCC, mestrado e doutorado nas atividades de pesquisa e desenvolvimento.

Ao longo de sua consolidação, a startup obteve reconhecimento e financiamento por meio de programas de fomento e bolsas, tais como Sinapse da Inovação Paraná, TECNOVA II e III (Fundação Araucária), Catalisa ICT (Sebrae/CNPq), MAI/DAI (CNPq) e AGEUNI (SETI/UEL).

“Nossa meta é avançar na regularização e inserção comercial dos produtos, ampliar a capacidade produtiva e consolidar parcerias estratégicas. Pretendemos continuar investindo em novas aplicações biotecnológicas das microalgas, explorando oportunidades em múltiplos setores”, conclui Silva.

*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação UEL – FOTOS: André Ridão

Publicado em

É autorizada a livre circulação dos conteúdos desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte.